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01/04/2005

Inteligência dos EUA sobre armas iraquianas estava "totalmente equivocada"

The New York Times
David Stout

Em Washinton
A comunidade de inteligência norte-americana estava "totalmente equivocada" quanto ao arsenal iraquiano, e isso se deve em grande parte a uma mentalidade ultrapassada típica da Guerra Fria e a uma enorme e pesada burocracia à qual pessoas dedicadas e capazes continuam acorrentadas, anunciou nesta quinta-feira (31/03) uma comissão presidencial.

"A comunidade de inteligência precisa ser transformada --um objetivo que seria difícil de ser alcançado ainda no melhor dos mundos possíveis", disse a comissão no seu relatório ao presidente Bush. "E nós não vivemos no melhor dos mundos".

A comissão afirmou que a suposição errônea das agências de inteligência de que Saddam Hussein possuía armas químicas e biológicas mortíferas causou danos à credibilidade norte-americana junto à opinião mundial, e que serão necessários anos para que tais danos sejam reparados.

De acordo com a comissão, somente mudanças sistêmicas de pensamento e ação --mudanças que certamente trarão desconforto para as agências e seus funcionários-- elevarão o sistema de inteligência a um patamar no qual ele seja capaz de lidar com as ameaças do século 21.

A comissão afirmou ainda que algumas tentativas recentes de promover mudanças --especialmente a lei de reorganização da inteligência que criou o poderoso cargo de diretor de inteligência nacional-- não foram suficientemente profundas.

Apesar de alguns sucessos evidentes, como a descoberta de uma rede de proliferação nuclear liderada por um cientista paquistanês renegado e a coleta de dados significativos sobre o arsenal da Líbia, as agências norte-americanas de inteligência não estão acompanhando o ritmo das ameaças letais enfrentadas atualmente pelo país, concluiu a comissão.

"Não há missão mais importante para a inteligência do que entender as piores armas que os nossos inimigos possuem, e como estes pretendem utilizá-las contra nós", declarou a comissão. "Esses são os seus segredos mais profundos, e descobri-los deve ser a nossa prioridade mais alta".

Bush disse na quinta-feira que concorda que a burocracia do sistema de inteligência "necessita de mudanças fundamentais" e prometeu que tentará implementá-las. Cópias do relatório foram distribuídas a membros do Congresso, e os legisladores certamente discutirão as revelações contidas no documento e o que fazer a respeito delas.

As falsas suposições a respeito do arsenal iraquiano não resultaram de uma distorção deliberada, nem foram influenciadas por pressões externas às agências de inteligência. Em vez disso, diz a comissão, elas ocorreram porque a burocracia que domina o sistema de inteligência coletou uma quantidade muito pequena de informações. "E maior parte do que eles coletaram foi material inútil ou equivocado", diz o relatório.

Descrevendo a burocracia da comunidade de inteligência como "fragmentada, administrada de maneira desleixada e mal coordenada", a comissão disse que as 15 organizações de inteligência do governo "são uma 'comunidade' apenas nominalmente, e raramente agem segundo um objetivo unitário".

A comissão, presidida por Laurence H. Silberman, juiz federal, e Charles S. Robb, ex-governador de Virginia e senador, confirmou as revelações de inquéritos interiores a respeito das falhas da inteligência norte-americana.

Assim como a comissão que investigou os ataques de 11 de setembro de 2001, e o Comitê de Inteligência do Senado, que também estudou os lapsos da inteligência que levaram à guerra liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque, a comissão Silberman-Robb identificou algumas das mais familiares entidades burocráticas --a Agência Central de Inteligência (CIA), o Birô Federal de Investigação (FBI)--, assim como a enorme Agência de Segurança Nacional (NSA), cujas principais funções são interceptação eletrônica e análise.

"A CIA e a NSA podem ser sagazes e oniscientes nos filmes, mas na vida real elas e outras agências de inteligência são vastas burocracias governamentais", disse ao presidente a comissão composta de nove membros.

"Essas agências são burocracias repletas de indivíduos talentosos e armadas com sofisticadas ferramentas tecnológicas, mas talento e ferramentas não neutralizam as leis férreas do comportamento burocrático", afirmou a comissão.

"A comunidade de inteligência é um mundo fechado, e muitos dos seus membros admitiram para nós que ela possui um histórico de resistência cerrada a recomendações externas".

O FBI fez progressos no sentido de se transformar em uma organização coletora de inteligência, mas "ainda tem um longo caminho a percorrer", disse a comissão. Além do mais, continuou, a lei de reorganização da inteligência torna o relacionamento do birô com o novo diretor de inteligência nacional, John Negroponte, "especialmente turvo".

A comissão Silberman-Robb procurou evitar um tom de condenação. "Ficamos abatidos devido às difíceis conclusões a que tivemos que chegar a respeito do Iraque e do seu programa de armas", admitiu. "E também por causa da complexidade dos desafios técnicos e gerenciais enfrentados atualmente pelos profissionais de inteligência". Relatório produzido pela Casa Branca confirma que a CIA errou Danilo Fonseca

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