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09/04/2005

Sinos fazem último adeus ao papa João Paulo 2º

The New York Times
Ian Fisher

No Vaticano
João Paulo 2º, que era um cardeal polonês pouco conhecido quando foi nomeado papa em 1978, foi enterrado na sexta-feira (8/4) depois de uma missa fúnebre que atraiu centenas de milhares admiradores de todo o mundo, importantes e comuns.

"Nenhum de nós vai esquecer como, no último domingo de Páscoa de sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, veio uma vez mais à janela do Palácio Apostólico e, uma última vez, deu suas bênçãos", disse em sua homilia o cardeal Joseph Ratzinger, que conviveu com o papa por quase três décadas, apontando para a janela do apartamento papal.

"Podemos ter certeza de que nosso amado papa está em pé hoje, na janela da casa do Pai, de onde ele nos vê e abençoa", disse Ratzinger. "Sim, abençoe-nos, Santo Padre."

A multidão, que enchia a praça de São Pedro e chegava até o Rio Tiber, aplaudiu. Uma brisa soprava pelas bandeiras de todo o mundo, levantava os chapéus dos cardeais e virava as páginas do Evangelho que descansava em cima do caixão simples de João Paulo. Em meio à forte esquema de segurança e preocupações com ataques terroristas, ouvia-se os motores dos helicópteros sobre os hinos em latim na cerimônia de três horas.

Foi o maior funeral para um papa nos quase 2.000 anos de história do cargo.

À direita do caixão estavam chefes de Estado de mais de 70 países, uma quantidade sem precedentes para um funeral papal. Na segunda fileira, o primeiro presidente americano a participar de um funeral de um papa, George W. Bush, estava sentado ao lado de sua mulher, Laura.

O primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair, o príncipe Charles e os presidentes Alexander Kwasniewski, da Polônia, Mohammad Khatami, do Irã, e Moshe Katsav, de Israel, também estavam presentes, além de cinco reis, seis rainhas e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

Havia representantes das principais religiões do mundo. Por trás do caixão, com suas vestes vermelhas, estavam mais de 100 cardeais --um dos quais provavelmente se tornará papa nas próximas semanas.

Nas ruas, a avalanche de peregrinos que baixou em Roma desde que João Paulo morreu no dia 2 de abril aos 84 anos continuava buscando a praça, apesar de não tanto quanto nos quatro dias em que o corpo ficou exposto à visitação na basílica.

Estima-se que 2 milhões de pessoas visitaram os restos mortais do papa desde segunda-feira, em uma onda de peregrinos que as autoridades italianas estimaram em 3 milhões ou mais.

No entanto, na sexta-feira, com tantos líderes mundiais presentes e o risco alto de problemas, as autoridades italianas praticamente fecharam o centro de Roma, tornando difícil o acesso à praça de São Pedro. O tráfego de carros e caminhões foi proibido, e cortejos de VIPs atravessavam a cidade. Escolas e repartições públicas foram fechadas. Helicópteros de segurança e caças voavam pelos céus vedados à aviação privada.

Dezenas de milhares de pessoas assistiram o funeral em quase 30 telões distribuídos pela cidade. Autoridades italianas disseram que cerca de 1 milhão de pessoas tinham assistido ao funeral em público em torno da cidade.

Mas nenhuma questão de segurança ou dificuldade pôde afastar os mais devotos da basílica, inclusive várias centenas de milhares de poloneses que vieram para a Itália, muitos sem dormir há muitos dias e sem lugar para ficar. Havia grande número de bandeiras vermelhas e brancas da Polônia, muitas com os laços pretos do luto.

"Ele quebrou o comunismo, ele amava a paz", disse Tom Czuwara, 17, de Varsóvia, explicando por que viajou 30 horas com 50 colegas de escola para participar do funeral.

Kyrian Atuogo, 27, gastou quase um ano de salário para vir à Roma da Nigéria, e participou do funeral com um amigo que carregava uma bandeira nigeriana verde e branca.

"Ele é como o presidente do mundo. Ele era bom para nós, então decidimos gastar nosso dinheiro para prestar-lhe nossas últimas homenagens", disse Atuoto, servidor público, do papa.

Alguns levavam enormes cartazes dizendo em italiano "Santo súbito" --um apelo para que João Paulo fosse santificado imediatamente.

Ao todo, foi um dia extraordinário de espetáculo e tradição nas ruas em torno do Vaticano, nas praças de Roma e, acima de tudo, na praça de São Pedro, cercada pela elipse graciosa de Bernini, na companhia do obelisco carregado da Alexandria pelo imperador Calígula e o domo projetado por Michelangelo.

O último funeral papal foi para o papa Paulo 6º, em agosto de 1978, e atraiu até 100.000 pessoas, o maior funeral papal da história, segundo o Vaticano. Noventa e cinco nações estavam representadas então, mas com a presença de apenas meia dúzia de chefes de Estado.

