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08/04/2005

Assassinatos de jovens negros são ignorados

The New York Times
Bob Herbert

Em Nova York
NYT Image

Bob Herbert é colunista
Certa vez uma menina negra, cujo irmão fora assassinado, disse-me que era muito velha para sonhar. Ela tinha 12 anos de idade. Lembro-me de um adolescente da região centro-sul de Los Angeles que, há alguns anos, disse durante uma discussão sobre os seus colegas: "Alguns de nós não duram muito tempo".

Mas não se agitem. Essa é uma velha história. Não há nenhum choque de valores ou qualquer substância jornalística quando mais uma criança negra ou parda vira estatística.

Já faz muito tempo que enterrar os jovens é uma rotina em bairros pobres negros e latinos. Ninguém fica realmente abalado por esse tipo de coisa. Acho isso peculiar, mas existe muita coisa que acho peculiar neste mundo.

Tafare Berryman nasceu em 16 de fevereiro de 1983 no Hospital Kings County, no Brooklyn. O recém-nascido pesava 4,25 quilogramas. Na ocasião a sua mãe disse que ele era perfeito, e ela continuava dizendo a mesma coisa na semana passada, enquanto se preparava para o funeral do filho.

Tafare cresceu prodigiosamente. Quando foi assassinado na manhã do último domingo, faltando apenas cinco semanas para se formar na universidade, ele tinha dois metros de altura e pesava 108 quilos.

O seu tamanho não o defendeu da bala que surgiu da escuridão que antecede o crepúsculo matutino. Foi como um replay instantâneo de todas as balas que no decorrer de todos estes anos acabaram com tantas vidas jovens sem nenhum motivo concreto.

O fato é que ele se manteve distante de encrencas, os seus pais eram rigorosos, terminou o segundo grau em três anos e encarava com seriedade o curso universitário. Nada disso tampouco o protegeu.

O fato de ele ser um jogador de basquete popular na Universidade de Long Island, e dos seus colegas de faculdade, professores e técnicos garantirem que era uma pessoa adorável também de nada adiantaram. Há muitos bons garotos que não duram muito tempo.

O assassinato ocorreu em uma rua do condado de Nassau, em Long Island. Houve uma briga em um clube, e um amigo de Tafare tomou uma facada na cabeça. Os dois jovens deixaram o clube em um carro, que era dirigido pelo amigo.

Após terem rodado uns três quilômetros, eles pararam porque o amigo sangrava muito. Quando trocavam de bancos, e Tafare assumia a direção, um carro se aproximou. Um tiro --ou talvez dois-- foi disparado, e a vida de Tafare acabou. O amigo não foi atingido. A polícia não crê que Tafare estivesse envolvido na briga e acha que o atirador pode tê-lo confundido com o seu amigo, ou com outra pessoa.

A mãe de Tafare, Dawn Thompson, que mora no Brooklyn, recebeu um telefonema às 6h. Tudo o que lhe disseram foi que o seu filho havia sido baleado. Ela e vários parentes, que ocuparam três carros, seguiram rapidamente para Long Island. Na cidade de Long Beach indicaram à família o caminho do necrotério.

"Ele estava deitado com os olhos e a boca abertos, como se estivesse dizendo, 'Ah, meu Deus'", conta Thompson. Ela começa a soluçar. "Ele parecia alto. Muito alto, sabe? E os seus olhos estavam abertos, como se estivesse vendo alguém. E eu comecei a chorar, e disse: 'Sim, é o meu filho. Esse é o meu filho. Ele está morto'".

Quando ele estava crescendo, eu não me preocupava com a possibilidade de ser baleado ou esfaqueado e, francamente, achava que ia viver para sempre. Mas desde então houve muitas mudanças culturais. Nos últimos anos falei com centenas de jovens que testemunharam homicídios ou que eram muito ligadas emocionalmente a jovens que morreram violentamente.

Os artistas cantam entusiasticamente músicas que falam de estupro e homicídio, e rappers como o 50 Cent e o The Game contam vantagens sobre o número de balas que seus corpos absorveu (pelo menos 14 divididas entre todos os membros).

Gangues de rua se espalharam das cidades para os subúrbios e além, deslocando-se para aquelas áreas dos corações dos jovens que foram abandonadas pelos genitores, especialmente pelos pais. Em alguns bairros é mais fácil conseguir uma arma do que um livro escolar.

Nada disso é novidade. Dois dias antes de Tafare Berryman ser assassinado, Sequoia Thomas, uma estudante universitária de 17 anos, foi morta a tiros em frente à Escola de Ensino Médio Jamaica, no Queens, aparentemente por um conhecido. As suas últimas palavras foram: "Ajudem-me. Ajudem-me".

Mas os figurões estão preocupados com outras coisas. Em Nova York há um estádio de futebol que os políticos importantes querem construir. Em Washington, a preocupação dos presidentes dos Estados Unidos, tanto o atual quanto os anteriores, tem sido determinar quem irá ao funeral do papa. Outro dia, em Los Angeles, a elite negra célebre compareceu em massa ao funeral de Johnnie Cochran.

Jovens mortos e morrendo? Ninguém importante está muito interessado nesse tipo de coisa. A sociedade mostra insensibilidade com a rotina de mortes banais Danilo Fonseca

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