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11/04/2005

Filmes de Hollywood sobre África ficam no clichê

The New York Times
Ed Leibowitz

Em Nova York
Quando estreou há cinco meses nos Estados Unidos, "Hotel Rwanda" conquistou críticas entusiasmadas, em especial pelos desempenhos de Don Cheadle e Sophie Okonedo. Chegou a receber três indicações ao Oscar e uma série de prêmios. Foi atribuída ao filme a intensa divulgação dos efeitos do genocídio de 1994, que matou cerca de 800.000 ruandeses, a maioria da etnia Tutsi.

AFP

"Hotel Rwanda", com Don Cheadle, abordou o genocídio dos anos 90
O filme nitidamente surtiu grandes efeitos em muitos que o assistiram. Menos nítido é o efeito que despertou na indústria cinematográfica.

Será que o impressionante sucesso de crítica irá inspirar ou despertar a culpa em cineastas americanos, que enfim se mobilizariam para criar narrativas sobre a África mais realistas do que já foi tentado no passado? Ou será que o modesto rendimento do filme nas bilheterias irá reforçar a lógica financeira que faz Hollywood criar clichês que envolvem o continente negro já há 70 anos?

Dos filmes de "Tarzan" de Johnny Weissmuller, nos anos 30 e 40, e de "As Minas do Rei Salomão" nos anos 50, até os recentes filmes da "Múmia" estrelados por Brendan Fraser, os filmes de aventura ambientados na África sempre tipicamente foram estrelados por heróis brancos combatendo o mal em desertos vazios ou selvas superpovoadas.

Em "Out of Africa" ("Entre Dois Amores") de Sydney Pollack ou em "White Mischief" ("Incontrolável Paixão") de Michael Radford, locais africanos forneceram cores românticas (quando não ameaçadoras) às aquecidas paixões dos deslumbrantes astros brancos.

A África também já serviu como ponto de partida para comédias bem vulgares, mas de muito sucesso, como "Um Príncipe em Nova York" e "Ace Ventura: Um Maluco na África"; em ambas, a África parece um lugar cheio de tribos doidas e rituais de desenho animado. A animação da Disney "O Rei Leão", o mais bem sucedido filme americano ambientado na África, não chegava a contar com elenco de seres humanos.

A relutância de Hollywood em dramatizar a África e toda a sua complexidade é sintomática de um problema maior.

"Os estúdios encaram a produção de filmes para o grande público necessariamente como a produção de filmes estrelados por protagonistas americanos, ou no mínimo ocidentais", diz o produtor William Horberg, cujos créditos incluem "Cold Mountain" e "O Talentoso Ripley".

"Há muito poucos filmes em que os estrangeiros são os protagonistas e estão no centro moral da ação." Dito isso, o atual projeto de Horberg é uma adaptação de "The Kite Runner", romance sobre o Afeganistão que foi um sucesso nos Estados Unidos.

Na atual primavera americana, Hollywood lança quatro filmes sobre a África. Em linhas gerais, esses filmes se conformam às convenções de praxe sobre o continente negro: dois são sobre animais, dois são aventuras.

"Duma", de Carroll Ballard, sobre um garoto estudante que decide devolver à selva seu guepardo de estimação, será lançado em circuitos menores dia 29 de abril. O filme de animação "Madagascar", que estréia nos EUA no final de maio, mostra um leão (com a voz de Ben Stiller) e uma zebra (dublada por Chris Rock) na ilha que nomeia a obra.

Já no "front" humano, o recém-lançado "Sahara" mostra Matthew McConaughey como um caçador de tesouros aquáticos que impede a propagação de uma peste mundial, derruba o criminoso ditador do Mali, descobre uma fortuna em ouro e rola pelas areias de uma praia paradisíaca nos braços de uma cientista vivida por Penelope Cruz.

E em "A Intérprete", que estréia dia 22 de abril nos EUA [e em breve no Brasil], Nicole Kidman vive uma tradutora-intérprete da ONU cuja vida é colocada em risco quando ela escuta por alto o que o poderia ser uma ameaça de morte contra o governante do país africano onde a personagem nasceu.

Essas descrições soam depressivamente familiares a Terry George, diretor de "Hotel Rwanda". "É o mesmo negócio de sempre", diz o diretor.

"Protagonistas brancos, animais fofos, cenários do continente Negro e nada realmente incisivo sobre a política da região. Já disse isso: não se consegue fazer (em Hollywood) um filme sobre a África que não envolva animais ou gente branca tentando fugir."

