UOL Notícias Internacional
 

30/03/2005

U2 mostra na Califórnia por que é ícone do rock

The New York Times
Kelefa Sanneh

Crítico do NYT
Em San Diego, Califórnia
"Não sei se vou suportar/ Não fico à vontade de joelhos", Bono cantou e, caso o estádio cheio de fãs não acreditasse nele, passou duas horas provando que era verdade.

Sandy Huffaker/The New York Times

Bono cantou em San Diego nesta segunda-feira
Diversas vezes, durante o concerto de estréia mundial na noite da última segunda-feira (28/03) em San Diego (Califórnia), Bono caiu de joelhos para enfatizar o que dizia.

Ajoelhar-se é sua maneira de lembrar a todos que ele contém multidões: quando se abaixava, tornava-se um pecador arrependido, um amante ávido para agradar, um prisioneiro abusado e até --se não for exagero demais-- um astro do rock de 44 anos agradecido, desfrutando a adulação de seus fãs.

O concerto, em um estádio de hóquei bastante simples com um nome nada simples (oficialmente é o iPay One Center na Sports Arena), foi o primeiro da turnê "Vertigo 2005" da banda, comemorando o lançamento de seu novo álbum, "How to Dismantle an Atomic Bomb" [Como desmontar uma bomba atômica] (Interscope).

O U2 não é, para colocar brandamente, o tipo de banda que parece se intimidar com a popularidade, por isso o concerto não pretendia surpreender, confundir ou provocar o público.

Foi uma apresentação intensamente satisfatória de uma banda que entendeu o que faz melhor e parece contente em fazê-lo. Algumas bandas são engolidas por grandes estádios, mas o U2 foi feito para eles: as linhas de guitarra ecoantes de The Edge só melhoram quando repercutem em paredes de concreto, e as letras de Bono são melhores quando cantadas por dezenas de milhares de fãs.

Se há alguém que goste mais do U2 que seus fãs são os executivos da gravadora. Com quase 30 anos de carreira, a banda evoluiu de vender montes de LPs de vinil para montes de iPods. Os clientes são leais e o trabalho filantrópico de Bono só reforçou a marca; ele é idealista e direto, mas geralmente não polêmico.

O novo show ao vivo da banda é forte, mas não exagerado; o único efeito especial é uma cortina gigante, cujas contas brilhantes servem como pixels em uma enorme tela de vídeo.

A turnê deverá continuar até o fim do ano, com uma série de datas marcadas na Europa e no verão. A banda deverá tocar em East Rutherford, Nova Jersey, em 17 e 18 de maio, no Madison Square Garden em Nova York no dia 21 de maio e mais cinco locais em outubro.

Em 1997, quando o U2 lançou o ambicioso álbum de influência eletrônica "Pop", o grupo não parecia tão à prova de balas quanto hoje. Você tem a sensação de que, por bem ou por mal, seus membros estavam se esforçando para continuar atuais.

Mas hoje em dia, atual parece menos atual que nunca. A sinceridade à moda antiga do U2 e as grandes guitarras bem metálicas parecem à vontade no mundo antiquado do rock alternativo de hoje. Não por coincidência, a banda contratou bandas de rock alternativo jovens e antiquadas para abrir os shows, incluindo Killers, Snow Patrol e Kings of Leon, que iniciaram a apresentação de segunda-feira.

E logo antes de o U2 subir ao palco, o sistema de som estourou "Wake Up", do Arcade Fire --uma maneira esperta, talvez, de perguntar se os acordes de guitarra e os vocais suplicantes pareciam conhecidos.

Como sempre, Bono deu um show à parte, não apenas se ajoelhando mas saltitando e pedindo que o público o acompanhasse. Em certo momento ele se deitou de costas e não era preciso ser um fã do provocante jogador de basquete Ron Artest para se perguntar que reação poderia ter sido inspirada por um copo de alguma coisa fria atirada com precisão.

Também houve discursos. Talvez haja um lugar onde os americanos não gostem de escutar um irlandês dar uma lição sobre o reverendo Martin Luther King Jr. ("Ele não estava só falando sobre o sonho americano", Bono explicou. "Seu sonho era maior que isso.") Mas não foi este.

Enquanto Bono se deliciava fazendo o diplomata e o showman (e sugerindo que esses dois personagens têm algo em comum), o resto da banda trabalhava, criando os sons e as texturas simples que aparecem cada vez mais em suas canções. Mesmo quando The Edge fazia um de seus solos de terapia de choque, era Bono quem dava a performance exagerada, sacudindo no ritmo do barulho.

Em 2000, o U2 lançou "All That You Can't Leave Behind", um disco belo e propositalmente antiquado que trazia uma série de sucessos, incluindo "Beautiful Day", construída em torno de uma maravilhosa linha de baixo de Adam Clayton, cujas notas graves subiam para acompanhar o otimismo de Bono.

O novo álbum tem algumas arestas mais acentuadas (e às vezes dolorosas), e algumas voltas inesperadas. ("One Step Closer", que a banda não tocou segunda-feira, é um trecho surpreendentemente eficaz de um murmúrio do Velvet Underground.)

Principalmente, porém, a mensagem é a mesma nos dois discos: "Atomic Bomb", como seu antecessor, é um tributo à alegria de fazer ruído com as pessoas que você ama. Enquanto o álbum anterior tinha "Elevation" (depois da versão destruída de segunda-feira Bono disse: "Podemos brincar um pouco, certo?"), este tem "Vertigo", outro tributo ao poder atordoante da ligação musical.

"Dêem-me alguma coisa que eu possa sentir", exclamou Bono, e ele poderia estar se dirigindo a seus fãs ou representando-os.

Esta é uma banda que durou um tempo notavelmente longo sem explodir, e sua disposição no palco lembrava o átomo não dividido do título do álbum. The Edge, Clayton e o baterista Larry Mullen Jr. eram o núcleo, principalmente imóveis no palco principal. E Bono, é claro, era o elétron, orbitando seus colegas de banda em uma passarela circular que entrava pela multidão; cada vez que ele voltava ao palco parecia uma alegre reunião.

Uma das canções finais da noite foi "Yahweh", que parece levemente ridícula quando aparece no fim de "Atomic Bomb": "Iau, Iau/ Sempre há dor antes de uma criança nascer", Bono grita, e você poderia desejar que ele estivesse dizendo sílabas sem sentido. Mas quando a banda tocou uma versão em guitarra acústica, quase no fim do concerto, se transformou em algo poderoso.

Mas novamente Bono inclinou a cabeça para trás e pediu para os fãs o acompanharem --um gesto audacioso, mas não enganado. Como Bono sabe melhor que ninguém, é difícil sorrir quando você está cantando na capacidade máxima dos pulmões. Banda britânica inicia turnê americana para lançar seu novo álbum Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host