UOL Notícias Internacional
 

01/04/2005

Após longa batalha judicial, morre Terri Schiavo

The New York Times
William Yardley e Maria Newman

Em Pinellas Park, Flórida
Terri Schiavo, a mulher da Flórida com grave lesão cerebral que se tornou centro de uma intensa batalha legal e política, atraindo respostas da Casa Branca, do Congresso e do Vaticano, morreu nesta quinta-feira (31/03), 13 dias após seu tubo de alimentação ter sido removido por ordem de um juiz estadual.

Schiavo, 41 anos, morreu pouco antes das 10h de quinta-feira, no asilo de Pinellas Park onde viveu por vários anos, disse o advogado dos pais dela. Mas apesar de sua morte, as fortes emoções que cercaram seus últimos dias permaneceram, após um debate nacional sobre se ela deveria ou não receber de volta o tubo que lhe fornecia nutrição e hidratação.

O advogado, David Gibbs, disse que o irmão e a irmã de Terri Schiavo estiveram com ela até pouco antes de sua morte.

"Eles estão deprimidos; este é um dia infeliz para a nação, este é um dia infeliz para a família", disse Gibbs. "A fé deles em Deus permanece constante e forte. Eles estão absolutamente convencidos de que Deus ama Terri mais do que eles. Eles acreditam que Terri agora está em paz com o próprio Deus."

"Eles pretendem buscar conforto em sua fé e família neste momento." A CNN informou que o marido de Terri Schiavo, Michael, estava com ela quando ela morreu.

Os pais dela, Robert e Mary Schindler, chegaram ao asilo pouco depois que souberam da morte dela e rezaram ao lado de seu leito, disse o irmão Paul O'Donnell, um frade franciscano que tem atuado como porta-voz dos pais. Eles partiram logo depois.

À medida que a notícia da morte dela se espalhava entre a multidão do lado de fora do asilo, algumas pessoas passaram a cantar hinos, outras começara a rezar.

Logo após a morte de Terri Schiavo, o corpo dela foi transportado para o gabinete do legista, onde uma necropsia será realizada a pedido do marido.

Pouco antes do meio-dia, o presidente Bush disse que estava triste com a notícia da morte de Terri Schiavo. "Eu peço a todos aqueles que honraram Terri Schiavo que continuem trabalhando para a formação de uma cultura da vida, onde todos os americanos são bem-vindos, valorizados e protegidos", disse o presidente, "especialmente aqueles que vivem à mercê de outros".

"A base da civilização é a de que os fortes têm o dever de proteger os fracos. Em casos onde há sérias dúvidas e questões, a suposição deveria ser a favor da vida."

O governador da Flórida, Jeb Bush, que tentou intervir no caso várias vezes para manter Terri Schiavo ligada ao seu tubo de alimentação, disse após tomar conhecimento de sua morte que "este assunto transcende políticas públicas e partidárias". Ele também considerou esta "a questão mais difícil" de seu mandato.

"A experiência dela ampliará a consciência da importância da família lidar com questões de final da vida, e isto é um legado incrível", disse ele. "A política cuida de si mesma."

"Como sociedade, à medida que vivemos mais, é importante para nós lidarmos com tais questões. Eu gostaria de poder ter feito mais. Esta é a tristeza em meu coração."

A luta entre o marido de Terri Schiavo para que o tubo de alimentação de sua esposa fosse removido, dizendo que era o desejo dela não viver em um estado vegetativo, e os pais dela, que diziam que ela ainda poderia ser recuperar com o devido tratamento, durou sete anos e passou pelos tribunais estaduais e pela Suprema Corte, várias vezes. Na noite de quarta-feira, a Suprema Corte se recusou, pela sexta vez, a acolher a questão.

A disputa da família também resultou em uma nova lei estadual na Flórida e em uma sessão de emergência da Câmara dos Deputados, que produziu uma nova lei federal, sancionada pelo presidente Bush, nas primeiras horas da madrugada de 21 de março.

