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05/04/2005

Partido Republicano não respeita a universidade

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
É um fato documentado por duas pesquisas recentes. Estas registraram que os republicanos e os eleitos que de forma geral se proclamam como conservadores fornecem uma pequena minoria de professores nas melhores universidades dos Estados Unidos. Mas, quais são as conclusões que nós deveríamos tirar desses dados?

Os conservadores enxergam nesta realidade a prova indiscutível do preconceito liberal que predomina no plano das contratações e das promoções nas universidades.

E eles acrescentam que novas leis visando a consolidar a "liberdade acadêmica" irão simplesmente atenuar os efeitos desta influência, promovendo uma diversidade de pontos de vista.

Contudo, uma análise mais detalhada das universidades, assim como dos motivos daqueles que gostariam de policiá-las, sugere que a história é bastante diferente do que as aparências deixam supor.

As reclamações de que o predomínio da influência liberal deixa os conservadores de fora das cátedras universitárias quase sempre dizem respeito à filologia, às letras clássicas e às ciências humanas e sociais em geral, em relação às quais as avaliações do que constitui uma boa formação universitária podem parecer subjetivas para um leigo.

Mas as pesquisas que apuraram que os republicanos registrados como professores constituem uma minoria nas universidades mais conceituadas também mostram que os republicanos são quase tão raros entre os professores de ciências mais exatas tais como a física e nos departamentos de engenharia quanto nos campos menos "exatos" do conhecimento. Por quê?

Uma resposta possível é a auto-seleção --o mesmo tipo de auto-seleção que conduz os republicanos a serem bem mais numerosos que os democratas no exército, na proporção de quatro por um. O tipo de pessoa que prefere uma carreira acadêmica ao setor privado é suscetível de ser ligeiramente mais liberal do que a média, mesmo quando se trata do campo da engenharia.

Mas existe também uma questão de valores, que tem uma importância crucial. Durante os anos 70, até mesmo democratas tais como Daniel Patrick Moynihan reconheceram que o Partido Republicano era um "partido de idéias". Hoje, até mesmo republicanos tais como o congressista Chris Shays reconhecem que ele se tornou o "partido da teocracia".

Vamos considerar as declarações de Dennis Baxley, um legislador da Flórida que propôs um projeto de lei que --assim como outras leis similares que foram implantadas em cerca de uma dúzia de Estados-- atribuiria aos estudantes que acharem que as suas opiniões conservadoras estão sendo desrespeitadas o direito de processar na Justiça os seus professores.

Baxley afirma que ele está atacando "esquerdistas" que lutam com as "principais correntes da sociedade", professores que agem como "ditadores" e que transformam a sala de aulas num "nicho totalitário".

Qual é o principal exemplo de totalitarismo acadêmico apresentado por Baxley? Segundo ele, é quando professores afirmam que a evolução é um fato.

Em sua edição de 1º de abril, o Dia da Mentira, a revista "Scientific American" publicou um editorial "levemente satírico", no qual os autores apresentam um pedido de desculpas por estarem endossando a teoria da evolução, apenas porque este é "um conceito unificador para a biologia como um todo, e uma das mais importantes idéias científicas de todos os tempos".

Eles acrescentam que, "como editores, nós não tivemos nenhuma dificuldade em ser persuadidos por montanhas de evidências". Além disso, os autores admitem ter sucumbido "ao erro fácil de pensar que os cientistas têm uma melhor compreensão das questões que dizem respeito à sua especialidade do que, digamos, senadores americanos ou autores de romances best-sellers".

O editorial é intitulado "OK, nós nos rendemos". Mas ele poderia muito bem ter recebido o seguinte título: "Por que tão poucos cientistas são republicanos hoje em dia?".

Trinta anos atrás, os ataques contra a ciência eram desferidos, sobretudo, por expoentes da esquerda; atualmente, eles são oriundos, numa proporção avassaladora, da direita, e eles contam com o apoio das lideranças republicanas.

A "Scientific American" pode achar que a evolução está fundamentada em montanhas de evidências, mas o presidente Bush declara que "o júri ainda está reunido para tomar a sua decisão".

Enquanto isso, o senador James Inhofe menospreza a vasta quantidade de pesquisas que forneceram as bases para o consenso científico em torno das mudanças climáticas, considerando que tudo isso não passa de uma "gigantesca mistificação".

E por fim, certos gurus do conservadorismo tais como George Will escrevem para manifestar a sua aprovação em relação às fantasias anti-ecologistas de Michael Crichton.

Vamos pensar sobre a mensagem que tudo isso transmite: O Partido Republicano de hoje --que vem sendo cada vez mais dominado por pessoas que acreditam que a verdade deveria ser determinada pela revelação, e não por pesquisas-- não respeita a ciência, nem a vida acadêmica em geral.

Com isso, não deveria surpreender ninguém o fato de os catedráticos terem devolvido o favor, perdendo respeito pelo Partido Republicano.

Os conservadores deveriam estar preocupados com a alienação das universidades; eles deveriam ao menos se perguntar se uma parte do problema tem sua origem, não nos professores e sim neles mesmos.

Em vez disso, eles ficam procurando uma solução à Lysenko (Trophim Denisovitch Lysenko, botânico soviético cujas idéias, escritas entre 1948 e 1952, abalaram cientistas do mundo todo. O fato de ele rejeitar a ciência clássica e negar a existência dos genes, por exemplo, lhe valeu o descrédito total, exceto por parte de Stalin, que o considerava como um "fruto ideal do comunismo", mas causou um atraso enorme no campo da biologia) segundo a qual é a política que deveria determinar o conteúdo dos cursos.

Além disso, esta solução não seria apenas uma questão de exigir que os historiadores dêem menos importância ao papel que a escravidão exerceu nos primórdios da América, ou que os economistas atribuam às teorias macroeconômicas de Friedrich Hayek o mesmo respeito que para as de John Maynard Keynes.

Em breve, os professores de biologia que não atribuem ao criacionismo o mesmo destaque que para a evolução, e os professores de geologia que descartam o ponto de vista de que a Terra tem apenas 6.000 anos de existência poderiam enfrentar processos nos tribunais.

Se as coisas chegassem mesmo a este ponto, as universidades provavelmente encontrariam formas de enfrentar o problema --por exemplo, exigindo que todos os alunos calouros assinem um documento garantindo que eles não vão processar ninguém. Mas a pressão política, apesar de tudo, exercerá um efeito assustador sobre o conhecimento. E isso, é claro, é exatamente o seu objetivo. Deputado quer processar professor que ensinar a teoria da evolução Jean-Yves de Neufville

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