UOL Notícias Internacional
 

04/04/2005

Próximo papa enfrentará escolhas e desafios

The New York Times
Laurie Goodstein
O próximo papa enfrentará desafios tão urgentes que muitos líderes da Igreja e analistas temem que mesmo um papa com o carisma e a capacidade de João Paulo 2º terá que recorrer a uma estratégia de triagem.

Os países ricos apresentam um conjunto de preocupações: a Igreja Católica Romana está minguando na Europa, o continente que antes lhe abastecia de padres, catedrais e intelecto, enquanto nos Estados Unidos a Igreja está lutando para tornar sua mensagem relevante em uma sociedade materialista onde até mesmo a religião é guiada pelo mercado.

Os países pobres apresentam um conjunto diferente de preocupações: na América Latina, lar de quatro entre 10 católicos do mundo, os padres dizem que não conseguem competir com a proliferação das efusivas igrejas evangélicas e pentecostais. Na África e Ásia, as crescentes populações católicas freqüentemente convivem com dificuldade com muçulmanos, hindus e budistas.

A Igreja Católica Romana é, mais do que nunca, uma instituição global com problemas globais. Com mais de 1 bilhão de membros, metade dos cristãos do mundo e 17% da população mundial, ela é a maior e mais rica instituição religiosa e de caridade do planeta.

Mas as maiores preocupações do novo século -a turbulência dentro do mundo muçulmano e o explosivo deslocamento do poder econômico para a Índia e a China- não atraíram a atenção de João Paulo. Como ele provou, o líder da Igreja é capaz de mudar o curso da história. Mas a Igreja precisa fazer escolhas.

"Uma pergunta que a liderança da Igreja terá que fazer a si mesma", disse Christopher M. Bellitto, editor acadêmico da Paulist Press, uma grande editora católica, "é se ela investirá mais tempo, dinheiro e energia no que costumávamos chamar de Terceiro Mundo, ou se tentará tirar a Europa e a América do Norte do materialismo que João Paulo 2º disse ser a maldição do capitalismo".

A escolha poderá estar representada na seleção do novo papa. Nas semanas que antecedem o conclave, os cardeais discutirão entre eles não apenas quem deverá liderar, mas também quais são as prioridades da Igreja. Se escolherem um candidato da África, ou mais provavelmente da América Latina, isto poderá sinalizar que a atenção principal da Igreja estará voltada para o Hemisfério Sul. Ou poderiam escolher um papa da Europa porque ele poderia falar de forma convincente com o Ocidente sobre sua crescente indiferença religiosa.

O bispo Gerald F. Kicanas de Tucson, Arizona, disse: "Como Igreja eu acho que estamos um tanto cansados, e acho que perdemos um pouco de nossa confiança". A Igreja nos Estados Unidos, e em países como a Áustria e a Irlanda, ainda está cambaleando após as revelações de abuso sexual cometidos por padres. A própria diocese de Kicanas declarou falência diante do número crescente de processos de supostas vítimas de abuso.

Ele disse que encontra regularmente católicos que estão ávidos por ensinamentos espirituais, mas estão céticos de que a Igreja Católica esteja à altura do que prega. O maior desafio diante da Igreja é, ele disse, "articular a mensagem da fé de uma forma que seja de fato influente e convincente para as pessoas".

O problema mais urgente diante da Igreja, disse o cardeal Theodore E. McCarrick, arcebispo de Washington, é a "secularização de nossa sociedade, a passividade das pessoas em relação às coisas de Deus".

No Terceiro Mundo, a Igreja não enfrenta o problema de tornar o cristianismo relevante. Ao atender os pobres, refugiados ou pessoas com Aids, ao denunciar a corrupção, o desmatamento e pedir o perdão global da dívida, as igrejas estão engajadas nas vidas das pessoas.

Um desafio crucial e delicado para o próximo papa são as relações com o Islã em um momento em que o islamismo militante está em ascensão. A Igreja sob João Paulo 2º concentrou suas maiores iniciativas inter-religiosas e ecumênicas ao reparo das relações com judeus e cristãos ortodoxos. Mas agora o diálogo inter-religioso mais urgente deve ser com os muçulmanos, disse Daniel Thompson, um professor de estudos religiosos e teologia da Universidade Fordham, no Bronx.

"Há muitos países no mundo onde as populações cristãs e muçulmanas estão em choque", disse ele. "O sul das Filipinas é dominado por uma maioria muçulmana e o norte é católico. Há tensões lá."

Há desacordo entre teólogos católicos, disse ele, sobre como lidar com os muçulmanos, e com quais muçulmanos lidar. Alguns teólogos querem reconhecer que "houve muito dano histórico promovido por pessoas em nome do cristianismo contra a população muçulmana", disse Thompson, enquanto outros acreditam que o foco deveria ser os males perpetrados mais recentemente pelos extremistas muçulmanos. O próximo papa deverá ajudar a Igreja a estabelecer uma direção clara, disse ele.

