UOL Notícias Internacional
 

10/04/2005

Cardeais buscam comunicador como novo papa

The New York Times
Laurie Goodstein e Daniel J. Wakin

Em Roma
Os cardeais católicos romanos farão um voto de sigilo quando entrarem no conclave para eleger o próximo papa, mas, na semana que se seguiu à morte de João Paulo 2º, muitos deram publicamente indícios sobre que tipo de homem a igreja precisa agora.

A enorme demonstração de afeto por João Paulo claramente teve um impacto na forma de pensarem. Muitos dos prelados disseram em linguagem notadamente semelhante que o próximo papa deve acima de tudo ser um comunicador, capaz de manter o entusiasmo dos fiéis, especialmente entre os jovens, que foi gerado por João Paulo.

Como todos, exceto 3, dos 117 cardeais-eleitores foram selecionados por ele, é altamente improvável que o novo papa abandonará o conservadorismo de João Paulo em contracepção, divórcio, ordenação de mulheres ou o que a igreja considera como sendo questões de "santidade da vida", que vão da pesquisa de célula-tronco até aborto e eutanásia.

Antes da morte do papa, muitos cardeais e comentaristas disseram que um fator decisivo seria geográfico --se o próximo papa viria da Europa, onde a igreja está minguando, ou da América Latina, África ou partes da Ásia, onde a igreja está experimentando um crescimento descontrolado.

Em vez disso, eles disseram que estão procurando por alguém que possa projetar um apelo universal, com uma humildade pessoal e presença pastoral que personifique a mensagem do evangelho, como disseram que fez João Paulo. Não se trata de escolher um grande orador, disseram muitos cardeais em entrevistas.

"Ele não precisa ser João Paulo 2º e ter as mesmas impressões digitais", disse o cardeal J. Francis Stafford, ex-arcebispo de Denver e atualmente uma importante autoridade do Vaticano. "Ele só precisa ser autêntico. E se as pessoas virem que ele é autêntico, que é honesto --elas verão que é tudo o que precisam. Ele as liderará até Cristo, e isto é tudo o que é preciso."

Stafford e outros falaram antes do sábado, quando o porta-voz do Vaticano, Joaquin Navarro-Valls, anunciou que os cardeais decidiram por unanimidade "evitar entrevistas e contato com a mídia", cujos membros foram "convidados a se abster" de buscarem comentários.

Os cardeais têm se reunido diariamente desde a morte de João Paulo.

"Os cardeais iniciaram um período de silêncio mais intenso e oração diante do conclave", disse ele. O conclave terá início em 18 de abril.

Os homens que elegerão um entre eles para ser o líder de uma igreja com mais de um bilhão de fiéis formam o Colégio de Cardeais mais etnicamente e geograficamente diverso na história, graças ao esforço de João Paulo de aumentar o número de não-italianos.

Vinte e um são da América Latina, uma das regiões católicas que mais crescem no mundo, lhe dando um a mais do que a potência tradicional, a Itália. Os Estados Unidos e o Canadá têm 14; a África e a Ásia têm 11 cada; e Europa, onde em alguns países a igreja está perdendo fiéis, tem 58. O cardeal-eleitor mais jovem tem 52 anos; o mais velho fará 80 anos em junho.

Eles são mais ou menos divididos entre aqueles que trabalham na cúria do Vaticano, cuidando dos assuntos da igreja, e aqueles que servem como arcebispos, cuidando dos católicos na esfera local.

Há diferenças demográficas distintas, mas também há temas que querem que o próximo papa destaque no exercício de seu ministério público.

Vários cardeais indicaram um forte desejo por um cardeal arcebispo. "Eu espero que sua atenção seja voltada para as comunidades locais da fé", disse o cardeal de Nova York, Edward M. Egan. "A paróquia é a unidade central que deve ser servida."

Mais do que em antigos conclaves --a reunião a portas fechadas na Capela Sistina, onde os cardeais votarão-- esta apresenta um número incomumente grande de "papabili", a palavra em italiano para descrever aqueles com potencial papal.

Os cardeais odeiam mencionar nomes. A partir dos comentários de muitos, o campo parece realmente aberto.

Mas ao descreverem as qualidades que desejam, é possível especular sobre sérios candidatos, sempre levando em consideração a advertência freqüentemente repetida sobre conclaves: "Entra como papa, sai como cardeal".

Os papáveis

Um homem que se encaixa em muitos dos atuais critérios é o cardeal Dionigi Tettamanzi, o arcebispo de Milão. Ele lembra a muitos católicos italianos um papa anterior muito amado, João 23, caloroso, gordo e com baixa estatura.

Um fator mencionado como desejável na agenda do próximo papa é continuar forjando laços mais estreitos com outras religiões e outras seitas cristãs.

