UOL Notícias Internacional
 

11/04/2005

Arrogância pode tirar o Partido Republicano do poder, afirmam democratas

The New York Times
Robin Toner e Carl Hulse

Em Washington
Newt Gingrich, o ativista conservador que obteve o controle sobre o Congresso uma década atrás ao fazer campanha contra uma maioria democrata entrincheirada, arrogante e poderosa, está de volta como figura inspiradora em Capitol Hill.

Desta vez, a sua mensagem está sendo veiculada pelos democratas. Os líderes do partido estão cada vez mais convencidos de que em 2005 são os congressistas republicanos que estão inebriados pelo poder. Para eles os republicanos extrapolaram em questões como a da Previdência Social e das nominações para o Judiciário, tomaram medidas eticamente questionáveis e perderam completamente o contato com o seu eleitorado.

"O que os democratas estão dizendo é que os republicanos estão abusando do sistema", afirma o deputado Steny H. Hoyer, de Maryland, um dos democratas mais ativos da Câmara. "Eles não estão jogando segundo as regras da casa, as regras ditadas pela ética, as regras do Senado, ou sequer segundo as regras legais, como no caso de Terri Schiavo".

Harry Reid, de Nevada, líder democrata no Senado, deu início a uma campanha de denúncia dirigida contra os republicanos na Câmara e no Senado, devido à "arrogância" dos adversários e ao "abuso de poder" praticados por estes, argumentando no seu discurso no rádio neste sábado (9/4) que os parlamentares republicanos ameaçam um judiciário independente e até mesmo os princípio do equilíbrio entre os poderes.

Nancy Pelosi, da Califórnia, líder democrata na Câmara, declarou: "Não existe comitê de ética. Ele foi completamente engolido pelos republicanos, e isso deveria ser um motivo para grande escândalo no país".

Instituições de filosofia liberal e grupos de ativistas têm divulgado propagandas e e-mails de alerta, acusando os conservadores daquilo que Gingrich costumava chamar de "um padrão de corrupção sistêmica".

Os republicanos dizem que os democratas estão na ofensiva política porque não têm nada mais a dizer. "Tudo o que eles conseguem fazer é atacar, atacar e atacar, porque não contam com uma alternativa positiva", acusa o deputado David Dreier, republicano da Califórnia e presidente do Comitê de Normas.

Mas o senador Charles E. Schumer, de Nova York, presidente do Comitê Democrata de Campanhas para o Senado, rebate: "Aquilo que, com alguma razão, acusavam os democratas de fazer no início dos anos 90, eles próprios praticam agora".

Resumindo, alguns estrategistas democratas estão recorrendo à velha lista de estratégias de Gingrich em uma era que possui paralelos evidentes com o início da década de 90: um único partido controlando o Congresso e a Casa Branca; indignação quanto à questão ética; uma série de legislações de âmbito doméstico, há muito prometidas, que parecem ter sido aniquiladas (agora a Previdência Social, depois o sistema de saúde pública); cisões cada vez mais acentuadas no campo da maioria; e uma unidade surpreendente da minoria.

Os republicanos estão bastante conscientes dos perigos, tendo eles próprios chegado ao poder com a promessa de reformas, e dizem que não sofrerão uma derrota fragorosa como a enfrentada pelos democratas em 1994.

"Não há dúvidas de que os democratas querem que Tom DeLay seja Jim Wright", afirma o deputado Roy Blunt, de Missouri, um republicano conhecido pelas suas críticas à oposição, referindo-se ao líder do Partido Democrata, cujos problemas éticos deram início ao longo distanciamento dos democratas do poder. "Só que em muitos, muitos aspectos, Tom DeLay não é Jim Wright. Ele vai contra-atacar".

Além do mais, Blunt acrescentou: "Nunca encaramos a maioria como uma certeza. E acho que os democratas, em 1994, após 50 anos como maioria parlamentar, tinham muitos motivos para vê-la como algo de certo. Nós nos preocupamos a cada eleição com a possibilidade de perdermos o controle, e acho que agora estamos mais prontos para o jogo do que estávamos em 1994".

Os democratas se irritaram com o controle republicano sobre o Congresso por quase uma década, e tentaram com pouco sucesso alegar que os republicanos, arrogantemente, perderam progressivamente o contato com os eleitores. Mas nas últimas semanas eles identificaram novas vulnerabilidades no partido governista e oportunidades inéditas para criticarem os adversários junto ao eleitorado.

DeLay, o líder da maioria na Câmara, que está sofrendo ataques baseados em questões éticas, conferiu uma face e um símbolo ao alvo dos democratas, assim como Jim Wright, então o líder da casa, se tornou a face e o símbolo para os ataques de Gingrich no final dos anos 80.

As iniciativas dos republicanos para modificar as regras quanto aos adiamentos de votações parlamentares a fim de auxiliar as nomeações de Bush para o Judiciário injetaram energia nos ativistas de ambos os partidos. E a tentativa de Bush de reinventar a previdência gerou um interesse substancial entre a população e a oposição.

Acima de tudo, segundo dizem analistas democratas e alguns independentes, a intervenção parlamentar no caso de Terri Schiavo revelou a extensão do poder republicano, a ambição dos conservadores sociais do partido e a disposição revelada por estes para desafiar o Judiciário.

