UOL Notícias Internacional
 

07/04/2005

Onda de peregrinos provoca tensão no Vaticano

The New York Times
Ian Fisher*

No Vaticano
As ruas em torno da basílica de São Pedro incharam com cerca de 1 milhão de peregrinos nesta quarta-feira (6/4). Com metade desse número de visitantes, o dia anterior já tinha sido difícil de administrar.

Lynsey Addario/The New York Times

Italianos encerraram a fila para ver o corpo do papa devido ao elevado número de peregrinos
A onda foi tão grande que as autoridades italianas fecharam a fila para ver o corpo do papa João Paulo 2º na quarta-feira à noite, depois de fazer várias advertências pelo rádio e por mensagens de texto pelo telefone. As autoridades do Vaticano disseram que 1 milhão de pessoas tinham visto o corpo do papa desde que foi exposto ao público.

Membros da segurança, temendo a espera de mais de 24 horas para ver o corpo, decidiram fechar a fila. Dignitários estrangeiros começaram a chegar para prestar suas homenagens e participar do funeral de sexta-feira. O presidente Bush chegou na noite de quarta-feira, indo direto para a Basílica de São Pedro com a delegação americana.

Ele entrou na basílica de mãos dadas com sua esposa, Laura, que usava um véu preto, e ajoelhou-se diante do papa ao lado de seu pai, o ex-presidente George H. W. Bush, além do ex-presidente Bill Clinton, a secretária de Estado Condoleezza Rice e o chefe de gabinete Andrew Card.

A fila ficou tão grande que se dividiu em dois --uma parte serpenteava pelas ruas estreitas da Cidade do Vaticano e a outra se estendia ao longo do rio Tiber. Durante a espera, via-se muita tensão e uma mistura impressionante de espiritual e material: por um lado, havia canções, preces e uma paciência espantosa; pelo outro fadiga, insolação e até mau comportamento.

"Eles me chamaram de maldosa, disseram que não tenho compaixão", disse Mariana Santoliquido, 27, que trabalha em um café diante do qual as pessoas passavam depois cerca de 10h de fila. As reclamações surgiram quando o café proibiu as pessoas de usarem o banheiro. Ela contou que foram tantas pessoas no dia anterior que o vaso tinha se desparafusado do chão.

A gritaria foi tamanha, disse ela, que o café foi forçado a contratar um segurança.

"A coisa feia sobre isso tudo é que a natureza da multidão é tão diferente do motivo por que está aqui", disse ela.

Apesar disso, com meia dúzia de exceções, a peregrinação tem sido calma. A semana está se tornando uma longa celebração, por milhares de fiéis, da vida de João Paulo 2º. O entusiasmo claramente agrada a igreja --mesmo que haja questionamento se conseguirá sustentar os sentimentos fervorosos com o próximo papa ainda não nomeado.

"Esplêndido!" exclamou um dos cardeais mais poderosos, Renato Martino, ao passar com suas vestes vermelhas reais pelas multidões diante da basílica e ver uma pessoa vendendo cartões de João Paulo 2º e rosários baratos.

O reverendo Thomas J. Reese, editor da revista católica "America", que chegou à Roma de Nova York na quarta-feira, disse que o tamanho da multidão era um indicador da afeição que as pessoas tinham por João Paulo 2º --aqui na Itália e em torno do mundo. Disse também que muitos não tinham consciência plena disso antes de sua morte.

"Os números são extraordinários", disse Reese, cuja revista jesuíta publicou artigos com críticas da política da igreja. "Eu tinha ouvido falar das multidões, mas chegar aqui e ver isso é avassalador. E só faz crescer."

O Conclave

Enquanto o Vaticano se preparava para a elaborada missa funeral na sexta-feira, os cardeais se reuniram pelo terceiro dia desde a morte do papa e determinaram o primeiro detalhe importante da seleção de um novo papa.

Joaquin Navarro-Valls, porta-voz do Vaticano, disse que a eleição do novo papa --chamada conclave-- começará no dia 18 de abril às 10h, depois de uma missa. Há 117 cardeais votantes, ou seja, que têm menos de 80 anos de idade. Eles se reunirão duas vezes por dia em segredo, isolados do mundo, até escolherem um novo papa.

