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11/04/2005

Como sair com um amigo sem parecer gay?

The New York Times
Jennifer Lee

Em Nova York
A questão delicada começou com um telefonema. A proposta era os dois amigos de Nova York se encontrarem em dezembro para visitar o Museu de Arte Moderna, após sua reforma. "Ele disse explicitamente: 'Sei que é meio estranho, mas devíamos ir'", disse Matthew Speiser, 25, lembrando-se da conversa com John Putman, 28, ex-colega da Faculdade Williams.

Phil Mansfield/The New York Times

Jeffrey Toohig (à esq.) e Armen Myers arriscam suas reputações ao jantar num restaurante em vez de assistir a um jogo de futebol, em NY
O incômodo ficou aparente quando chegaram ao museu. Eles praticamente se evitaram durante todo o passeio pelas galerias e não quiseram fazer qualquer demonstração pública de conhecimento de arte. "Definitivamente, fizemos um esforço para olhar as coisas separadamente", lembrou-se Speiser, que estudou história da arte.

"Nós ficamos sem jeito, fingimos saber menos de arte do que sabíamos."

Para acabar com a tensão gerada pela excursão que poderia ser entendida como um programa de casal gay --dois caras olhando arte juntos-- eles foram diretamente para um bar. "Não conseguimos parar de falar do fato de que era ridículo passarmos o dia todo juntos nos evitando", disse Speiser, que é heterossexual, assim como Putman. "Estávamos purgando nossa insegurança."

Se você já acha complicado um encontro potencialmente romântico, com seu conjunto de regras não ditas, considere um encontro entre dois sujeitos heterossexuais, algo ainda mais perigoso socialmente.

Estamos definindo um encontro entre homens como um programa entre heterossexuais sem a desculpa de negócios ou esportes. São dois caras se encontrando para o tipo de saída que homens heterossexuais fariam com uma mulher. Jantar junto seria um encontro gay; comer em um bar não é. Caminhar pelo parque é um encontro gay; correr no parque não. Ver o filme "Friday Night Lights" é um encontro gay, mas ir assistir um jogo de futebol certamente que não.

"Sideways", o filme que ganhou um Oscar sobre dois amigos passeando pela região vinícola da Califórnia nas vésperas do casamento de um deles é um longo encontro entre homens.

"Encontro entre homens" foi uma expressão inventada para esta reportagem, que não aparece em nenhum lugar da literatura especializada. Mesmo assim, os 30 a 40 homens entrevistados, de 20 a 60 anos de idade, instantaneamente reconheceram o programa peculiar, mesmo que não tivessem conscientemente examinado o que pode ou não pode ser feito nesse tipo de ocasião.

Dependendo da atividade e dos dois envolvidos, uma corrente de homoerotismo pode estar presente e vai determinar seu nível de conforto ou desconforto no encontro, como descobriram Speiser e Putman, em sua timidez no museu.

Jim O'Donnell, professor de negócios e economia da Universidade Huntington em Indiana, disse que sua vida tinha sido modificada por encontros com um amigo. Ele exorta os homens a superarem seu desconforto em se socializar com outros, porque têm muito a ganhar do apoio emocional dos amigos.

(As mulheres compreendem isso instintivamente, e por isso não há equivalente feminino para o incômodo encontro entre homens; as mulheres heterossexuais há muito saem para jantar ou vão ao cinema sem o menor problema).

"Muito tempo é perdido debatendo coisas menores, como os pontos dos times nas finais", disse O'Donnell. Ele estava prestes a se divorciar nos anos 80, antes de ter uma série de conversas em jantares e caminhadas com um amigo 20 anos mais velho, que mudaram sua forma de pensar.

"Ele me fez mudar demonstrando sua vulnerabilidade" disse O'Donnell, que escreveu sobre a amizade em um livro: "Walking With Arthur" (caminhando com Arthur). "Lembro-me de quando ele me perguntou por que eu ia deixar minha esposa. Nenhum homem tinha feito isso antes."

Apesar de alguns homens explicitamente procurarem fazer programas íntimos com os amigos, outros rejeitam a idéia como sem sentido.

O ritual torna-se mais comum para muitos homens depois da faculdade, enquanto se ajustam a uma vida social mais estruturada e menos espontânea.

"Você vê a rapaziada da faculdade conversando. Mas, depois de certa idade, vão ficando escassas as oportunidades de um homem se aproximar de outro e compartilhar seus sentimentos", disse Peter Nardi, professor de sociologia da faculdade Pitzer em Claremont, Califórnia, que editou um livro chamado "Men's Friendships" (amizades de homem).

A preocupação em não ser considerado gay é uma das principais complicações dos encontros entre homens, admitem muitos heterossexuais.

Foi isso que aconteceu com Speiser, hoje aluno da pós-graduação da Universidade de Virgínia. Ele se lembra de outro encontro com um homem, que marcou em um restaurante italiano famoso em Charlottesville. Pareceu-lhe um lugar tranqüilo para encontrar-se com Thomas Kim, advogado que foi seu colega de faculdade, com quem dividiu casa. No entanto, assim que entraram, encontraram música de violoncelo, penumbra, toalhas brancas e carta de vinhos.

Os dois trocaram olhares. "Foi engraçado", disse Speiser. "Sabíamos que não ia dar." Minutos depois, estavam comendo galinha frita em um "pé-sujo" na mesma rua.