"Você não deseja um choque de religiões", disse o cardeal Avery Dulles, professor da Universidade Fordham e um teólogo altamente respeitável que é velho demais para votar. Ele apontou o ecumenismo como uma das duas prioridades do próximo papa, juntamente com a continuidade do esforço de João Paulo para evangelizar o Ocidente.

Em um nível prático, as candidaturas serão promovidas pelo que é conhecido entre os observadores do Vaticano como grandes eleitores --cardeais influentes que podem determinar votos ou pelo menos são procurados em busca de orientação.

Eles tendem a ser membros proeminentes de congregações do Vaticano onde se encontram com outros cardeais, ou viajantes freqüentes, ou homens que pela simples força do intelecto e personalidade têm peso.

As questões nas mentes dos católicos que gostariam de ver sua igreja mais liberal em posições de contracepção, divórcio ou ordenação de mulheres não estão em discussão, disseram os cardeais em entrevistas. Isto não exclui a possibilidade do próximo papa eventualmente levar a igreja a adotar uma nova interpretação de suas tradições, mas quando um assunto é considerado questão de doutrina, é altamente improvável que mude.

Por exemplo, um repórter perguntou ao cardeal de Chicago, Francis George, em uma coletiva de imprensa, se a igreja consideraria a aprovação do uso de preservativos para prevenir a Aids em locais duramente atingidos como os países africanos.

"Sua solução é exterminar os pobres?" disse ele. "A doutrina da igreja não vai mudar, de forma que você trabalha com ela da melhor forma que pode." O papa Paulo 6º reforçou a proibição da igreja a contraceptivos artificiais em sua encíclica "Humanae Vitae".

Apesar do crescente consenso de que precisam de um comunicador, há sempre a chance de que outros fatores tenham peso significativo na escolha dos cardeais.

Eles podem optar por uma figura interina mais velha, alguém que ajudaria a igreja a fazer uma pausa para respirar após um dos pontificados mais longos e momentosos da história.

Um candidato para tal papel seria o cardeal Joseph Ratzinger, que trabalhou estreitamente com João Paulo por 24 anos, como supervisor chefe de teologia da igreja, e é profundamente respeitado por sua erudição e firmeza. Ele também é um decano dos cardeais, efetivamente seu presidente e guia. Ratzinger é um dos três atuais cardeais-eleitores que já participaram de um conclave.

Mas a idade avançada pode atrapalhar. Ratzinger completará 78 anos no próximo sábado. "Ele tem uma personalidade bem forte, de grande inteligência, fé e abertura", disse o cardeal Zenon Grocholewski para a agência de notícias "Reuters". "O problema é sua idade avançada."

Talvez um homem jovem e vigoroso seja atraente, após tantos anos do mundo assistindo a um João Paulo cada vez mais doente.

O arcebispo vienense, Christoph Schoenborn, 60 anos, encaixa-se neste critério. Ele é o quarto mais jovem dos cardeais, e é amplamente respeitado por ser erudito e articulado. Filho de uma família aristocrática com vários membros do clero ao longo dos séculos, Schoenborn é bem cotado pela forma como lidou com os escândalos sexuais que envergonharam seu antecessor.

Mas alguns o acusam de demonstrar frieza na forma de lidar com seu pessoal e por não ter reagido bem em uma disputa com outro bispo austríaco. Ele pertence à ordem religiosa dominicana.

E há a região: o novo papa deve vir de um país em desenvolvimento?

Talvez, prossegue esta linha de raciocínio, o momento seja perfeito para um papa tratar da pobreza, assim como a Guerra Fria exigiu um Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo 2º.

O cardeal Francis Arinze da Nigéria, que também está altamente envolvido nas relações com os muçulmanos, é um perene favorito. Arinze é uma autoridade no Vaticano há 20 anos, e é chefe do departamento que regula o culto e a prática sacramental. Ele se converteu ao catolicismo quando tinha 9 anos.

Apesar de suas credenciais espirituais serem fortes, os críticos disseram que ele carece de imaginação. Seus termos podem ser fortes. Há um ano, ele disse que um político católico romano que apóia o aborto "não está apto" a receber a comunhão, e tem criticado a homossexualidade por "ridicularizar" a família.

Talvez nada disto importe, sugeriram alguns cardeais, voltando à questão do carisma. "Ele precisa ser capaz de se comunicar com pessoas jovens e ricas em países como os Estados Unidos e a França", disse o cardeal Philippe Barbarin da França.

"Ao mesmo tempo ele precisa ser capaz de se relacionar com os pobres quando vai a locais como o Brasil, Marrocos ou Burkina Fasso. Ele precisa ser uma pessoa capaz de explicar os Evangelhos para todo tipo de audiência."

"Ele precisa realmente amar seus fiéis --ele precisa entender seus sofrimentos, suas dificuldades. João Paulo 2º foi este tipo de papa. Ele sabia como falar a língua dos jovens." Perfil do próximo pontífice deve ser parecido com de João Paulo 2º George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host