Vários juízes ficaram ao lado de Michael Schiavo, mas os pais dela não desistiram, indo de tribunal a tribunal, apelando a políticos e pessoas que acreditavam que a remoção do tubo era equivalente a tirar uma vida.

"Não apenas o caso da sra. Schiavo recebeu o devido processo, mas poucos casos semelhantes, se é que há algum, receberam tamanha revisão de alto nível", escreveu o juiz chefe Chris Altenbernd, da 2º Tribunal de Apelações na Flórida, no início deste mês.

A disputa provocou uma grande discussão nacional, com pesquisas mostrando que a maioria das pessoas não acreditava que políticos deveriam se envolver nas questões pessoais de uma família tentando decidir se um parente deve ou não ser mantido vivo.

Mas também provocou um enorme protesto por parte de uma coalizão improvisada de lobistas católicos e evangélicos, manifestantes de rua e consultores legais, alguns dos quais presentes do lado de fora do asilo nos últimos dias, assim como montando piquetes do lado de fora das casas de Michael Schiavo e do juiz George W. Greer, do tribunal do circuito de Pinellas-Pasco, que ordenou originalmente a remoção do tubo.

Trechos de um vídeo feito pelos Schindlers de sua filha, três anos atrás, no qual ela parece estar sorrindo, grunhindo e gemendo em resposta à voz de sua mãe, e seguindo um balão com seus olhos, ficaram gravados na consciência nacional após ter sido repetido várias vezes nos canais de notícia.

Lesão irreversível

Theresa Marie Schiavo nasceu em 3 de dezembro de 1963 e cresceu em Huntingdon Valley, Pensilvânia. Ela era a filha mais velha de Robert e Mary Schindler, uma garota tímida e sensível que amava animais, John Denver e o seriado "Starsky e Hutch". Ela lutava com seu peso e perdeu mais de 22 quilos em seu último ano de colégio.

A então magra Terri conheceu Michael Schiavo em seu segundo semestre da Faculdade Comunitária de Bucks County. Ele foi o primeiro e único namorado dela. Eles ficaram noivos após cinco meses de namoro e se casaram em 1984, em uma grande e formal cerimônia de casamento católica romana.

Dois anos depois o casal se mudou para Saint Petersburg, Flórida, onde ele trabalhava como gerente de restaurante e ela como funcionária de uma companhia de seguros. Os Schindlers logo também se mudaram para lá com seus filhos mais novos, Bobby e Suzanne, e Terri manteve um relacionamento estreito com sua família enquanto seu marido trabalhava à noite.

Ela também foi ficando mais magra e não conseguiu engravidar mesmo após ter consultado um especialista em fertilidade. Ela não pesava mais que 50 quilos em 26 de fevereiro de 1990, o dia em que sua vida comum mudaria irreversivelmente.

Michael Schiavo diz que ouviu um baque por volta das 4h da manhã e se levantou da cama para encontrar sua esposa desacordada no chão. Quando os paramédicos chegaram e a ressuscitaram, a falta de oxigênio tinha provocado uma grave lesão cerebral.

Os médicos disseram que o coração dela parou por causa de uma deficiência de potássio não diagnosticada, possivelmente resultado de bulimia. Eles disseram que ela tinha entrado em um estado vegetativo persistente, o que significava que podia respirar por conta própria e que entrava em períodos despertos, mas que era incapaz de pensamento, memória ou emoção.

Michael Schiavo tentou por vários anos reabilitar sua esposa, até mesmo a levando para a Califórnia para um tratamento experimental no cérebro, mas nada funcionou.

Ele impetrou um processo por imperícia contra o obstetra que cuidou do tratamento de fertilidade de Terri, alegando que a deficiência de potássio deveria ter sido detectada. Em janeiro de 1993, o casal recebeu uma indenização de US$ 750 mil por danos econômicos para ela e US$ 300 mil para ele pela perda da companheira.

