UOL Notícias Internacional
 

09/04/2005

Superávits da China apontam para futuros atritos

The New York Times
David Barbosa em Xangai e

Keith Bradsher em Hong Kong
Após anos de grandes superávits comerciais principalmente com os Estados Unidos, a China agora está exportando para todo o mundo em uma taxa tão rápida que outros países também estão se vendo acumulando grandes contas com a China.

O boom chinês resultante certamente aumentará os atritos comerciais em outros lugares e aumentará a pressão sobre Pequim para que permita a valorização de sua moeda. Se a tendência dos primeiros dois meses se mantiver, a China terá um superávit comercial não apenas com os Estados Unidos, mas também transformará seu déficit com o restante do mundo em superávit.

Isto poderá levar alguns parceiros comerciais da China na Europa a se juntarem aos Estados Unidos nas fortes exigências de restrições comerciais sobre a China.

A China teve um superávit comercial com o mundo de US$ 33 bilhões em 2004. Mas se o comércio com os Estados Unidos for excluído, a China teria na verdade um déficit de US$ 47 bilhões com todos os outros países combinados.

Mas com 36% mais exportações chegando a países estrangeiros em janeiro e fevereiro, a China apresentou um superávit comercial de US$ 10,9 bilhões com o mundo nos primeiros dois meses de 2005, em comparação a um déficit de US$ 7,9 bilhões no mesmo período do ano passado.

Apesar de brinquedos, roupas, móveis e aparelhos de TV da China já dominarem as prateleiras das lojas americanas há anos, estes e novos produtos como lâmpadas portáteis e até mesmo equipamento de radionavegação estão sendo enviados em quantidades cada vez maiores para países que vão da Grã-Bretanha e Espanha até Brasil e Indonésia, segundo dados chineses recentemente divulgados.

Ao mesmo tempo, a China está entrando em mercados globais nos quais antes tinha um papel pequeno. Ela está se tornando uma grande exportadora de commodities industriais como aço e produtos químicos, com as exportações de aço quase quintuplicando nos primeiros dois meses de 2005 em comparação ao ano passado. A China está importando menos carros e menos maquinário pesado à medida que estes passam a ser produzidos na própria China, e as empresas fazem planos para exportar mais carros e maquinários.

Ao manterem a moeda chinesa fortemente atrelada ao dólar, que tem se desvalorizado nos últimos três anos, as autoridades de Pequim tornaram os bens chineses ainda mais competitivos em países que usam moedas como o euro, que tem se valorizado rapidamente frente ao dólar. Isto tem ajudado a China a exportar mais, ao mesmo tempo em que tem desencorajado as empresas chinesas a importarem.

Mas as políticas cambiais da China têm enfurecido Washington, onde o Senado está considerando uma medida que imporá uma sobretaxa de 27,5% sobre as exportações chinesas a menos que Pequim valorize o renminbi, atualmente fixado em 8,28 para um dólar, em um prazo de seis meses. Apesar de não ser esperado que a medida se torne lei --o governo Bush é altamente contrário a ela-- a consideração da proposta mostra a crescente atenção do Congresso ao relacionamento comercial.

No início desta semana, o governo Bush começou a considerar a imposição de restrições aos têxteis importados da China. Enquanto isso, autoridades da União Européia estabeleceram uma série de níveis de alerta de importação, que poderiam resultar em restrições aos têxteis importados da China.

O Departamento de Comércio planeja divulgar números do comércio na terça-feira, e especialistas esperam que os Estados Unidos terão outro grande déficit com a China em fevereiro. Mas as estatísticas já divulgadas por Pequim mostram que as exportações chinesas para os Estados Unidos cresceram 36,8% nos primeiros dois meses deste ano, enquanto as exportações americanas para a China caíram 9,7%.

As exportações chinesas cresceram ainda mais para outros países, enquanto o total de importações aumentou apenas 8%. As exportações cresceram neste ano 42% para Grã-Bretanha, 44% para a Alemanha, 59% para o Canadá e Itália, e 75% para a Espanha e Indonésia, em comparação ao mesmo período no ano passado.

Tanta carga está deixando os portos chineses tão saturados que os exportadores lutam para encontrar navios e contâineres para transportar tudo. "Os preços dos contêineres estão nas alturas e você não consegue encontrá-los atualmente", disse Harry Banga, vice-presidente do Noble Group, uma empresa de transporte e commodities de Hong Kong.

Muitos compradores atualmente são europeus, como Alejo Rodriguez, um comprador baseado em Hong Kong para a El Corte Inglés, uma rede de lojas de departamento espanhola. Os fornecedores chineses têm tentado aumentar os preços para cobrir os custos crescentes do petróleo e outras matérias-primas. Mas a El Corte tem resistido até o momento --a ponto de seus custos terem até mesmo caído nos últimos três anos em termos de euros, ele disse.

Uma grande mudança no comércio está ocorrendo no mercado mundial de aço. A China se tornou a maior consumidora de aço do mundo. Mas a produção chinesa de aço cresceu ainda mais, já que praticamente todas províncias ergueram siderúrgicas.

