UOL Notícias Internacional
 

08/04/2005

Último testamento resume vida de João Paulo 2º

The New York Times
Daniel J. Wakin

Em Roma
Ele estava se aproximando dos 80 anos, suas mãos tremiam, sua fala estava embolada, seu andar hesitante por causa da doença de Parkinson.

O papa João Paulo 2º levara o cristianismo para o terceiro milênio.

Alguns dias antes daquele, emitira uma declaração de culpa extraordinária pelos pecados da igreja. Dias depois, ele faria uma viagem histórica e cansativa ao Oriente Médio.

Foi então, de acordo com seu testamento divulgado na quinta-feira (7/4), que o papa possivelmente angustiou-se em torno de um pensamento muito grave: a renúncia.

Na última seção, datada de 17 de março de 2000, do testamento escrito em 15 partes durante seu papado de 26 anos, João Paulo reviu sua vida.

"A providência considerou adequado que eu vivesse neste século difícil, que está virando passado", escreveu. "Agora, no ano em que eu atinjo meus 80 anos, a pessoa precisa se perguntar se não é hora de repetir o 'Nunc dimittis' bíblico de Simão".

Ele se referia à passagem, em latim, do evangelho de Lucas na qual Simão pega o menino Jesus nos braços e diz: "Senhor, agora deixe seu serviçal partir em paz."

Mas ele parece ter rejeitado a idéia.

A providência, miraculosamente salvou sua vida da tentativa de assassinato na Praça de São Pedro em maio de 1981. João Paulo prosseguiu, e disse: Deus, "de certa forma, me deu uma nova vida".

"A partir deste momento, ela pertence a Ele mais do que nunca", escreveu o papa. "Espero que ele me ajude a reconhecer quanto tempo preciso continuar nessa senda. Peço a ele que me chame quando quiser."

A linguagem do papa era ambígua, e autoridades do Vaticano se recusaram a interpretá-la. John-Peter Pham, ex-diplomata do Vaticano e autor de um livro sobre a sucessão papal, "Herdeiros do pescador", disse que ele parecia estar pensando em renunciar.

A possibilidade tornou-se assunto de especulações na medida em que o papa foi ficando mais velho e frágil. Nos últimos anos, vários de seus próprios cardeais não descartavam a idéia. A abdicação papal é inusitada na igreja moderna; o último a renunciar foi Gregory 12º, em 1415.

Em certo ponto, João Paulo 2º também deixou aberta a possibilidade de ser enterrado em sua terra natal, a Polônia, e que os líderes da igreja polonesa orientariam os arranjos de seu funeral. Mais tarde, porém, ele acrescentou que o Colégio de Cardeais teria a palavra final.

As frases referentes ao enterro geraram questionamentos sobre a integridade do texto, porque se referiam a uma seção anterior que não estava contida na versão divulgada pelo Vaticano.

Escrito à mão na margem, estava seu pedido para ser enterrado na terra, como será nas criptas da Basílica de São Pedro depois do funeral de sexta-feira.

Apesar do tom profundamente espiritual e reflexivo, o testamento também lida com questões práticas. João Paulo disse que não estava deixando para trás posses significativas para serem distribuídas. Ele disse que seus bens pessoais deveriam ser distribuídos e suas notas privadas deveriam ser queimadas. Ele pediu que o arcebispo Stanislaw Dziwisz, seu secretário pessoal de longa data, supervisionasse a tarefa.

O papa de fato produziu renda com seus livros, mas em geral foi revertida à caridade. Dziwisz ficou ao lado da cama do papa nos últimos dias de sua doença e estava presente quando faleceu na noite de sábado. João Paulo agradeceu-lhe particularmente, o único indivíduo que mencionou pelo nome.

O documento, divulgado pelo Vaticano em uma tradução italiana do polonês, é cheio de devoção à Virgem Maria, em quem João Paulo 2º freqüentemente expressava forte fé. João Paulo 2º fez de tal devoção parte de seu papado espiritual, adotando o lema "totus tuus", significando "todo seu", e referindo-se à mãe de Jesus. Ele fazia visitas freqüentes aos templos de Maria.

A mortalidade é um tema freqüente no documento. "Hoje", escreveu em 1980, "desejo acrescentar apenas isso: que cada um deve manter em mente a perspectiva da morte".

Algumas seções tinham poucas frases, e a maior parte foi escrita nos meses de março, em torno da quaresma, quando o papa e os cardeais fecham os escritórios do Vaticano e devotam uma semana a um retiro de reflexões espirituais.

O primeiro texto é datado de 6 de março de 1979, seis meses após sua eleição como papa. "Agradeço a todos", disse ele. "Peço perdão a todos". Ele diz ter se inspirado a escrever o testamento depois de ler o de Paulo 6º, durante um retiro recente. Depois disso, nos retiros sucessivos, passou a reler sua primeira porção do testamento.

Pham, especialista em sucessão papal, disse que ficou impressionado com as similaridades com o testamento de Paulo. "Lendo isso, tem-se a sensação de um homem muito só, sozinho com Deus, e questionando seu valor e habilidade de desempenhar a tarefa diante dele", disse Pham. "Alguém que apesar de tudo coloca grande confiança na misericórdia divina".

O testamento também reflete a época em que João Paulo viveu. Em 1980, ele escreveu: Os tempos "indizivelmente difíceis e complicados. O caminho da igreja tornou-se duro e tenso --tanto para os fiéis quanto para os pastores". A igreja, em alguns países, viu-se "em um período de perseguição comparável à dos séculos anteriores, talvez até maior pelo nível de desdém e ódio", escreveu.

Vinte anos depois, ele disse que o fim da Guerra Fria levou ao fim das tensões e agradeceu à providência pelo fato de não ter ocorrido uma guerra nuclear.

A seção mais longa é a última. Ali, ele oferece elogios aos membros do clérigo e outros com quem colaborou, particularmente o "rabino de Roma", além de muitas outras figuras não cristãs que conheceu. Em 1986, Elio Toaff, então principal rabino de Roma, recebeu João Paulo 2º na sinagoga central da cidade, em um evento marcante em seu papado.

Nos últimos parágrafos, João Paulo 2º escreveu as seguintes palavras, no texto fornecido pelo Vaticano:

"Com a aproximação do fim da minha vida na Terra, volto para a memória do começo, de meus pais, meu irmão e irmã (que eu não conheci porque morreu antes de meu nascimento), a paróquia de Wadowice, onde fui batizado, aquela cidade querida, meus colegas, amigos da escola fundamental, do ensino médio, da universidade até o tempo da ocupação quando eu era um trabalhador, e depois a paróquia de Niegowie, e a de St. Florian em Cracóvia, a academia pastoral, Cracóvia e Roma, as pessoas que, de uma forma especial, foram confiadas a mim pelo Senhor. A todas quero dizer uma coisa: 'Deus lhe pague.'" Papa expõe solidão e gratidão no texto, manuscrito desde 1978 Deborah Weinberg

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