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08/04/2005

Saul Bellow: o mestre do universo

The New York Times
Ian McEwan*

Especial para o NYT

Em Londres
Quando morre um grande escritor --um evento incomum, pois esta é uma espécie rara-- nós prestamos nossa homenagem visitando nossas estantes, bibliotecas ou livrarias; lamento e celebração se misturam honradamente. Levará algum tempo até termos a plena medida do feito de Saul Bellow, e não há motivo para não começarmos com algo pequeno, uma frase ou uma sentença que se tornou parte de nossa mobília mental, e parte dos prazeres da vida. Afinal, bons leitores, Nabokov aconselhava seus alunos, "devem notar e afagar os detalhes".

Os amantes de Bellow freqüentemente invocam um certo cão, latindo desanimadamente em Bucareste durante a longa noite do domínio soviético na Romênia. Ele é ouvido por um visitante americano, Dean Corde, o herói sonhador tipicamente bellowiano de "Dezembro Fatal", que imagina estes sons como um protesto contra a estreiteza do entendimento canino, e um apelo: "Pelo amor de Deus, abra o universo um pouco mais!" Nós aprovamos tal observação porque somos, de certa forma, aquele cão, e Saul Bellow, nosso mestre, nos ouviu e nos fez o favor.

De fato, a própria liberdade que Henry James reivindicava para o romancista em seu ensaio "A Arte da Ficção" ("Toda vida pertence a você") foi generosamente adotada por Bellow; e libertou a si mesmo, assim como as gerações seguintes, das armadilhas formais do modernismo, que em meados do século 20 começaram a parecer uma restrição pesada.

Ele não tinha tempo para a afirmação de Virginia Woolf de que o personagem do romance moderno está morto. O mundo de Bellow é tão densamente povoado quanto o de Dickens, mas seus cidadãos não são nem caricaturas nem grotescos.

Eles se instalam na memória como pessoas que você poderia convencer a si mesmo que conheceu: o extorsionário incorrigível Lustgarten ("parte sutil, parte doente") em "Mosby's Memoirs", que causa a ruína financeira de sua família ao importar um Cadillac na França do pós-guerra; o desprezível Cantabile acenando uma arma em "O Legado de Humboldt"--em sua agitação ele repentinamente precisa defecar, e força sua vítima, Charlie Citrine ("um homem de cultura ou feitos intelectuais") a entrar em um estábulo com ele. Citrine se distrai com reflexões sobre o comportamento símio enquanto Cantabile se "agachava lá com seus semblantes de adaga endurecida".

E o mais vívido de todos, pelo menos para mim, Moses Herzog, o sonhador mais completo de Bellow, o menos prático dos homens em uma América de buscas materiais, vigorosas. Em "Herzog", Bellow levou à perfeição a arte da divagação literária. Quando o herói vai visitar seu amor, a adorável Ramona, ele espera na cama enquanto ela sai para se vestir no que Martin Amis chamaria de "roupa de bordel".

Naqueles momentos Herzog reflete sobre como todo o mundo o pressiona, e Bellow parece fazer uma espécie de manifesto, uma lista de desafios que o romancista precisa confrontar, ou a realidade que ele precisa conter ou descrever. Também serve como um guia para o leitor da matéria-prima da obra de Bellow.

Eu acabei decorando esta passagem após várias leituras, e a peguei emprestado para a epígrafe de um romance. Foi um risco, porque a pulsação desta prosa provavelmente tornaria meu próprio som insignificante.

"Ora, por exemplo, o que significa ser um homem. Em um cidade. Em um século. Em transição. Na massa. Transformado pela ciência. Sob poder organizado. Sujeito a tremendos controles. Em uma condição causada pela mecanização. Após o fracasso tardio das esperanças radicais. Em uma sociedade que não era uma comunidade e desvalorizava a pessoa. Em dívida com o poder multiplicado dos números que tornaram o eu insignificante. Que gastou bilhões militares contra inimigos estrangeiros mas que não pagaria para botar ordem em casa. Que permitiu selvageria e barbarismo em suas próprias grandes cidades. Ao mesmo tempo, a pressão de milhões humanos que descobriram o que esforços e pensamentos orquestrados podem fazer. Como megatoneladas de água moldam os organismos no fundo dos oceanos. Como as marés polem as pedras. Como ventos cavam penhascos..."

