UOL Notícias Internacional
 

04/04/2005

Começa um período de cerimonial e incerteza

The New York Times
Ian Fisher

Na Cidade do Vaticano
Com suas mãos pálidas dobradas entrelaçadas com um rosário, o corpo do papa João Paulo 2º estava exposto dentro do Palácio Apostólico no domingo, enquanto o poder na Igreja Católica Romana iniciava sua transferência para seu eventual sucessor.

Apenas 12 horas após sua morte na noite de sábado, o majestoso cerimonial em torno da morte de um papa teve início, com um imensa missa pública na Praça de São Pedro seguida pelos primeiros ritos do funeral de João Paulo.

O papa de 84 anos foi colocado na Sala Clementina, trajando vestes brancas e vermelhas, a mitra na cabeça, esta apoiada em três travesseiros dourados escuros. Colocado sob seu braço esquerdo estava o bastão de prata, chamado báculo episcopal, que ele carregava em público.

"Ele sofreu muito, e sofreu por muitos anos", disse Francesco Rutelli, o ex-prefeito de Roma e um importante líder da oposição na Itália, após ver o corpo do papa, com o qual se encontrou com freqüência ao longo dos anos.

Na morte, após 26 anos como papa, "sua expressão era serena", disse Rutelli.

Mesmo em meio ao início das cerimônias em homenagem a este papa, a perspectiva de um novo papa nunca esteve distante: quase todos as principais autoridades do vários departamentos do Vaticano foram obrigadas a renunciar, deixando a Igreja em um breve estado de animação suspensa.

O novo papa, cuja eleição terá início na Capela Sistina daqui 15 a 20 dias, decidirá quais cardeais liderarão sua administração e conseqüentemente estabelecerá o novo caminho para a próxima era na Igreja Católica Romana.

A cerimônia de velório de domingo -transmitida ao vivo pela televisão italiana- foi para cardeais, bispos e outros membros da hierarquia da Igreja, assim como para autoridades proeminentes da Itália, onde a Igreja é um pilar central e ancestral. Entre os convidados estavam o primeiro-ministro Silvio Berlusconi e o presidente Carlo Azeglio Ciampi. O arcebispo Stanislaw Dziwisz, o secretário pessoal do papa por décadas e por proximidade um dos homens mais poderosos da Igreja, estava sentado em um banco no fundo recebendo condolências e enxugando as lágrimas.

O velório público de João Paulo -que morreu após uma infecção no trato urinário ter disparado uma espiral fatal de males- começará na segunda-feira. O corpo do papa ficará exibido na Basílica de São Pedro, projetada em parte por Michelangelo, apesar da incerteza sobre se o corpo estará dentro ou no topo da escadaria, do lado de fora das imensas portas de bronze da igreja. No domingo, várias centenas de cadeiras foram colocadas em duas seções em frente da basílica, interrompidas por uma superfície aberta de pedra onde seu corpo ficará por três ou quatro dias a partir de segunda-feira.

Imensas multidões continuaram a seguir para a Praça de São Pedro no domingo, após duas noites de vigília pelo papa.

O humor começou a mudar daquela que foi uma vigília ansiosa. Em uma belo dia ensolarado, havia faixas e música e uma consciência de se estar vivenciando um momento histórico, com romanos e turistas se posicionando na frente da Basílica de São Pedro com cópias de jornais com grandes manchetes anunciando a morte de João Paulo.

Em uma missa memorial matinal, o arcebispo Leonardo Sandri, que serviu como voz pública do papa nos últimos estágios de sua doença, anunciou para dezenas de milhares de fiéis que leria uma mensagem preparada pelo próprio papa para aquele domingo, uma semana depois da Páscoa.

"É o amor que converte corações e dá a paz", disse o papa na bênção lida por Sandri. "Senhor, que com sua morte e ressurreição revelou o amor do Pai, nós acreditamos em você e com fé repetimos a você hoje: 'Jesus, eu confio em você, tenha piedade de nós e de todo o mundo'."

Permanecia um forte senso de pesar e perda por um papa que governou por tanto tempo e inspirou muitos católicos -independente de concordarem ou não com suas posições conservadoras sobre questões sociais- com a idéia de que seu papado era diferente de outros.

"Em um mundo que necessita de orientação, ele sempre foi muito claro", disse Rita Dekonski, 45 anos, uma banqueira da Inglaterra. "Ele reafirmou muitos dos valores católicos que estavam se perdendo."

Apesar disto, ela disse, ela espera que o próximo papa seja "um pouco mais liberal".

Ivana Sparaco, 30 anos, uma professora de inglês de Roma, disse esperar que o próximo papa siga o modelo de João Paulo 2º, especialmente em seu comportamento pé no chão.

"Ele me parecia muito humano, bem informal, demonstrando não ter vergonha de seu sofrimento", disse ela. "Minha impressão era a de que a igreja costumava ser um local sombrio de penitência, mas o papa a tornou uma espécie de alegria para mim."

Na segunda-feira, o Colégio dos Cardeais se reunirá pela primeira vez para discutir os assuntos da Igreja, no que é conhecido como "interregnum", detalhes do funeral do papa e como proceder no conclave que escolherá o próximo papa.

Enquanto isso, o camerlengo do Vaticano, o cardeal Eduardo Martinez Somalo, um espanhol de 78 anos, assumirá o controle administrativo de uma Igreja com 1 bilhão de membros em todo mundo. Por tradição, o camerlengo fica encarregado de determinar oficialmente que o papa está morto.

No domingo, na primeira imagem do corpo do papa no Palácio Apostólico, Martinez Somalo assumiu um papel público, aspergindo água benta em João Paulo e oferecendo uma bênção.

"Nós imploramos ao Senhor que o receba em seu reino e lhe conceda o prêmio pelas provações que suportou pelo Evangelho", disse Martinez Somalo em latim diante do corpo do papa.

Com sua cabeça voltada ligeiramente para o lado, o corpo de João Paulo foi colocado em uma plataforma em uma sala imensa, usada para receber dignitários, com dois guardas suíços de cada lado.

Os próprios guardas se ajoelharam para prestar suas homenagens, assim como fizeram freiras, padres, diplomatas e algumas das pessoas mais importantes na Itália.

Enquanto isso, no domingo, o Vaticano divulgava mais detalhes sobre a doença de João Paulo, que morreu em seu apartamento após decidir na quinta-feira não voltar ao hospital, apesar da consciência, segundo seu porta-voz, de que sua condição era extremamente séria.

Ele deu entrada duas vezes no hospital Gemelli desde 1º de fevereiro, o início de dois meses de declínio de sua saúde.

O atestado de óbito disse que ele morreu de "choque séptico" -quando a pressão sangüínea do paciente cai demais devido a uma infecção- e "colapso cardiocirculatório irreversível".

O atestado também listou, como causas que contribuíram, o mal de Parkinson, do qual ele sofria há mais de uma década; episódios de insuficiência respiratória e contração da traquéia; sinais de problemas cardíacos; e um crescimento da próstata, que o deixou vulnerável ao tipo de infecção no trato urinário que o matou.

O documento disse que a morte foi declarada após o coração do papa ter sido testado por 20 minutos com um eletrocardiograma.

Na segunda-feira, o Vaticano poderá anunciar o dia do funeral. Segundo as regras da Igreja, ele deve ser enterrado entre quatro e seis dias após sua morte.

(Daniel J. Wakin, Elisabeth Rosenthal do "International Herald Tribune" e Elisabetta Povoledo contribuíram com reportagem na Cidade do Vaticano para este artigo.) George El Khouri Andolfato

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