UOL Notícias Internacional
 

01/04/2005

Cristãos, judeus e muçulmanos unem-se no preconceito em Jerusalém

The New York Times
Greg Myre, em Jerusalém e

Laurie Goodstein, em Nova York
Líderes internacionais gays estão organizando um festival de 10 dias e uma parada em Jerusalém em agosto. Para eles, o evento será uma declaração sobre a tolerância e a diversidade na Cidade Sagrada, lar de três grandes tradições religiosas.

Entretanto, líderes de três religiões --cristianismo, judaísmo e islamismo-- estão dando um espetáculo raro de união para tentar deter o festival. Eles dizem que o evento dessacraria a cidade e transmitiria a mensagem errônea de que a homossexualidade é aceitável.

"Eles estão criando uma insuportável tristeza, terrível e profunda. Fere a todas as religiões. Somos contra isso", disse Shlomo Amar, principal rabino sefardita de Israel em uma conferência com a imprensa em Jerusalém, na quarta-feira (30/3).

Além dos dois principais rabinos de Israel, a conferência contou com líderes das Igrejas Católica, grega ortodoxa e armênia e três xeques muçulmanos.

"Não podemos permitir que qualquer um venha e macule a Cidade Sagrada. É muito feio e ruim que essas pessoas venham a Jerusalém", acrescentou Abdel Aziz Bukhari, xeque sufi em Jerusalém.

As autoridades israelenses ainda não indicaram se há alguma ação cabível para limitar os eventos. É improvável que proíba o festival, mas o governo pode não emitir licenças para eventos específicos, como a parada.

A união entre os líderes das três religiões é incomum, especialmente em Israel. Sua reação foi inicialmente incitada pelo reverendo Leo Giovinetti, pastor evangélico pouco conhecido de San Diego, veterano na guerra americana em relação à homossexualidade e freqüentador freqüente de Israel, onde travou relacionamentos nos últimos anos com rabinos e políticos.

Organizadores do evento de orgulho gay Jerusalém WorldPride 2005 disseram que 75 rabinos não ortodoxos assinaram uma declaração de apoio ao evento, e que líderes cristãos e muçulmanos, assim como políticos israelenses, devem anunciar seu apoio em breve. Eles disseram que ficaram consternados ao ver que o que une seus oponentes é a oposição aos gays.

"Isso é algo novo, que nunca vivenciei antes --essa tentativa de globalizar a hipocrisia. É triste e irônico que essas figuras religiosas estejam se unindo em torno de mensagem tão negativa", disse Hagai El-Ad, diretor executivo de um grupo de gays e lésbicas chamado Jerusalem Open House, que está organizando o festival em Jerusalém.

O rabino Sharon Kleinbaum, co-diretor de festival gay, e o rabino da Congregação Beth Simchat Torah, sinagoga gay na cidade de Nova York, disseram que a controvérsia foi mais um sinal de que as religiões estão cada vez mais polarizadas internamente entre suas alas liberais e conservadoras.

A Comunhão Anglicana ficou profundamente dividida na questão da homossexualidade nos últimos dois anos. A filial americana ordenou um bispo abertamente homossexual e a canadense decidiu permitir as bênçãos a uniões do mesmo sexo.

"Não aceito que eles tenham o direito de definir a religião de forma tão estreita", disse Kleinbaum dos líderes religiosos que criticam a homossexualidade. "Gays e lésbicas estão dizendo que somos parceiros iguais em comunidades religiosas e que acreditamos em um mundo religioso no qual todos são criados à imagem de Deus."

O festival gay está marcado para os dias 18 a 28 e deve atrair milhares de visitantes gays e lésbicas de dezenas de países. O tema será o "amor sem fronteiras" e o ponto central será uma parada pela cidade no dia 25 de agosto.

Apesar de outras partes de Israel estarem cada vez mais aceitando os gays nos últimos anos, Jerusalém continua profundamente conservadora. Outros eventos incluem um festival de cinema, exibições de arte e uma conferência dos clérigos.

Há cinco anos, quando foi realizado o primeiro festival WorldPride em Roma, a oposição religiosa veio do Vaticano, e a secular de um grupo neofacista que prometeu fazer uma manifestação de repúdio. Mas os neofacistas cancelaram sua manifestação, a parada foi pacífica e alguns políticos de centro-direita até uniram-se a muitos milhares de manifestantes.

Um dia depois, entretanto, o papa João Paulo 2º apareceu no balcão na praça São Pedro e proferiu uma mensagem expressando seu "amargor" com o festival gay, chamando-o de uma "ofensa aos valores cristãos de uma cidade tão querida aos corações dos católicos em torno do mundo".

Os dois festivais de WorldPride foram iniciados por um grupo amplo chamado InterPride, que diz que sua missão é promover internacionalmente os direitos dos gays.

A revolta com o festival WorldPride 2005 não está confinada a Israel. O líder evangélico americano que ajudou a galvanizar a oposição ao evento, Giovinetti, é o principal pastor da Mission Valley Christian Fellowship, uma igreja independente que se reúne em um hotel na Califórnia do Sul. Ex-líder de banda em Las Vegas, ele é locutor de um programa de rádio nacional.

Nem Giovinetti nem os outros líderes evangélicos americanos estavam na conferência de imprensa em Jerusalém na quarta-feira, convocada pelo principal rabino de Israel. Mas certamente Giovinetti teve um papel crucial ao soar o primeiro alarme entre os líderes religiosos sobre o festival gay.

O pastor disse que ouviu falar pela primeira vez sobre o WorldPride de um membro de congregação que tinha sido gay por muitos anos e ainda monitora sites gays. Giovinetti diz que alertou aos políticos e líderes religiosos.

Giovinetti circulou uma petição contra o festival gay, chamado de "Homossexuais pela Dessacração de Jerusalém". Segundo ele, todos os membros do partido ultra-ortodoxo Shas no parlamento israelense a assinaram. Giovinetti divulgou a petição em um site da Web e está instando seus ouvintes a assinarem-na e enviarem-na a cada membro do Knesset.

Outro americano que ajudou a unir a oposição foi o rabino Yehuda Levin, da Aliança Rabínica dos EUA, que diz representar mais de 1.00 rabinos ortodoxos americanos. Em uma conferência com a imprensa em Jerusalém, na quarta-feira, ele chamou o festival de "estupro espiritual da Cidade Sagrada".

Em Tel Aviv, uma cidade costeira secular, as passeatas anuais da comunidade gay tornaram-se rotina. Nos últimos três anos, os homossexuais também organizaram paradas em Jerusalém. Grupos religiosos reclamaram, mas a polícia deu permissão para os eventos, que se passaram sem incidentes sérios.

Alguns clérigos presentes na conferência de imprensa em Jerusalém também observaram que o festival programado para agosto poderá coincidir com a remoção antecipada dos colonos judeus da Faixa de Gaza - uma retirada controversa que poderá elevar as tensões e requerer significativa presença da polícia.

"Não queremos mais tensão nesta cidade. Já temos o suficiente", disse Michel Sabbagh, patriarca latino de Jerusalém. Religiosos querem impedir um evento gay internacional na cidade Deborah Weinberg

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