UOL Notícias Internacional
 

04/04/2005

Coitados dos bilionários

The New York Times
Daniel Akst*
Saiu a lista deste ano dos bilionários do planeta e, como sempre, as notícias são ruins. Você não conseguiu entrar no grupo. E eu tampouco.

Mas você pode ter imaginado que conseguiria chegar lá. Pode ter mergulhado na fantasia e pensado como seria ter várias casas, viajar pelo mundo no seu iate e passar o tempo contando seu dinheiro. E se você está em atividade, pode até sentir um tépido conforto por saber que o clube não está fechado. De fato, desta vez a Forbes revelou 691 bilionários, contra 587 no ano passado. Em outras palavras, existe esperança.

Mas ainda que o status de bilionário nunca se materialize, deixe-me amenizar o seu desconsolo. Não inveje essas pessoas. Para a maior parte dos super-ricos, os benefícios advindos de cada dólar adicional de riqueza atingiram o ponto de desvanecimento há muito tempo. É claro que não posso falar por experiência própria, mas é muito provável que possuir bilhões de dólares não confira vantagens significativas sobre a posse de meros milhões, acarretando a desvantagem de se ter que arcar com grandes problemas. O foco sobre os bilionários eclipsa uma triste falácia, que para a maioria de nós está mais encarnada na atração pela loteria do que nos bens de Bill Gates -que ainda está no topo da lista Forbes.

A perspectiva de ganhar um grande prêmio da loteria costuma gerar um frenesi de apostas nas multidões que, em graus variados, sonham em abandonar os seus empregos maçantes, pagar as dívidas e assegurar o futuro dos filhos. Mas o comportamento dessa gente faz pouco sentido, exceto na medida em que estão comprando entretenimento. Para a maioria delas, meras quantias de um ou dois milhões de dólares resolveriam quase todos os problemas solucionados por um bilhão. Apostadores mais sensatos buscam as chances mais favoráveis de ganhar um prêmio menor, mas ainda assim capaz de fazer diferença em suas vidas, em vez de fazerem fila para concorrer à chance infinitesimal de ganharem uma quantia gigantesca e sem sentido, que proporciona uns poucos benefícios marginais.

As pessoas incorrem nesse tipo de erro a todo momento. Um dos grandes paradoxos da evolução é o fato de os seres humanos serem tão ineficientes quando se trata de avaliar riscos e recompensas. É algo que nos faz pensar sobre como conseguimos superar os mastodontes.

A falácia da loteria é triste porque muitos mais de nós poderíamos nos tornar milionários, como foi amplamente demonstrado por Thomas J. Stanley e William D. Danko no fascinante livro "The Millionaire Next Door" ("O Milionário na Porta ao Lado"). Eles descobriram que heranças, ou mesmo a formação acadêmica muito extensa, não são fatores necessários. A principal exigência, contanto que se tenha tempo e um salário decente, é a parcimônia.

Tornar-se milionário proporciona uma certa segurança, assim como acesso a escolas e a sistemas de saúde de melhor qualidade. Considere que cada US$ 1 milhão em capital investido em uma mistura conservadora de títulos e ações gerará confortavelmente algo como o salário médio anual de um domicílio norte-americano - cerca de US$ 44 mil. Embora um patrimônio líquido de US$ 1 milhão coloque o indivíduo entre os 7% mais ricos dos Estados Unidos, não se deve assumir que isso torne alguém delirantemente feliz. A tênue conexão entre dinheiro e felicidade está bem comprovada, pelo menos para aqueles de nós que tiveram sorte suficiente para usufruir de um padrão de vida de classe média.

Por outro lado, um patrimônio de bilhões de dólares afetaria a sua vida de tantas formas que é algo que simplesmente não vale a pena. Os bilionários se preocupam freqüentemente com a sua segurança e a de suas famílias. Além disso, podem também se preocupar com a possibilidade de as pessoas não gostarem realmente deles, e sim de seu dinheiro, com a maneira de evitar produzir filhos irremediavelmente irresponsáveis e mimados, e com o seu próprio potencial para apresentarem um comportamento "maximizador" destrutivo. Os "maximizadores" costumam procurar compulsivamente pelo melhor em tudo, algo cujo principal resultado é o desapontamento perene.

Se existem bons motivos para se tornar um bilionário, eles são em grande parte altruísticos. O fato de conseguir tanto dinheiro significa que o indivíduo provavelmente está fornecendo algo que as pessoas querem ou da qual precisam - uma coisa boa em si. O capital que você acumula deve resultar em empregos, inovação e crescimento econômico, ainda que os seus impostos já se traduzam em serviços para o resto da sociedade. Se desejar, você pode criar uma fundação para direcionar os rendimentos do seu capital para boas obras. Você pode até doar dinheiro.

Pesando todos os fatores, os bilionários são úteis para a sociedade, e assumindo que eles não tenham se tornado ricos por meios ilícitos, devemos ser-lhes gratos por se darem ao trabalho de criarem suas fortunas. Afinal de contas, trata-se de um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo.

*Daniel Akst é jornalista e escritor, e escreve freqüentemente sobre negócios. Danilo Fonseca

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