Muitas delas produzem barras reforçadas de aço, chamadas rebar no setor de construção, fazendo a China passar de escassez a superabundância. Seu rebar está sendo exportado para todo mundo, incluindo os Estados Unidos.

"Nós compramos rebar a bons preços na China e trazemos para os Estados Unidos" em janeiro e novamente em fevereiro, disse Nicholas Tolerico, presidente da ThyssenKrupp Steel Services em Richburg, Carolina do Sul.

A China ainda importa aço galvanizado de alta qualidade, o tipo usado no corpo dos automóveis. No geral, ela ainda é uma importadora de aço, mas por uma pequena margem. As importações de aço caíram 11,3%, para US$ 3,82 bilhões, enquanto as exportações subiram 389%, para US$ 2,62 bilhões.

E apesar da escassez de cobre ter forçado uma alta recorde nos preços, para US$ 1,785 a libra na quinta-feira, as empresas chinesas estão rapidamente aumentando suas exportações de cobre, particularmente de encanamento para banheiro.

O superávit comercial da China em canos de cobre quintuplicou nos primeiros dois meses do ano, de US$ 9 milhões no ano passado para US$ 46 milhões.

A Alemanha, que se beneficiou por anos com a venda de maquinário e equipamento de manufatura para a China, viu um superávit comercial de US$ 1,24 bilhão com a China, em janeiro e fevereiro do ano passado, se transformar em um déficit de US$ 316 milhões nos dois primeiros meses de 2005. A Itália teve um déficit comercial de US$ 181 milhões com a China em janeiro e fevereiro de 2003, que aumentou para US$ 256 milhões em 2004 e US$ 812 milhões nestes dois meses deste ano.

Computadores, roupas e móveis de escritório chineses estão inundando a Alemanha e a Itália. Assim como exportações de corantes sintéticos para a Holanda e partes de locomotivas ferroviárias para o Canadá, que mais que dobraram.

Mas os economistas dizem que isto não é apenas efeito do dólar fraco.

Grande parte do aumento das exportações, disse Stephen Roach, economista-chefe do Morgan Stanley, se deve ao efeito cumulativo de multinacionais estrangeiras montando seus centros de produção na China. "Após anos de investimento, tudo está vindo à tona com tudo."

As duas grandes perguntas que fazem executivos e economistas é se o superávit comercial da China continuará crescendo ou se provocará uma onda de protecionismo nos países industrializados. É claro, a China ainda enfrenta grandes déficits com os países produtores de petróleo, notadamente a Arábia Saudita e Angola. Mas mesmo com o petróleo próximo de US$ 60 o barril, a demanda por bens chineses está crescendo à frente dos custos da China pela energia necessária para produzi-los.

Alguns economistas, como Ifzal Ali, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento Asiático, dizem que as economias em desaceleração na Europa e Japão poderão começar a reduzir a demanda por todos os bens, incluindo as exportações da China, ainda neste ano.

"Os pedidos de exportação são feitos com seis ou sete meses de antecedência, assim, se houver uma desaceleração, ela ocorrerá depois de junho", disse ele.

Mas com o aumento das exportações, os Estados Unidos e a União Européia começaram a fazer objeções, principalmente em relação às exportações de roupas e têxteis chineses, que não são mais limitadas por um sistema internacional de quotas que expirou no final do ano passado.

Os produtores de vestuário americanos e europeus estão extremamente irritados, mas os fabricantes de muitos outros setores estão menos preocupados até o momento.

"É provável que a médio prazo a situação das exportações-importações da China apresente altos e baixos", disse Terrence Straub, vice-presidente sênior para política pública e assuntos de governo da U.S. Steel Corp.

Straub e outros executivos de empresas que concorrem com as exportações chinesas disseram que estão mais preocupados com o baixo valor da moeda chinesa, conhecida como yuan ou renminbi. Straub disse que a maioria das empresas americanas provavelmente se concentrará na moeda mais do que em déficits comerciais em um produto específico.

"A longo prazo este é um relacionamento insustentável", disse ele.

Os crescentes superávits comerciais poderão dificultar para a China manter a moeda atrelada ao dólar no patamar atual.

Jonathan Anderson, um economista da UBS, previu que os superávits comerciais da China serão de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões por mês ao longo do segundo trimestre, já que o comércio foi mais ou menos equilibrado no mesmo período no ano passado. Os superávits agora estão se somando aos afluxos de até US$ 20 bilhões por mês, e colocam um fardo pesado sobre o banco central para impedir que o dinheiro adicional provoque inflação.

As autoridades chinesas têm dito nos últimos anos que estão estudando a possibilidade de permitir uma flutuação mais livre do valor do yuan, um passo que provavelmente resultaria em sua valorização. Mas elas insinuaram que não tolerariam muita valorização, e que uma pequena mudança no valor do yuan teria pouco efeito sobre as exportações chinesas. Países que acumulam déficits exigem a valorização do renminbi George El Khouri Andolfato

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