Kim, 28, que hoje é casado, ficou aturdido em parte porque viu uma pessoa que conhecia no restaurante italiano. "Fiquei preocupado que poderia haver boatos", disse ele. "Já era estranho, e ainda havia uma testemunha."

Jantar com um amigo nem sempre foi um programa tão carregado antes de as mulheres serem consideradas iguais aos homens, os homens confiavam e procuravam o conselho de outros homens, de uma forma que não faziam com as mulheres, mesmo suas esposas.

Duas coisas, porém, mudaram no último século: a maior consciência pública da homossexualidade criou um estigma em torno da intimidade masculina e as mulheres começaram a penetrar em esferas tradicionalmente masculinas, levando os homens a ficarem mais na defensiva em relação à masculinidade.

"Se os homens se aproximam demais de outros homens, sempre ficam vulneráveis a acusação de serem gays", disse Gregory Lehne, psicólogo da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, que estudou questões de sexo. Ao mesmo tempo, disse ele: "Quando você tem as mulheres buscando igualdade com os homens, surgem questões da necessidade de se manter o papel masculino."

Assim, uma simples refeição torna-se um estratagema social. Alguns homens evitam jantar junto, a não ser que o amigo venha de fora da cidade ou tenha um problema específico sobre o qual queira conversar. De outra forma, tomar umas cervejas no bar está de bom tamanho.

Outros homens dizem que não há problema em jantar, mas nunca tomar café da manhã, apesar de uma refeição pós-bebedeira ser aceitável. "A companhia naquela altura é puramente secundária", explicou Steven Carlson, 29, executivo de relações públicas em Chicago.

Quase todos os homens concordam que a cerveja e destilados são aceitáveis nos encontros masculinos, mas o vinho é arriscado. Dividir uma garrafa está fora de questão. "Se um cara quer um cálice de vinho, tudo bem. Mas há algo estranho em rachar uma garrafa de vinho com um sujeito", disse Rob Discher, 24, que se mudou de Dallas para Washington e janta regularmente com um amigo com quem divide a casa.

Outras bandeiras vermelhas de restaurantes incluem chapelaria e velas, a não ser que haja um apagão. Tudo isso é aceitável, porém, em uma churrascaria.

Para a maioria, cozinhar para um amigo viola totalmente a zona de conforto dos encontros entre homens, com uma possível exceção para um churrasco. "A coisa do churrasco tira o estigma, porque tem um tom masculino", disse Discher.

Uma regra clara é que a conta sempre deve ser dividida. Armens Myers, 28, advogado em Nova York que não tem vergonha de sair com homens, lembra-se que tentou pagar o jantar de um amigo. "Simplesmente coloquei o dinheiro na mesa e nem pensei a respeito", disse Myers. "Ele disse: 'O que você está fazendo?' E eu: 'Eu ia pagar. Qual é o problema?' Ele disse algo como: 'Homens não pagam para mim' ou 'Ninguém paga para mim'. Havia uma questão de poder."

Para assistir a um filme juntos --preferivelmente com explosões ou efeitos especiais pesados, nunca uma comédia romântica-- os homens preferem colocar um assento entre os dois. (Isso parece um episódio de "Seinfeld").

"Ir ao cinema com outro homem é estranho, mas dá para amenizar o incômodo se houver uma cadeira entre os dois", explicou Ames McArdle, analista financeiro em Washington.

Os homens que evitam sair com os amigos não entendem a sugestão de que talvez gostassem de sair com um homem. "Se você é amigo de outro cara, os encontros são naturais, sem preparativos", disse Halow, de San Francisco.

É por isso que muitos homens dizem que um encontro entre homens requer que um deles demonstre preocupação por seu amigo sem exageros. "A quantidade de preparativos que o outro está fazendo é diretamente proporcional a quanto é estranho", disse McArdle de Washington.

Quando os homens querem sair com outros que não se sentem muito à vontade com a idéia, as atividades sempre caem para o menor denominador comum. Myers de Nova York lembra-se de quando chamava seu colega de quarto Jonathan Freimann para jantar. Freimann sempre instintivamente convidava outros para acompanhá-los.

"Se eu soubesse que ele queria jantar só comigo, eu teria ido", explicou Freimann, acrescentando que jantar em grupo simplesmente parecia "mais divertido". (Os dois jantaram juntos em San Diego na semana passada.)

Jeffrey Toohig, 27, é mais tranqüilo. Ele janta com Myers regularmente e discutem mulheres, empregos e o que mais tiverem me mente, porque, como diz Toohig, "a conversa é mais profunda do que num bar". Toohig, que está procurando trabalho em uma organização que ajude países subdesenvolvidos, divide seus amigos em dois grupos: "Bons amigos, com quem saio sozinho, e caras com quem saio para beber cerveja". Ele salientou que o jantar com Myers tinha a vantagem de não deixar sua namorada com ciúmes, como acontece com os jantares com mulheres.

Todos os homens, porém, concordam que uma regra de encontros entre homens é inviolável: se uma mulher entra em cena, um cara pode abandonar os amigos no último minuto, e não se fala mais nisso.

Um encontro romântico vence qualquer programa entre amigos. Heterossexuais têm regras para encontrarem-se e evitar suspeitas Deborah Weinberg

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