Um mês depois, no Dia dos Namorados, disseram tanto os Schindlers quanto Michael Schiavo, uma briga em torno da indenização sinalizou o início da desavença entre eles. Segundo descrito por Michael Schiavo, ele estava visitando sua esposa quando os Schindlers chegaram e Robert Schindler perguntou quanto receberia da parte de Michael da indenização por imperícia.

Os Schindlers disseram que a briga foi sobre que tratamento o dinheiro da filha pagaria, com os Schindlers defendendo uma terapia rigorosa e Michael Schiavo querendo apenas o tratamento básico.

À medida que a desavença se aprofundava, as esperanças de Michael Schiavo de uma recuperação de sua esposa aparentemente evaporaram. Em 1994, segundo mostram os autos do processo, ele decidiu que ela não fosse tratada de uma infecção no trato urinário, uma medida aconselhada, como ele posteriormente testemunhou, pelo médico de Terri.

Em 1998, Michael Schiavo entrou com pedido junto ao tribunal local para permissão para remoção do tubo de alimentação de sua esposa, uma medida imediatamente contestada pelos Schindlers.

Em 2000, o juiz George W. Greer, do tribunal do circuito de Pinellas-Pasco, deu a permissão para Michael Schiavo remover o tubo de alimentação de sua esposa, após um mês de julgamento, no qual Michael Schiavo e dois de seus parentes testemunharam que, em várias ocasiões, Terri Schiavo lhes disse que não queria ser mantida viva artificialmente.

O tubo de alimentação foi removido pela primeira vez em abril de 2001, mas foi reinserido após dois dias para que seus pais pudessem apresentar novas evidências.

O caso atraiu atenção nacional em outubro de 2003, quando Greer ordenou que o tubo fosse removido pela segunda vez. Após seis dias, o governador Bush e o legislativo estadual intervieram.

O legislativo aprovou às pressas uma lei dando poder ao governador Bush para ordenar a reinserção do tubo, passando por cima de anos de decisões judiciais e enfurecendo Michael Schiavo, que processou com base de que a medida era inconstitucional. A Suprema Corte da Flórida concordou com ele e derrubou a lei, mas ela prolongou o caso, e a vida de Terri Schiavo, por mais de um ano.

Em 18 de março, Greer ordenou que o tubo de alimentação de Terri Schiavo fosse removido pela terceira e última vez. Mas com o acirramento da luta por parte dos pais dela, até mesmo o presidente Bush e o Congresso tentaram evitar a morte de Terri com uma lei sem precedente, permitindo que os Schindlers pudessem levar seu caso a um tribunal federal.

Em uma série de eventos, o Congresso aprovou a medida em 21 de março, logo após a meia-noite, menos de três dias depois dos médicos terem removido o tubo enquanto manifestantes se reuniam do lado de fora do asilo onde ela se encontrava. O presidente Bush, que voltou correndo de seu rancho no Texas para Washington para sancioná-la, também o fez no meio da noite.

Seus defensores esperavam que a lei levaria um tribunal federal a ordenar a rápida reinserção do tubo de alimentação em Terri Schiavo, dando ao menos mais tempo aos pais dela para defenderem sua posição. Mas um tribunal após o outro rejeitou os pais, com a última derrota ocorrendo na noite de quarta-feira, quando a Suprema Corte se recusou novamente a acolher o caso.

Os pais dela, católicos devotos, até mesmo atraíram a atenção do Vaticano. No ano passado, eles impetraram uma moção para anular a autorização do juiz para remoção do tubo de alimentação, apontando para a declaração do papa João Paulo 2º, na primavera, de que era errado negar alimento e água para pessoas em estados vegetativos.

O Vaticano, que normalmente não se envolve em assuntos locais, recentemente se manifestou fortemente sobre Terri Schiavo. Em 21 de março, o jornal oficial do Vaticano, "L'Osservatore Romano", disse: "Quem pode julgar a dignidade e a sacralidade da vida de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus? Quem pode decidir retirar a tomada como se estivéssemos falando sobre um eletrodoméstico quebrado ou com defeito?" Uma necropsia provará que a lesão era irreversível, afirma o marido George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,25
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h07

    0,30
    63.951,11
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host