O funeral para João Paulo --que viajou para 129 países enquanto papa-- foi de uma magnitude diferente, tanto em tamanho e na lista de convidados dos muitos países que visitou quanto nas demonstrações de afeto, mesmo entre os que diferiam dele em muitas questões.

"Ele seguia demais a doutrina", disse Francesca Tatoli, 20, estudante, que mesmo assim viajou com entusiasmo de Bari, no Sul da Itália, para participar do funeral. Ela disse que discordava da condenação da contracepção por João Paulo, porque, segundo ela, não ajudava a deter a disseminação da Aids.

"Ao mesmo tempo, era um bom homem", disse ela, "e é por isso que todas essas pessoas estão aqui".

De fato, a lista de convidados do funeral parecia um testamento a João Paulo, reunindo um grande espectro de pessoas. Muitos que normalmente não estariam na mesma sala encontravam-se sentados lado a lado na sexta-feira. Um papado tão longo e poderoso deu a todos muito o que admirar, mas também muito a questionar ou, em sua morte, simplesmente ignorar.

Ele buscou como nenhum papa os judeus e muçulmanos --e líderes políticos e religiosos vieram ao funeral, tanto de Israel quanto da Arábia Saudita, apesar de a igreja ainda ver Jesus Cristo como o único verdadeiro mediador da salvação.

Suas opiniões sobre o aborto e a santidade da vida humana ressoaram com a política conservadora de Bush, apesar de sua oposição à pena capital e às duas guerras no Iraque. Sua postura em relação ao Iraque, entretanto, ajudou a aumentar sua popularidade entre muçulmanos.

Muitos italianos, assim como muitos católicos liberais, apreciavam sua preocupação e dedicação à pobreza e justiça social, apesar de ignorá-lo em questões como contracepção, divórcio ou aborto.

Em sua homilia, Ratzinger, 77, fez um esboço da vida de João Paulo, dizendo que a chave para compreendê-lo era a frase dita por Cristo a Pedro, depois de sua ressurreição: "Siga-me."

Ele contou como Karol perdeu a mãe quando jovem; falou de seu trabalho em uma usina química na Polônia, de seu amor quando jovem pela filosofia, teologia e poesia e de seu trabalho pastoral como padre.

"Ele nos tirou de uma fé letárgica, de um sono dos discípulos de ontem e hoje", disse Ratzinger, conservador que deverá ter importante papel na seleção do próximo papa.

Ele também falou da doença e da idade de João Paulo.

"O papa sofreu", disse ele, "e amou em comunhão com Cristo, e é por isso que a mensagem de seu sofrimento e silêncio se provou tão eloqüente e frutífera".

Apesar de tantos aspectos extraordinários no funeral de João Paulo, o básico seguiu séculos de tradição do Vaticano. Foi uma missa, falada em partes em 10 línguas, e não houve outros palestrantes ou testemunhos além da homilia.

Na sexta-feira pela manhã, enquanto os convidados se reuniam para o funeral, o arcebispo Stanislaw Dziwisz, seu secretário pessoal de longa data, cobriu o rosto de João Paulo com um véu branco e aspergiu-lhe gotas de água benta. O corpo foi selado em um ataúde de cipreste e levado para fora da basílica por 12 carregadores de preto.

A multidão aplaudiu quando o caixão --marcado com a cruz e um M da Virgem Maria-- saiu para o sol e foi colocado no alto das escadas.

Depois da missa, o caixão foi levado para as criptas em baixo da basílica, construídas no local tradicional da tumba de São Pedro, que trouxe o cristianismo para Roma. Ali, em meio a corpos de mais de 70 dos 264 papas, o ataúde de cipreste foi colocado dentro de um de zinco, que então foi fechado por outra cobertura de madeira.

Em seu último testamento, divulgado na quinta-feira, João Paulo requisitou que fosse enterrado na terra e não acima dela. Ele foi enterrado no local onde ficava o caixão do papa João 23, antes de seu corpo ser transferido para um sepulcro dentro da basílica em 2001.

Mas antes de o caixão ser levado para as criptas, os carregadores o tiraram da escadaria e deram uma volta para ficar diante de dezenas de milhares de peregrinos, apresentando-o para a multidão por um longo momento. Os sinos de São Pedro tocaram. Ondas de aplausos varreram a multidão; muitos choravam.

"Sabia que a cerimônia seria majestosa, mas não achava que fosse ficar tão comovido com o serviço", disse Bush aos repórteres no avião presidencial Air Force One, na sexta-feira, a caminho de casa. "A cerimônia de hoje, aposto com vocês, foi uma reafirmação para milhões" de pessoas.

*Colaboraram Jason Horowitz e Elisabetta Povoledo. Pontífice mais popular da história é enterrado após ritual religioso

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