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04/04/2005

Relações casuais, sim. Sexo casual, nem tanto

The New York Times
Por Alex Williams
Nova York - Para os jovens e solteiros em Nova York, encontros amorosos sempre foram um jogo de cálculo, seja por meio da tabulação da proporção entre rapazes e moças presentes num bar ou pelas conjeturas sobre o saldo bancário daquela presa que está ali na pista de dança.

Ainda assim, não é toda noite que se vê um grupo de jovens mulheres descoladas em jeans de cintura baixa divagando sobre questões que poderiam intrigar um matemático de Caltech, tais como "será que um mais nove de alguma forma poderia ser igual a nove?"

"Conheço muita gente que vai para casa com o mesmo cara de antes, só porque assim seu marcador não subirá", explicou Jennifer Babbit, 26, divulgadora.

"Várias de minhas amigas dirão: 'Comecei a fazer sexo com esse cara, mas só durou um minuto. Não sei se isso conta'", acrescenta Beth Whiffen, ex-editora colaboradora da revista "Cosmopolitan".

O tal número em questão é o número de homens com quem a mulher já dormiu, e essa questão veio à tona nas mentes das moças enquanto estavam entre as cerca de 30 garotas de Manhattan que apareceram no One Little West 12. Esse é um restaurante e clube no (badalado) distrito de matadouros de Manhattan, onde na terça-feira elas discutiram o livro "The Hookup Handbook: A Single Girl's Guide to Living It Up" (algo como "Manual do 'Vamos Ficar': Guia para a Jovem Solteira Curtir a Vida"), escrito por Andrea Lavinthal e Jessica Rozler, publicado no mês passado(pela Simon Spotlight Entertainment).

O título do livro e muitas de suas dicas ("Dormir fora não é apenas educado, é uma necessidade") sugerem que uma nova revolução sexual está a caminho, para uma geração descolada, nutrida com a sabedoria de "Sex and the City", e que encara namorados como uma coisa ultrapassada, a própria idéia de namoro como algo datada e a idéia de compromisso como ridícula.

Mas uma noite que se passa na companhia de Lavinthal, Rozler e suas amigas sugere que os rituais de acasalamento da tão-celebrada cultura do "vamos ficar", pelo menos da forma como é praticada entre jovens mulheres profissionais, parece ter origens tanto em Doris Day como na Samantha Jones (de "Sex and the City").

Sim, elas se orgulham de ter se libertado dos grilhões que amarravam gerações anteriores de mulheres solteiras. Elas não ficam esperando na sexta-feira à noite que "ele" venha a ligar. Elas tomam a primeira atitude. Alegremente vivem encontros com dois ou três rapazes na mesma época. A espontaneidade é crucial, mas ainda mais importante é ter uma boa e decente estratégia de fuga, para ser usada com qualquer rapaz que se revele o Cara Nem Tão Certo Assim.

"Não é que as pessoas não estejam namorando", explica Jessica Rozler, assistente editorial na editora Allworth Press quando não está praticando antropologia "na night". "Acontece é que existe uma área meio nebulosa e cinzenta. As pessoas ainda querem estar em relacionamentos, mas elas não querem se comprometer."

Mas mesmo erguendo festivamente coquetéis rosados e revirando os olhinhos diante da absurda hipótese do comprometimento, essas não são mulheres que querem se entregar ao sexo desenfreado. Os rituais de abordagem nessa geração de solteiras urbanas parece ter tanto a ver com os padrões morais de suas avós nos anos 50 (namorar vários garotos; beijar, acariciar, se enroscar ou dar uns amassos conforme manda o coração, mas sem perder de foco a busca pelo Cara Certo) como com a postura das mães delas nos anos 70, no estilo "ame o cara que está contigo".

"A maioria das garotas não fica com alguém por uma noite apenas", diz Beth Whiffen. "Isso pode acontecer apenas em uma noite ou duas em suas vidas."

Veja essa discussão inicial sobre números, por exemplo. Sim, existem as conquistas, mas é melhor que não haja tantas conquistas assim. Então, para esse grupo de mulheres com salto alto sob jeans de U$ 200, qual seria o ultimo número aceitável antes de entrar naquela faixa de números inadequados? Poucas mulheres gostariam de ultrapassar a faixa dos 20, ou até mesmo a dos 15, diz Jenniffer Babbit, porque "aí elas se considerariam umas tremendas piranhas".

"Dez, no máximo", diz Caroline Homlish, 24 anos, sintetizando a questão de um jeito que não levantou polêmicas no grupo.

"Muitas garotas não estão tendo sexo casual", explicou Andrea Lavinthal, que também é editora na Cosmopolitan, admitindo que pegou um pouco pesado no título de seu livro.

Poderia surpreender que alguém com menos de 29 anos ainda precise de uma definição para um termo que se disseminou tão fortemente na cultura jovem como toques personalizados nos celulares. Ainda assim, está lá na contracapa do manual "The Hook-up Handbook": uma "ficada" é "algo que se situa entre transar e rolar um amassos mais sacanas, geralmente sem compromissos nem projetos de compromissos".

Mas como Andrea e Jessica explicam, uma "ficada" tem menos a ver com o que acontece entre as pessoas do que com as circunstâncias ambientais - para ser específico, o encontro não é planejado nem esperado. "Ninguém fica esperando ao lado do telefone", diz Andrea. "Até porque você pode sair de casa com o telefone."

A maioria das mulheres no Club One explicou com alegria o que "ficar" significava para elas. "Pode ser aquele encaixe no final de noite na pista de dança, talvez até avançando um pouco o sinal", disse Kate Kilgore, relações públicas para os cosméticos da Victoria's Secret Beauty.