Enquanto isso, o número de cardeais de todas as idades chegando a Roma para o funeral e o conclave continua a crescer: na reunião de quarta-feira, havia 116 cardeais, sendo que 32 tinham acabado de chegar, segundo Navarro-Valls.

Ele anunciou que o Vaticano divulgaria na quinta-feira o último testamento do papa --15 páginas de reflexões espirituais que começou a escrever em 1979, ano seguinte ao ser escolhido papa.

Navarro-Valls disse que, no testamento, o papa não revelou o nome do cardeal que apontara em 2003 como "in pectore", ou "do coração" --ou seja, a identidade do cardeal provavelmente não será conhecida. Tal segredo em geral é feito com cardeais que vivem em países nos quais enfrentam opressão.

"Esta questão não se apresentará novamente", disse Navarro-Valls.

Todos os dias desde a morte do papa o tamanho da multidão cresce marcadamente. Até quarta-feira, porém, consistia basicamente de italianos, turistas que já estavam na Itália e alguns poloneses. Mas na quarta-feira, começaram a chegar pessoas de fora.

Julie e Christy Krommer, irmãs de Cincinnati, viajaram nove horas até aqui. Provavelmente terão que esperar na fila mais tempo que isso para ver o corpo do papa.

"Por tudo que João Paulo fez por nós, qualquer espera é aceitável", disse Julie Krommer, 23, engenheira mecânica que chegou a Roma às 3h de quarta-feira, quando a fila tinha de 10 a 12 horas de espera.

Richard Cardmoody, 25, chegou de Londres na manhã de quarta-feira em um avião cheio de pessoas indo para Roma ver o corpo, disse ele, que acompanhava sua mãe, Patrícia, 51.

"Meus pés doem", disse ele depois de três horas na fila. "Chegarei lá".

Patrícia e Richard Haber, de Montreal, chegaram na segunda-feira conscientes de que talvez tivessem menos de 30 segundos diante do corpo do papa --mesmo depois de oito horas de vôo e talvez ainda mais horas na fila.

"Ele foi um grande homem", disse Patrícia Haber, explicando sua devoção. "Não acho que veremos outro homem tão grande."

Seu marido, com um crucifixo no pescoço, concordou, mas admitiu que estava um pouco desorientado, tendo saído do avião para o final de uma fila ao longo do Tiber a cerca de 1km do corpo do papa.

"Nunca estive em Roma", disse ele. "Nem sei onde está a basílica daqui."

Piotir Wojciechowski, 43, advogado, chegou de Varsóvia com sua mulher e duas filhas pequenas. Depois de três horas em uma fila que se movia pouco, admitiu que já estava cansado.

"É difícil esperar tanto tempo", disse ele. "Mas temos que esperar. Queremos ver o santo padre."

As autoridades da cidade estão se preparando para o desafio logístico ainda maior do funeral, seguido do enterro do papa na cripta abaixo da basílica. O trânsito será proibido no centro, e as repartições públicas serão fechadas.

O tráfego aéreo sobre a cidade será proibido. Cerca de 25 telões serão montados em torno da basílica para as pessoas poderem acompanhar de fora. Navarro-Valls disse que 3.500 jornalistas tinham se registrado para cobrir o funeral --outro desafio logístico por si só.

Em Termini, principal estação de trem de Roma, o número de pessoas que chegavam na quarta-feira era mais que o dobro do normal --1,5 milhão, comparados com 600.000 em um dia comum. Um policial, que pediu para permanecer anônimo, disse que tinha dormido pouco nos últimos três dias, e estava ansioso para que chegasse sábado ou domingo e as coisas voltassem ao normal.

"Ao menos até que eles nomeiem um novo papa", disse ele.

*Contribuíram Elisabetta Povoledo e Jason Horowitz. Funeral de João Paulo 2º vai requerer trabalhosa operação logística Deborah Weinberg

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