DeLay, em particular, continua a atacar a "supremacia judicial" e criticou ferozmente os tribunais que se negaram a autorizar a reinserção da sonda de alimentação em Schiavo, uma medida desejada pelos parlamentares conservadores.

Várias pesquisas recentes indicaram uma reação popular contra os republicanos. Em uma recente pesquisa Gallup/USA Today/CNN, 55% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que os republicanos "estão tentando usar o governo federal para interferir nas vidas privadas da maioria dos norte-americanos". Apenas 40% dos que foram ouvidos discordaram da assertiva.

"O ápice disso tudo foi o caso Schiavo", diz a deputada Louise M. Slaghter, democrata veterana de Rochester, Nova York. "O povo passou a questionar o que os parlamentares estavam fazendo ao irem além das suas atribuições".

Democratas como Slaughter não perdem tempo em observar que os republicanos se apoderaram do poder com a promessa de reforma, mais abertura e mais democracia. Os democratas também asseguram que os republicanos ampliaram o controle sobre a Câmara, impedindo a votação de emendas no plenário, limitando o debate, excluindo democratas de comitês e reorganizando comissões a fim de conferir maior influência à liderança.

Um recente relatório apresentado pelos democratas ao Comitê de Normas, liderado por Slaughter, declarou: "Dez anos após a sua 'revolução', os deputados republicanos abandonaram completamente o padrão de democracia deliberativa que estabeleceram para si próprios".

Os republicanos retrucam que são bem mais inclusivos do que os democratas quando estes controlavam a casa, no que diz respeito a legislações. No início deste ano o presidente da Câmara, Dennis Hastert, de Illinois, descreveu as reclamações da oposição quanto às restrições relativas aos procedimentos como sendo "as mesmas velhas músicas e danças".

Dreier disse que os democratas contam com garantias de oportunidades no plenário das quais os republicanos jamais desfrutaram quando a Câmara estava sob o controle dos adversários. "Fiquei frustrado com o tratamento que recebemos como minoria", diz ele.

Mesmo assim, Gingrich, o ex-presidente da Câmara, resmungou um discreto elogio aos democratas. "Creio que eles estão tentando aprender como ser um partido de oposição efetivo, e fizeram a metade do dever de casa muito bem", afirmou.

Mas ele disse que os democratas ainda precisam fornecer uma mensagem positiva que vá além da proposta de retirar os adversários do poder. "Nós tínhamos um conjunto de grandes idéias", afirmou, referindo-se à proposta republicana apresentada pelos candidatos que disputaram a eleição em 1994. "O 'Contrato com a América' era nitidamente positivo".

Porém, Gingrich indicou que tem algumas preocupações com relação às atuais circunstâncias políticas do seu partido.

"Preocupo-me com o gasto descontrolado, porque somos o partido dos orçamentos equilibrados, do governo menor e dos impostos mais baixos", afirmou. "Preocupo-me também com qualquer tentativa de compromisso em detrimento da ética, porque somos naturalmente o partido das reformas".

À medida que cresce a indignação quanto a DeLay, os democratas dirigem grande parte da sua artilharia contra os líderes republicanos na Câmara, devido àquilo que garantem ser uma tentativa de neutralizar o comitê de ética com mudanças de suas regras e composição.

Howard Dean, presidente do Comitê Nacional Democrata, pediu na última sexta-feira aos republicanos que "restaurem a credibilidade e a justiça do comitê de ética".

Os estrategistas republicanos dizem que não encontram evidências de que este mais recente ataque democrata esteja surtindo efeito. Eles estão retornando a uma velha cartilha de táticas do partido ao se prepararem para a luta relativa aos adiamentos das votações judiciais, planejando ressaltar o papel do senador Edward M. Kennedy, democrata por Massachusetts, que ainda é um pára-raios, e da sua equipe, no veto aos juízes e na defesa dos adiamentos. "A palavra-chave da nossa estratégia será Kennedy", diz um assessor republicano.

O senador Trent Lott, o ex-líder conservador republicano do Mississipi, disse que os democratas é que cairão no conceito popular caso concretizem a ameaça de paralisar grande parte do Senado se os republicanos modificarem as regras quanto aos adiamentos. "Quando estiverem bloqueando legislações, será difícil dizerem que nós é que estamos abusando do poder", disse Lott.

"Creio que eles seriam muito espertos se dissessem: 'Vejam, podemos fazer com eles o que Newt Gingrich fez com Jim Wright e os deputados democratas. E podemos também fazer com eles, no que diz respeito à Previdência Social, o que fizeram conosco quanto à questão do sistema de saúde'", acrescentou Lott.

Mas ele indicou que o seu partido também estudou as lições de 1994, quando a legislação do presidente Bill Clinton para o sistema de saúde foi aniquilada após as eleições parlamentares, tendo sido um fator importante para as derrotas democratas.

Quanto à previdência, Lott afirmou: "Em algum momento, se o projeto não for realizável, vamos dar meia-volta e mudar de assunto".

O principal teste para a estratégia democrata ocorrerá nas eleições parlamentares do ano que vem. Enquanto isso, os democratas dizem acreditar que contam com uma oportunidade. E com a possibilidade de refazerem a história não como tragédia ou farsa, mas como um exemplo de defesa das suas idéias. Oposição a George W. Bush pretende usar lições da derrota de 1994 Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h39

    -0,18
    3,162
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h42

    -0,69
    65.212,59
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host