UOL Notícias Internacional
 

05/04/2005

Os desafios do catolicismo no mundo em desenvolvimento

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Lagos (Nigéria)


Larry Rohter
No Rio de Janeiro
No modesto santuário da igreja da Assunção em Lagos, não há o brilho de vitrais, apenas venezianas foscas baratas para permitir a entrada da brisa. A via-crúcis não é pintada pela mão de um mestre renascentista. São entalhes simples de madeira pendurados na parede.

Mas é na África, e não nas suntuosas catedrais da Europa, que se encontra o futuro da fé católica romana, de acordo com Francis Anyanwu, o padre da igreja.

"A Igreja está crescendo aqui na África, vibrante, viva", disse Anyanwu enquanto esperava para dar a bênção após duas horas de oração na noite de sexta-feira pelo papa João Paulo 2º. "Pela graça de Deus, nosso rebanho está forte."

Quando o conclave de cardeais se reunir para escolher o sucessor do papa, a força da Igreja Católica Romana na África, América Latina e nos outros locais em desenvolvimento, onde vivem dois terços dos católicos, certamente pesará nas deliberações.

Apesar de apenas um terço dos cardeais eleitores serem de países em desenvolvimento, os representantes da América Latina superarão em número os da Itália. Vários cardeais latino-americanos foram mencionados como possíveis sucessores de João Paulo 2º, e um cardeal nigeriano, Francis Arinze, é freqüentemente citado como candidato.

"Por que não um papa africano?", questiona o padre Julius Olaitan, administrador da Catedral da Santa Cruz em Lagos, após uma missa matinal no sábado. "Nós ficamos em segundo plano por muito tempo, mas agora a Igreja encontrou suas raízes na África."

O desejo de um papa de um país em desenvolvimento pode ser ainda mais pronunciado na América Latina, que apresenta a maior concentração de católicos romanos do mundo, chegando a quase meio bilhão.

Alguns sentem que um líder como o cardeal Cláudio Hummes, de São Paulo, também citado como um possível sucessor, poderia revitalizar uma Igreja que tem perdido terreno para o pentecostalismo e outras seitas evangélicas. Estas, particularmente desde os anos 90, tomaram de assalto os países em desenvolvimento.

"Além de ser uma grande honra, seria realmente vantajoso ter alguém que realmente fala nossa língua e vem de uma experiência latino-americana", disse Marcelo Lisboa, um aposentado de 65 anos, após uma missa na manhã de domingo, no Rio de Janeiro.

"Acho que isso atrairia as pessoas de volta à Igreja", disse ele, "porque, apesar de a América Latina ter tantos católicos, a maioria não vai à missa, e certamente ajudaria a deter o avanço de todas essas seitas evangélicas com seus bispos e suas doutrinas falsas".

Na América Latina, por muito tempo domínio quase exclusivo da Igreja Católica Romana, os avanços das pentecostais e evangélicas freqüentemente ocorrem às custas das congregações católicas.

O pentecostalismo também obteve grandes ganhos na África, mas a concorrência aqui freqüentemente é por milhões de almas que estão disponíveis e adotam o cristianismo, deixando o animismo e outras religiões tradicionais, apesar de também enfrentar o avanço do Islã.

A Igreja Católica Romana na África tem desfrutado de sua parcela do fervor religioso que varreu a África no último século, um frenesi espiritual que viu o percentual de africanos que praticam o cristianismo subir de 9% a quase metade dos 900 milhões de habitantes do continente.

Atualmente, a Igreja Católica Romana alega ter quase 150 milhões de fiéis na África, 20 milhões somente na Nigéria, segundo o Centro para o Estudo do Cristianismo Global no Seminário Teológico Gordon-Conwell em South Hamilton, Massachusetts.

Mas tanto na África como na América Latina, a Igreja Católica Romana enfrenta grandes desafios, principalmente por parte da onda pentecostal, que tem atraído milhões para seu estilo animado de adoração e suas promessas de riquezas materiais tanto quanto espirituais, especialmente entre os altamente empobrecidos.

