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09/04/2005

Bancos brasileiros vêem áreas pobres como fonte de crescimento

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
O Banco Popular do Brasil estava procurando clientes como Lauziete de Sousa Gouvea quando abriu uma filial no bairro pobre onde ela mora, na periferia da zona oeste de São Paulo.

Gouvea, que suplementa o salário modesto de seu marido como guarda de segurança vendendo lanches na rua com um carrinho, nunca teve uma conta bancária. Mas não teve dificuldade para abrir uma no Banco Popular, uma operação simplificada do Banco do Brasil, de propriedade do governo. Apenas com a carteira de identidade e seu número da Previdência Social, ela abriu uma conta básica com cheque, sem taxa mensal e sem exigência de saldo mínimo.

O banco é um dos vários que abriram recentemente ou expandiram suas operações para atingir os 40 milhões de pobres brasileiros que até então estiveram excluídos do sistema bancário.

Durante décadas, os bancos do país atenderam quase exclusivamente às classes média e alta, visando uma pequena mas rica minoria em um país com uma das desigualdades de renda mais acentuadas do mundo.

Mas agora isso está começando a mudar, em parte porque as classes ricas brasileiras já têm bancos demais. Segundo os analistas, isso significa que o potencial de crescimento das instituições financeiras na extremidade alta do mercado está diminuindo.

Os bancos também estão transferindo sua atenção para os pobres porque as taxas de juros no Brasil deverão cair nos próximos anos, com a queda da inflação e o crescimento robusto da economia. E, com a queda dos juros, os bancos vão perder uma de suas maiores fontes de renda: a negociação de títulos do governo indexados pela taxa de empréstimos overnight do Banco Central.

"Os bancos têm de procurar alternativas para seus investimentos clássicos em títulos do governo", disse Rodolfo Spielmann, sócio da Bain & Co. em São Paulo. "Eles estão acordando para o fato de que as classes de baixa renda serão a maior fonte de crescimento no futuro."

O governo também está fazendo sua parte para trazer os pobres para o sistema bancário. Dois anos atrás, pouco depois de Luiz Inácio Lula da Silva se tornar o primeiro presidente brasileiro vindo da classe operária, o Banco Central afrouxou os regulamentos bancários depois de verificar que 1.750 dos 5.500 municípios do país não ofereciam serviços financeiros.

Sob as novas regras, os bancos podem montar quiosques e terminais bancários em supermercados e farmácias, em vez de abrir filiais completas. Como os bancos brasileiros são altamente automatizados, esses terminais tendem a ser baratos de operar, facilitando o retorno do investimento.

Para incentivar os empréstimos aos pobres, o governo também permitiu que os bancos usem até 2% das exigências de reserva --dinheiro que de outro modo ficaria estacionado no Banco Central-- para oferecer empréstimos a baixos juros para clientes de baixa renda.

Por lei, o juro cobrado sobre esses empréstimos não pode superar 2% ao mês, muito distante dos 10% a 12% que a maioria dos consumidores brasileiros paga por um empréstimo.

Os novos regulamentos prepararam o caminho para iniciativas como o Banco Popular, que foi criado em fevereiro de 2004 e já tem mais de 1,3 milhão de contas e 6 mil filiais. Caixa Aqui, uma operação semelhante conduzida pela Caixa Econômica Federal, controlada pelo governo, tem 2,8 milhões de contas e emprestou cerca de R$ 2,5 bilhões em menos de dois anos de existência, tudo para clientes que ganham no máximo R$ 1 mil por mês.

Os bancos do governo não são os únicos que estão em busca dos pobres. O Bradesco, maior banco privado brasileiro, tem sua própria versão desses bancos populares, chamado Banco Postal, que oferece serviços bancários nas agências dos Ccorreios. O Banco Postal tem mais de 3 milhões de correntistas, um terço dos quais contrataram empréstimos.

Embora a maioria dos clientes desses bancos sejam trabalhadores não-capacitados com pequena estabilidade no emprego, seu índice de insolvência --9% no Banco Postal, por exemplo-- não é muito maior que a média do mercado.

"Segundo nossa experiência, na primeira oportunidade que o cliente tem ele paga", disse Odair Rebelato, diretor-executivo do Banco Postal.

Outros bancos, como o Lemon Bank, um pequeno banco privado com sede em São Paulo que opera exclusivamente por meio de terminais automáticos em pontos de venda como padarias e lojas, estão mais interessados em oferecer serviços financeiros básicos do que crédito.

O banco, que foi criado por dois investidores argentinos em meados de 2002 e amortizou o capital investido no último trimestre de 2004, realizou 72 milhões de transações no ano passado, principalmente pagamentos de contas de pequenos correntistas em bairros pobres das cidades.

"Existe muito romantismo em relação ao crédito", disse Michael Esrubilsky, gerente-geral do Lemon Bank. "Mas o que nosso cliente realmente precisa é de conveniência para pagar as contas, não ter de perder uma hora para chegar ao banco mais próximo e gastar R$ 10 em transporte para ir e voltar."

Outra maneira como os bancos estão atingindo os pobres é com parcerias com redes de varejo, muitas das quais oferecem crédito próprio para consumidores de baixa renda há décadas.

O Bradesco, por exemplo, assinou um acordo em novembro com as Casas Bahia, o maior varejista do país de móveis e eletrodomésticos, para administrar sua carteira de crédito. E a Banco Itaú Holding Financeira, segundo maior banco privado brasileiro, concordou recentemente em fornecer financiamento ao consumidor para alguns varejistas, incluindo a Companhia Brasileira de Distribuição, a maior rede de supermercados do país [grupo Pão de Açúcar].

Para os bancos, unir forças com os varejistas é uma maneira fácil de "expandir suas operações para uma base maior de clientes sem ter de investir em crescimento orgânico ou aquisições", disse José Francisco Canepa, diretor-executivo da unidade de crédito ao consumidor do Itaú.

Os bancos estrangeiros também estão entrando no jogo. O Citigroup, que há muito tempo é considerado um banco da elite no Brasil, está aumentando seus empréstimos à classe média-baixa por intermédio da sua unidade de crédito ao consumidor, CitiFinancial. O gigante britânico HSBC Holdings tem sido ainda mais agressivo em sua busca para conquistar consumidores de baixa renda.

No final de 2003, o HSBC pagou US$ 815 milhões para comprar os ativos do Lloyds TSB no Brasil, que incluíam uma importante financeira chamada Losango. Com a aquisição, o HSBC ganhou 7 milhões de clientes e imediatamente se tornou um dos principais atores no mercado de finanças ao consumidor de baixa renda. No final deste ano, o HSBC espera que a carteira de crédito da Losango tenha mais que duplicado, para US$ 1,7 bilhão.

Gouvea está feliz com sua nova conta bancária. Ela pode aceitar pagamentos em cheques sem a humilhação de pedir a amigos para descontá-los. Pode pagar suas contas todo mês no quiosque do Banco Popular em seu bairro, em vez de pagar a tarifa de ônibus para ir ao próximo banco na cidade. E em fevereiro Gouvea, que tem 34 anos, recebeu seu primeiro empréstimo bancário --um adianto de R$ 300 com baixos juros para pagar uma dívida e ter um pouco de dinheiro disponível.

"Eu sempre evitei os bancos por causa da burocracia", ela disse. "Agora de repente posso até pedir empréstimos. É difícil acreditar." Previsão de queda de juros faz setor cortejar público de baixa renda Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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