("Hotel Rwanda" foi feito com financiamento britânico, italiano e sul-africano; somente após esse dinheiro ter sido investido na produção foi que a MGM, distribuidora do filme nos Estados Unidos, contribuiu com cerca de US$ 3 milhões.)

E a produção de Hollywood pós-"Hotel Rwanda" pode não se aproximar nem um pouco do realismo, mas pelo menos sugere um esforço, embriônico é certo, para apresentar a África com um mínimo de respeito e sensibilidade.

"Sahara", por exemplo, certamente se envolve em clichês desgastados pelo tempo, sobre aventureiros brancos na África. Mas seu diretor, Breck Eisner, diz que foi cuidadoso em não se render totalmente a eles. O filme tem um final diferente do romance "Sahara" de Clive Cussler, no qual se baseou --os heróis não são libertados por soldados da ONU comandados por americanos, mas sim por guerrilheiros Tuareg. Eisner diz que não quis "que os americanos chegassem e fossem os grandes libertadores do pedaço".

Pollack, diretor de "A Intérprete", diz que os americanos estão cada vez mais conscientes dos problemas da África: líderes corruptos, crianças-soldados, cidadãos "desaparecidos". Essa consciência, segundo ele, que alavancou interesse para esse filme, mal existia em 1975, quando "Os Três Dias do Condor", outro suspense sobre conspirações, foi lançado, ou em 1985, quando "Out of Africa" estreou.

"Talvez essa instabilidade tenha sempre existido em países emergentes da África", diz Pollack. "Mas do jeito que as notícias correm instantaneamente, e no planeta inteiro, 24 horas por dia, as pessoas estão terrivelmente conscientes do que acontece."

Se for assim mesmo, fãs de cinema que levarem suas crianças para ver "Madagascar" ficarão coçando as cabeças. Como em "O Rei Leão", o filme não tem personagens humanos, embora a real ilha de Madagascar tenha 17,5 milhões de habitantes.

"Não quisemos retratar necessariamente um lugar de verdade", diz Eric Darnell, diretor do filme. "E Madagascar desperta essas fantasias, assim como Shangri-La ou Bali Hai."

Nessa temporada de primavera nos EUA, a única tentativa de se aproximar da África sem o recurso da fantasia veio com o filme do veterano John Boorman estreado em março, "In My Country", drama ambientado na África do Sul pós-apartheid, que acontece durante as audiências da Comissão da Verdade e da Reconciliação.

Com duas estrelas internacionais --Samuel L. Jackson e Juliette Binoche-- envolvidas no projeto, e várias indicações ao Oscar em seu currículo, Boorman tentou vender seu roteiro por toda Hollywood. Nem os maiores estúdios nem os independentes toparam contribuir com o filme, que Boorman acabou fazendo com US$ 7 mihões que conseguiu levantar na Europa.

"Todos ouviram e ficaram animados enquanto nós lhes contávamos sobre o projeto", diz Boorman. "Todos eles disseram que o admiravam, mas daí, um ou dois dias depois, diziam que era um projeto maravilhoso, mas que não bancariam". Boorman diz que lhe falaram "que os americanos simplesmente não estão interessados na África".

Se ele viesse a apresentar "In My Country" na Hollywood pós-"Rwanda", acredita que não se sairia melhor: "Eles provavelmente lembrariam que `Hotel Rwanda' não faturou muito. E `In My Country' também não faturou muito. Então eles provavelmente diriam que estavam certos."

Mas Edward Zwick, que dirigiu "O Último Samurai", bem-sucedido épico sobre o Japão no século 19, agora está com as atenções voltadas para a África. "Blood Diamond" ("Diamante Sangrento"), cuja produção começará no próximo outono americano, é ambientado em plena revolução em Serra Leoa no final dos anos 90.

No centro da trama está um fazendeiro africano que oscila numa guerra entre um traficante de diamantes americano e o cartel corrupto que controla a indústria de mineração em Serra Leoa.

Zwick diz que teve a intenção de dramatizar "as circunstâncias sociais e políticas, além das várias forças que estavam literalmente estilhaçando o país". Se ele for bem sucedido, e o filme vender ingressos, ele merecerá crédito por finalmente dar a Hollywood uma razão para fazer mais filmes realistas sobre a África --a razão do lucro. Apesar de "Hotel Rwanda", o cinema ignora realidade do continente Marcelo Godoy

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