A Igreja também está lutando para responder aos rápidos desenvolvimentos na ciência e biotecnologia. A clonagem, a pesquisa de célula-tronco e novas possibilidades de análise e seleção genética serão um teste em como aplicar os ensinamentos morais da Igreja sobre a santidade da vida. Conferências no Vaticano têm abordado tais assuntos, mas a Igreja precisará de um papa versado em tais questões, mas também movido por uma visão clara de como aplicar os ensinamentos da Igreja aos desenvolvimentos do século 21.

George Weigel, um alto membro do Centro de Política Pública e Ética e um teólogo católico, disse em um discurso em janeiro: "Muitos cardeais-eleitores têm um senso de que o mundo tem, quanto muito, uma janela de 10 a 20 anos para elaborar as estruturas regulatórias e legais necessárias para canalizar o novo conhecimento genético da humanidade, além de seu casamento com a tecnologia, em direções que levarão à cura e progresso humano genuíno em vez de um pesadelo de Huxley".

O problema na América Latina, e entre os latinos nos Estados Unidos, é a proliferação das igrejas pentecostais com seus serviços religiosos efusivos e capacidade de fornecer redes sociais instantâneas para os moradores rurais à procura de trabalho nas cidades.

As igrejas evangélicas e pentecostais na América Latina são abastecidas de pastores que freqüentemente são leigos, superando em número o clero católico que precisa ser ordenado e se comprometer de forma vitalícia com a Igreja e o celibato.

Mary Gautier, uma pesquisadora associada sênior do Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado na Universidade de Georgetown, disse que a escassez de padres é global: "Em relação ao restante do mundo, os Estados Unidos estão em boa forma. A América do Sul e Central apresentam culturas altamente católicas, mas as pessoas esperam anos para batizar seus bebês. Elas às vezes vêem um padre uma vez por ano. Elas não têm acesso aos sacramentos da forma como esperamos. Se os americanos não pudessem comungar no domingo, nós consideraríamos que há algo drasticamente errado em nossa Igreja".

Apesar de a Igreja ter crescido em um quarto de bilhão de fiéis durante os 26 anos de papado de João Paulo 2º, o número de padres em todo mundo é de cerca de 400 mil -quase o mesmo número existente quando ele começou sua campanha global de viagens de evangelização. Para onde a Igreja deve enviar os padres recém ordenados quando são necessários em toda parte?

O bispo Ricardo Ramirez, que atua na diocese carente de padres de Las Cruces, Novo México, disse: "Eu pedi aos meus amigos bispos no México que me enviassem padres, e eles disseram: 'Nós manteremos você em mente, mas no momento nossas dioceses estão crescendo, nossas cidades estão crescendo, e precisamos de todos os padres que temos'".

Outro desafio diante de uma Igreja global é quanta autonomia padres e bispos devem ter para adaptar os ensinamentos e liturgia da Igreja às suas próprias culturas. Após o Concílio Vaticano 2º, do início dos anos 60, o plano era para uma maior autonomia regional em relação a Roma. Mas João Paulo recentralizou a autoridade da Igreja.

Quando os bispos da Ásia realizaram um sínodo em Roma em 1998, alguns deles confrontaram seus colegas no Vaticano com a questão da autonomia, disse o padre Peter C. Phan, um professor de pensamento social católico da Universidade de Georgetown. O bispo do Japão perguntou: qual era o sentido de compor todos os textos litúrgicos em latim, então enviá-los para o Japão para serem traduzidos, apenas que serem enviados de volta para Roma para aprovação de autoridades do Vaticano que não sabem ler japonês?

"A segunda coisa na mente deles é um clero casado", disse Phan. "Eles têm perguntado pela possibilidade de um claro casado, porque na Ásia o número de padres é pequeno. E Roma simplesmente não responde."

A questão sobre se a cultura local pode ser integrada nas práticas da Igreja, e quanto em caso afirmativo, remonta o século 15, disse Thompson, da Fordham. Com a centralização da autoridade no Vaticano sob João Paulo, quanta autonomia conceder aos bispos locais voltou novamente a ser uma questão urgente, disse ele.

"Esta é uma questão que vai de Saint Patrick em Nova York até Bancoc", disse Thompson.

O padre Ian T. Douglas, professor de missionarismo mundial e cristianismo global da Escola da Divindade Episcopal em Cambridge, Massachusetts, disse: "Quando a Igreja Católica era simplesmente uma Igreja mediterrânea ou uma Igreja da Europa Ocidental, era mais fácil conhecer os limites da autoridade".

"Você sabia quem estava por dentro e quem estava por fora", disse ele, "estruturas de crença, dogmas, entendimentos doutrinários. Agora você tem todas estas culturas, línguas e povos tentando encontrar seu caminho dentro de uma associação comum".

(Neela Banerjee e Andy Newman contribuíram para este artigo.) George El Khouri Andolfato

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