UOL Notícias Internacional
 

13/04/2005

Déficit da balança comercial dos EUA chega aos US$ 61 bi em fevereiro

The New York Times
Eduardo Porter
O déficit da balança comercial dos Estados Unidos cresceu em fevereiro pelo terceiro mês seguido, chegando a um recorde de US$ 61 bilhões, já que o aumento do preço do petróleo e o apetite descontrolado dos norte-americanos por produtos estrangeiros fizeram com que as importações alcançassem níveis sem precedentes.

O Departamento do Comércio anunciou na terça-feira (12/04) que em fevereiro as importações chegaram a US$ 161,5 bilhões, o que representa US$ 2,6 bilhões a mais do que em janeiro. Enquanto isso, as exportações permaneceram praticamente estáveis no patamar de US$ 100,5 bilhões. Ao todo, a nação registrou um déficit total de US$ 64,7 bilhões, ligeiramente amenizado por um superávit de US$ 3,7 bilhões no setor de serviços.

"Trata-se de um déficit da balança comercial extraordinário e sem precedentes", afirma Ernest H. Preeg, do Manufacturers Alliance/MAPI, um grupo de pesquisas de políticas econômicas de Arlington, Virgínia. "Isso reflete um grande desequilíbrio na economia global".

O aumento dos preços do petróleo foi um grande componente dessa história. O petróleo e os seus derivados responderam por dois terços do aumento mensal das importações. Mas as importações de produtos não petrolíferos aumentaram 0,6%, atingindo um recorde de US$ 117,4 bilhões. "Não é apenas o petróleo", alerta Richard D. