UOL Notícias Internacional
 

06/04/2005

Homenagem a João Paulo 2º constitui hipocrisia

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Nova York
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
O presidente Bush e outros líderes mundiais estão homenageando João Paulo 2º de uma forma que interpreta mal sua mensagem. Nós não o homenageamos colocando nossas bandeiras a meio pau e enviando uma grande delegação presidencial ao seu funeral, ao mesmo tempo em que desviamos nossos olhos enquanto aldeões são massacrados e mutilados no genocídio que se desenrola em Darfur [região do Sudão - África].

A mensagem do ministério do papa foi sobre se erguer contra o mal, não sobre a realização de grandes funerais.

"Por todo o Ocidente, o testemunho de João Paulo nos lembra de nossa obrigação de construir uma cultura da vida na qual os fortes protegem os fracos", disse Bush. Ora, que tal este lembrete? Que tipo de "cultura da vida" permite darmos de ombro enquanto soldados sudaneses lançam crianças em fogueiras?

As mais recentes estimativas, do governo britânico e outros, apontam que 300 mil ou mais pereceram até o momento em Darfur. Bush já chamou este massacre de "genocídio", mas ele tem usado este rótulo não para promover ação, mas para substituí-lo.

Atualmente as autoridades sudanesas estão acrescentando um novo elemento ao seus crimes contra a humanidade: elas estão prendendo garotas e mulheres que engravidaram devidos aos estupros em massa promovidos pelos soldados sudaneses e milicianos. Se as vítimas ainda não forem casadas, ou se seus maridos tiverem sido mortos, então elas são aprisionadas por adultério.

A organização Médicos Sem Fronteiras divulgou um relatório no mês passado sobre Darfur, no qual cita uma jovem de 16 anos como tendo dito:

"Eu estava catando lenha para minha família quando três homens armados, montados em camelos, chegaram e me cercaram. Eles me prenderam contra o chão, me amarraram e me estupraram, um após o outro. Quando cheguei em casa, eu contei para minha família o que tinha acontecido."

"Eles me expulsaram de casa, e tive quer construir a minha própria cabana longe da deles. Eu estava noiva de um homem, e aguardava ansiosamente pelo casamento. Depois que fui estuprada, ele não quis se casar comigo e rompeu nosso noivado porque ele disse que agora eu estava desgraçada e estragada."

"Quando eu estava com oito meses de gravidez devido ao estupro, a polícia veio até minha cabana e me forçou a ir com eles até a delegacia. Eles me fizeram perguntas, então eu lhes disse que tinha sido estuprada. Eles me disseram que já que não era casada, o parto do bebê seria ilegal."

"Eles me chicotearam no peito e nas costas e me colocaram na prisão."

O relatório citou outra jovem, de 17 anos, que foi estuprada por uma gangue e então presa dentro de sua cabana, que foi incendiada. Ela escapou atravessando a parede da cabana mas sofreu queimaduras extensas.

João Paulo queria que os líderes mundiais mostrassem compaixão pelo sofrimento de pessoas como estas garotas, não por papas mortos. Bush e outros líderes mundiais que estão seguindo para Roma poderiam realmente homenagear o papa se reunindo lá para estabelecer uma força de proteção em Darfur.

Enquanto isso, estes ataques continuam diariamente. E o que estamos fazendo a respeito? Quando as garotas são mutiladas após seus estupros, nós fornecemos band aids gratuitos.

Bush tem apoiado um esforço de ajuda humanitária. Mas mesmo as agências de ajuda enfatizam que o que é mais necessário é uma força de segurança para deter o massacre.

"Nós nos orgulhamos do que fazemos", disse Kenny Gluck, o diretor de operações baseado na Holanda da Médicos Sem Fronteiras. "Mas as aldeias das pessoas têm sido incendiadas, suas plantações destruídas, seus poços fechados, seus familiares estuprados, torturados e assassinados --e elas nos procuram, e nós lhes damos 2.100 quilocalorias por dia." Na prática, disse Gluck, o esforço de ajuda está sustentando as vítimas para que possam ser mortas de barriga cheia.

Eu não estou propondo o envio de tropas de solo americanas. Mas uma força expandida da ONU e africana, com apoio logístico dos Estados Unidos, é urgentemente necessária. E Condoleezza Rice deveria visitar Darfur imediatamente para mostrar que a área é uma prioridade americana.

Bush deveria apoiar imediatamente a Lei de Responsabilização de Darfur, um projeto de lei bipartidário que pressionaria o Sudão a deter o massacre (até o momento, a Casa Branca não se posicionou em relação à lei). Os cidadãos comuns também podem pressionar seus congressistas a aprovarem a lei.

Se há uma lição deste papado de João Paulo 2º, é o poder da força moral.

O papa não comandava tropas, mas ele empregava princípios. E é hipocrisia nossa fingir que o homenageamos baixando nossas bandeiras enquanto exibimos simultaneamente uma indiferença amoral a um genocídio. Combate ao genocídio no Sudão seria forma ideal de exaltar papa George El Khouri Andolfato

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