A cidade de Bellow, é claro, era Chicago, tão vital para ele, e belamente e ricamente evocada, quanto a Dublin de Joyce; os romances não se passam simplesmente no século 20, eles são sobre aquele século --suas impressionantes transformações, sua selvageria, suas novas máquinas, as grandes batalhas de seus sistemas de pensamento, o fracasso retumbante dos sistemas totalitários, as bênçãos duvidosas do modo americano.

Esses elementos não são tratados de forma abstrata, mas peneirados pelas excentricidades do personagem, de um indivíduo tentando determinar onde se encontra em relação à massa da qual faz parte. E sempre o passado está pressionando para se inserir, lembranças da infância, as ruas cheias e prédios de apartamento, quartos divididos, parentes e vizinhos dominadores e excêntricos --o imigrante pobre, atendendo ao chamado da identidade americana.

O crítico americano Lee Siegel escreveu recentemente que todo escritor britânico com ligação intelectual ou emotiva com os Estados Unidos presta reverência a Bellow, dizendo: "Ele é a Rocha de Plymouth deles, ou talvez sua Rodésia". Há certa verdade nisto.

O que encontramos nele que não encontramos aqui, entre os nossos?

Eu acho que admiramos o aspecto generosamente inclusivo da obra --desde o século 19 um escritor não era capaz de traduzir uma sociedade inteira, sem condescendência ou antropologia social consciente. Bellow consegue se mover de forma inconsútil entre os pobres e suas ruas ordinárias e as poderosas elites da universidade e governo, o sonhador privilegiado com "pensamento do mar profundo".

Sua obra é a personificação de uma visão americana de pluralidade. Na Grã-Bretanha nós não somos mais capazes de escrever sobre as distorções grosseiras e sutis de classe --ou não podemos fazê-lo de forma graciosa, sem aparentar esforço e sem caricatura. Bellow parece maior, portanto, do que qualquer escritor britânico pode esperar ser.

Outro motivo: em uma cultura literária que geralmente tem favorecido o romance como um todo em detrimento da sentença bem elaborada, nós prezamos a musicalidade, a sagacidade, o ritmo adorável de uma boa linha bellowiana.

Um exemplo, altamente apreciado pelo crítico James Wood, é a descrição de Behrens, o florista na história "Something to Remember Me By": "Em meio às flores, apenas ele não tinha cor --algo como o preço que pagou por ser humano". Outro exemplo, de relevância especial para mim porque prestei tributo a Bellow fazendo uma variação dela: em "Herzog", nós lemos sobre Gersbach com sua perna de pau, "flexionando e endireitando graciosamente como um gondoleiro".

Assim não surpreende o fato de que algumas das melhores celebrações da escrita de Bellow terem se originado na Grã-Bretanha. Certos ensaios podem já estar na suas estantes, e neste momento de fazer inventário, pode ser estimulante procurá-los.

Um deles é a defesa magnífica de Martin Amis de "As Aventuras de Augie March" como o Grande Romance Americano definitivo, na introdução da edição da Everyman; outra é a introdução de James Woods para "Collected Stories" da Penguin, na qual o prazer é o elemento central em sua resposta à obra.

Escritores que admiramos e relemos são absorvidos na letra miúda de nossa consciência, no ruído branco de nossos pensamentos, e assim, nunca morrem. Saul Bellow começou a publicar nos anos 40, e sua obra se espalha pelo século que ajudou a definir. Ele também redefiniu o romance, o ampliou, libertou, o tornou caloroso com senso humano, sagacidade e grande propósito.

Henry James certa vez propôs uma verdade óbvia mas de grande ajuda: "A qualidade mais profunda de uma obra de arte sempre será a qualidade da mente do produtor". Nós estamos dizendo adeus a uma mente de qualidade inigualável. Ele abriu um pouco mais o nosso universo. Nós lhe devemos tudo.

*Ian McEwan, romancista britânico, é autor de "Amsterdã", "Amor para Sempre", "Ao Deus-Dará", "O Inocente", "Cães Negros", "O Jardim de Cimento" e "A Criança no Tempo". Romancista norte americano ampliou o universo de seus leitores George El Khouri Andolfato

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