Os poucos homens que falaram sobre o assunto parecem considerar meio cansativo esse papo sobre a natureza elástica da expressão. "Não faltam definições", disse Corey Zolcinski, agente imobiliário e disc jockey. "Algumas pessoas acham até que significa se encontrarem para um drinque."

A era do "vamos ficar" certamente não parece significar uma nova era de amor livre. "Eu queria que fosse, assim minha vida sexual seria bem melhor", diz Greg Kiely, 26, ex-caixa em banco de investimentos e que agora quer se formar em administração.

Se por um lado os homens são tema obviamente central nos questionamentos éticos presentes no livro (hoje à noite você quer ficar com um metrossexual ou com um gostosão bobinho?), os namorados definitivamente não estão em evidência nesse manual. "Um relacionamento não é a coisa mais fácil de se manter, mas se afastar dos rapazes também não é das opções mais viáveis", prega o capítulo sobre "Maneiras Defensivas de Não-Namorar". "O resultado é que você se recusa a ficar se exibindo, mas termina ficando exibida."

No que depender do grupo reunido no Club One, onde no salão ao fundo uma festa para a Stolichnaya está "bombando", a perspectiva de um relacionamento sério antes dos 25 anos parece ter o mesmo apelo de um evento promocional onde todos tenham que pagar os drinques com dinheiro vivo.

"O que está em questão não é a abordagem nem a caça", diz Kate Kilgore. "Não é aquela situação de 'liberou geral' dos anos 70, mas tem a ver com mulheres independentes querendo marcar posição, delimitar terreno e fazer o que querem."

Kate estima que, num grupo escolhido ao acaso de dez mulheres da idade dela, só umas duas ou três têm namorado firme, e a pressão que existia até uma década atrás está baixando. Isso, segundo a moça, tem efeito liberador. "Eu passo por fases onde estou ficando ou transando com um cara numa semana", diz de jeito blasé, "mas depois fico um mês sem ninguém".

Ela calcula que "fica" umas 10 ou 12 vezes por ano, algo que pode significar "muita vodca, sentir as conexões", mas que nem sempre tem a ver com sexo.

"É tudo uma questão de diversão", acrescenta Andrea à sua abordagem sobre os encontros amorosos. "Não estamos falando da morte do romance. É como se fosse uma luz nos relacionamentos. E ninguém vai dizer não, quando um cara bonito quer transar num sábado à noite."

Mas se por um lado a linguagem da cultura das ficantes parece pervertida ("Beba Até Ele Ficar Bonito" é título de outro capítulo), a maioria dessas mulheres dispostas a desembolsar pelo livro U$ 14,95 (equivalente a R$ 42) são as crianças dos anos 80. Essas garotas cresceram querendo se divertir, mas sabendo que não podiam ir tão fundo.

"Tivemos muitas aulas de educação sexual", diz Andrea. "Com estranhos, realmente tomamos cuidado com toda essa questão das doenças."

E não basta querer que caiam por terra velhos padrões. "As meninas estão agindo mais como os caras agem, mas ainda há um duplo padrão", reflete Caroline Homlish. "Dizem que você pode fazer de tudo, mas você não pode. Se uma garota está saindo com três caras ao mesmo tempo, ela é desprezada."

É só escavar mais um pouco e descobrir que, para os adeptos do "vamos ficar" reunidos nessa noite, esse não é um estilo de vida muito decente para se viver a faixa dos 30 anos.

Se por um lado a maioria das mulheres concorda que namoros sérios estão sendo meio deixados de lado ultimamente, essas moças na faixa dos 20 anos também dizem que não planejam viver uma vida à la "Sex and the City", nem quando chegarem perto da idade das mulheres dessa série.

Beth Whiffen diz que já viu vários exemplos de mulheres que insistem em "ficar" sem nem pensar em namorados sérios, até chegarem pelo menos aos 25 anos. "Mas no momento em que `ele' chega", ela diz com conhecimento de causa, "aí a situação muda pra valer".

E enquanto esse "Manual do 'Vamos Ficar'" proíbe explicitamente suas leitoras de gastar uma ficada com um namorado em potencial, nem todas acharam que essa é uma abordagem realista. "Pessoas que estão 'ficando' querem investir num relacionamento sério", insistiu Caitlin Gaffey, 24 anos, assistente de produção de moda na revista Shop Etc. "Visto pelo lado das garotas, isso quase sempre é verdade."

"Não dá pra ficar com qualquer um", acrescentou Caitlin, formada no Massachusetts Institute of Technology. "É preciso saber bastante sobre os caras antes de ficar com eles. Os caras não são exigentes, nós é que somos. É como num shopping."

Até Andrea Lavinthal admite que ela está mais para "garota com namorados do que para garota ficante, para ser bem honesta." Segundo a autora do manual, ficar é mais o que se faz com os namorados, e freqüentemente é a única opção para jovens mulheres atarefadas, que tentam equilibrar carreira, amigos e romance. "É quase como numa desordem de déficit de atenção", diz Andrea. "Há coisas demais acontecendo."

Para Helen Gurley Brown, durante 31 anos editora da revista Cosmopolitan e autora daquele que talvez seja o único manual original para namoros, "Sex and the Single Girl" ("Sexo e a Mulher Solteira"), que foi publicado em 1962, as vidas e questionamentos de Andrea e suas amigas mostram que nem tanta coisa assim mudou nos últimos 30 anos, talvez apenas com a exceção dos verbos utilizados.

"Acho que ficou combinado lá por volta de 1962 que não era preciso ser casada para ter uma vida boa", diz Helen. "Acho que essas jovens mulheres provavelmente são um exemplo vivo do que foi dito naquela época." Marcelo Godoy

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