Antes uma força ativa nas vidas de muitos pobres na América Latina, quando o movimento da Teologia da Libertação dominou nos anos 70 e 80, a Igreja sob o papa João Paulo 2º tornou-se cada vez mais conservadora e, na visão de alguns, menos envolvida nas preocupações cotidianas dos pobres.

Na África, a Igreja ocasionalmente se viu envolvida nas guerras complicadas e sangrentas do continente. Em Ruanda, padres e freiras foram acusados e em alguns casos condenados por ajudar os hutus, os perpetradores do genocídio contra a minoria tutsi, em 1994.

Mas tais desafios empalidecem em comparação a décadas de estagnação e declínio da freqüência à igreja na Europa e nos Estados Unidos, mas apesar delas, muitos consideram que o futuro da Igreja se encontra nos países em desenvolvimento.

Em muitos países desenvolvidos, incluindo alguns profundamente católicos como a Irlanda, as posições firmes do papa contra divórcio, aborto, homossexualismo e controle da natalidade até certo ponto alienaram populações cujos pontos de vista sobre tais questões têm se tornado gradualmente mais liberais.

Mas particularmente na África, onde a Igreja está buscando crescer e as famílias têm sido devastadas pela crise da Aids, são precisamente essas doutrinas conservadoras que tornaram o papa querido por uma nova geração de católicos.

"O Santo Padre tem defendido os valores tradicionais, e esses são os mesmos que os valores africanos", disse Marie Fatayi-Williams, que veio orar pelo papa na igreja da Assunção, na noite de sexta-feira. "Nós acreditamos na família, na vida, na santidade do casamento. Não há controvérsia sobre tais coisas aqui."

De fato, se sua mensagem conservadora irritou os ouvidos dos fiéis europeus e americanos, o papa também pregou com grande eloqüência sobre a dignidade do sofrimento e o valor de cada vida humana, uma mensagem que pareceu responder às necessidades da África em um tumultuado quarto de século de guerras incessantes, ciclos de fome e morte e devastação provocada pela Aids.

Ao defender os valores conservadores, seus ensinamentos foram uma rocha em um momento instável, encaixando-se perfeitamente nos costumes tradicionais mais profundos que dominam a maioria das sociedades africanas. Ele visitou a África repetidas vezes, atraindo imensas multidões. Mesmo entre os não católicos, era uma figura amada.

"Em um continente onde o sofrimento é um fato da vida diária, ele é uma inspiração e um guia", disse Henry Akinwunmiho, 50 anos, um professor de escola primária, que chegou à catedral da Santa Cruz, em Lagos, antes do amanhecer de sábado para rezar pelo papa.

Na paróquia, Olaitan disse que assim como um papa polonês foi o homem certo para a grande mudança política da geração passada, o fim da Guerra Fria, um papa africano ou latino-americano poderia ser o que a Igreja precisa para garantir seu futuro no novo milênio.

"O papa João Paulo 2º sabia o mal que o comunismo era, e ajudou a combatê-lo neste mundo", disse Olaitan. "Um papa da África ou da América Latina poderia combater os males desta geração -a pobreza extrema, os conflitos étnicos e as doenças- e transformar a África, assim como o Santo Padre transformou o resto do mundo."

A mensagem conservadora de João Paulo também transformou a Igreja na América Latina, mesmo com a erosão de sua posição com o crescimento das animadas igrejas protestantes, cujo estilo de adoração -realizar curas, falar em línguas estranhas e expulsar demônios- atraiu milhões de fiéis.

Nenhum país tem uma população católica maior do que o Brasil, por exemplo, e no início do papado de João Paulo 2º mais de 90% dos brasileiros se consideravam católicos. Mas, no último senso, em 2000, pouco menos de três quartos dos 180 milhões de habitantes se declararam católicos, enquanto a população protestante quadruplicou.

