UOL Notícias Internacional
 

05/04/2005

Garotas de programa japonesas relaxam com rapazes de programa

The New York Times
Norimitsu Onishi

Em Tóquio
"Acho que elas vêm aqui porque se sentem sozinhas. Eu também me sinto muito sozinho. Não agüento comer sozinho. É bom trabalhar à noite, porque não me sinto sozinho. Sinto tanta solidão que tenho dois cachorros", disse Eiji Mukai, 26, proprietário da Casa de Laputa, um clube que fica no subsolo em Kabukicho, maior zona de meretrício de Tóquio.

Peter DaSilva/The New York Times

Garotas e garotos divertem-se no Club Impact onde elas pagam a eles por um pouco de atenção
Diferentemente de muitos clientes do bairro, os de Mukai são mulheres, a maior parte delas garotas de programa. Mukai e os outros recepcionistas do Laputa, que tem o nome do filme favorito do proprietário, estavam se preparando para a noite. Sua clientela chegaria após a partida, no último trem, dos seus fregueses homens.

Entre o último trem da noite e o primeiro da manhã, Laputa ganha vida. Os rapazes de programa flertam, brincam, bebem e conversam com as garotas de programa que tinham flertado, brincado, bebido e conversado com os clientes dela, uma ou duas horas antes.

Clubes nos quais os clientes homens podem apreciar a segurança de conversas pagas são um negócio antigo no Japão. Entretanto, nos últimos anos prosperaram clubes que atendem as mulheres. Hoje eles empregam, segundo especialistas do setor, 20.000 homens em todo o país. Só em Kabukicho há 150 clubes desse tipo.

Os novos empreendimentos tendem a ser casuais, diferentes dos antigos que ofereciam bandas ao vivo e dança de salão e tratavam suas clientes, mais velhas, como princesas. Os novos atendem mulheres mais jovens --funcionárias de escritórios ou trabalhadoras da indústria do sexo.

Em vez de oferecer o "tratamento de princesa", oferecem o que é conhecido como "iyashi", que significa "relaxamento", ou "cura". A popularidade do termo no Japão às vezes sugere que esta é uma grande nação convalescente.

"Venho aqui em busca de cura. Gosto do meu trabalho, mas é cansativo", disse Yuika Amami, 20, que mora no subúrbio distante de Hachioji, onde trabalha como garota de programa.

Amami vem a Laputa uma vez por semana para ver seu rapaz predileto, Hiro Sakurai, 20, universitário que começou no emprego no ano passado. Atualmente, ele tem algumas freguesas regulares, com quem conversa no telefone todos os dias ou troca mensagens de texto.

"Em geral, acho que querem ser curadas", disse Sakurai. "Há pessoas que compram prazer com dinheiro. Com os rapazes, algumas clientes pagam para um pseudo-amor." Ele acrescentou: "Estou me graduando em administração e, se entrar em alguma companhia, provavelmente vou ficar no setor de vendas --nesse caso, vou ter que conversar com pessoas importantes. Posso praticar isso neste emprego."

Mukai disse que trabalha como garoto de programa desde os 19 anos, ganhando mais de US$ 30.000 (em torno de R$ 90.000) por mês. (Os principais nomes em Kabukicho ganham o triplo disso). Seu sonho, porém, é ter seu próprio clube.

A maior parte dos recepcionistas tem 20 e poucos anos, disse Kazue Kamioka, editor da Yukai Life, revista sobre os clubes. Em geral, as clientes devem escolher seu rapaz predileto na segunda visita e ater-se à escolha, para não gerar rivalidades dentro do clube.

"A cliente gosta de ver seu favorito ascender no clube", disse Kamioka. "Pode ser similar ao amor."

Perto de Laputa, no Club Impact, Dan Hibiki, o proprietário, explicou como se tornou rapaz de programa e depois proprietário.

"Fui traído por minha namorada, que teve um caso com outro homem", disse Hibiki, que tem 26 anos e, como a maioria no ramo, usa um nome artístico. "Foi um choque", acrescentou. "Apesar de ter um relacionamento muito sério com ela, perdi a confiança. Então decidi me vingar e dar em cima das mulheres." No entanto, acabou se tornando um profissional dedicado. Seu clube oferece um "sonho temporário" às mulheres.

"Deixamos a cliente gostar de estar aqui", disse ele. "Hoje em dia, os rapazes de programa fazem sexo com suas clientes muito facilmente. Eu pessoalmente acho que não devíamos fazer sexo com elas, porque assim a experiência deixa de ser um sonho."

Uma cliente regular, Haruka Misaki, 32, escolheu Hibiki há quatro anos e o seguiu para o Impact. Garota de programa, ela não gosta de seu trabalho. "Não troco de emprego porque o dinheiro é bom", disse Misaki, que vem ao Impact algumas vezes por semana. "Tenho que continuar trabalhando para poder vir aqui."

Perto das 3h30, as 12 cabines do Impact estão cheias, e os rapazes de terno preto começam a trabalhar.

"Você vai cuidar de mim, Dan?" perguntou Saori Miki, 21, garota de programa que vem ao Impact algumas vezes por semana, a cada vez gastando US$ 300 (em torno de R$ 900).

"Por quê? Por quê? O que aconteceu?" disse Hibiki. "Você está bêbada?"

"Você vai cuidar de mim? Ou eu cuido você?" disse ela.

"Sim", disse ele, "é assim que deve ser". Ela soltou um choramingo de reclamação.

As clientes e seus favoritos se sentam lado a lado, enquanto outros rapazes sentam-se de frente para eles, ajudando com as bebidas, secando a mesa ou rindo das piadas; na cruel hierarquia da indústria, os rapazes menos populares tornam-se "ajudantes".

Dois desses "ajudantes" estavam diante de Dan Hibiki e Saori Miki. "Você, fala!" disse Hibiki a um deles. "Bem", disse o ajudante, "achei que seria ruim se me intrometesse em sua conversa".

Hibiki disse: "Vista alguma coisa como Burberry."

"Algo como Burberry", disse o ajudante.

"E Mizuki também não fala", disse Hibiki de outro "ajudante".

"No caso de Mizuki, só ficar aí está bom", disse Miki.

"Por que?" perguntou Hibiki. "Por que ele é bonito?"

O ajudante Mizuki disse modestamente: "Não, isso não é verdade."

"Só o que você precisa fazer é ficar aí", disse Miki.

E assim prosseguiu a conversa no Impact, no Laputa e em outros clubes de Kabukicho, por mais algumas horas, até que os trens da manhã levaram Dan Hibiki, Saori Miki e os "ajudantes" para casa. Os jovens ganham em média US$ 30 mil mensais para cuidar delas Deborah Weinberg

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