Mais de 25 milhões de brasileiros atualmente pertencem a igrejas evangélicas ou pentecostais, levando alguns pastores protestantes a preverem que o país terá uma maioria protestante em 25 anos.

"Não sei se o Brasil continuará sendo um país tão católico como tradicionalmente tem sido", disse Waldo Cesar, um sociólogo luterano. "Ainda há muito espaço para o crescimento do protestantismo. A pobreza e a migração interna não estão diminuindo, e elas alimentam esse fenômeno."

No restante da América Latina, do México até a Argentina, está acontecendo praticamente a mesma coisa. Mesmo católicos fervorosos reconhecem que a Igreja tem sido vagarosa na resposta ao desafio, algo que os líderes em Roma poderão agora buscar reverter de forma mais agressiva.

Não será fácil. A Igreja Católica Romana atualmente se vê amarrada por uma escassez de padres que parece estar se tornando mais severa a cada ano que passa.

O interesse entre os jovens brasileiros não é suficiente para atender a demanda. Cada vezes menos europeus e americanos, uma grande fonte de padres no passado, estão disponíveis, resultando em muitas comunidades no árido sertão brasileiro e na Amazônia vendo um padre apenas uma vez a cada dois meses, aproximadamente.

Além disso, as igrejas pentecostais têm sido rápidas na exploração do potencial da televisão e têm atraído fiéis com uma pregação que promete riqueza material e espiritual, explorando as desigualdades sociais que se agravaram nos últimos anos.

De forma tardia, após anos no qual João Paulo centralizou a autoridade em Roma, a Igreja Católica Romana na América Latina respondeu com um movimento conhecido como Renovação Carismática, empregando hinos ao estilo de rock e incorporando, seguindo o exemplo das igrejas pentecostais, a leitura da Bíblia e até mesmo falando em línguas estranhas.

"Nossa liturgia é expansiva e criativa, prevendo um alto grau de participação popular", disse o padre Pedro Felix Bassini, o subsecretário pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. "Há certas normas e princípios básicos, mas não estamos dizendo que precisam ser estes ou aqueles. Nós estamos deixando que cada bispo forneça a orientação."

Em outras dioceses, os bispos têm buscado formas de conviver com o candomblé e a macumba, cultos afro-americanos semelhantes ao vodu e a santeria e que contam com milhões de seguidores.

No início do papado de João Paulo 2º, a Igreja igualmente teve que se ajustar às mudanças nas condições políticas e sociais na América Latina com a Teologia da Libertação.

Explorando livremente o marxismo em sua "opção preferencial pelos pobres", o movimento visava envolver mais os padres nas preocupações cotidianas dos fiéis e transformar o que via como sendo estruturas injustas que perpetuavam a pobreza e a desigualdade.

Mas, com sua experiência de vida sob um governo marxista-leninista, João Paulo 2º rapidamente se mostrou cético diante de tal abordagem e em dúvida quanto às suas bases doutrinárias.

Em um momento emblemático durante uma viagem à América Central nos anos 80, ele balançou seu dedo em admoestação aos padres na Nicarágua que se alinharam com a revolução sandinista e até mesmo assumiram cargos no governo local.

Por toda a América Latina, quando bispos simpáticos à Teologia da Libertação se aposentaram, eles foram substituídos por padres que não eram.

Hoje, o cardeal de Lima, no Peru, Juan Luis Cipriani Thorne, 61 anos, é membro do ultraconservador movimento Opus Dei, que acredita que a Igreja deve se limitar a um papel mais restrito, tradicional. Ele foi nomeado ao posto por João Paulo 2º em 2001, visando deixar o legado que almejava. Com grande concentração de seguidores, a Igreja Católica na América Latina e África vem perdendo influência devido ao conservadorismo e à não-adequação à realidade dos pobres George El Khouri Andolfato

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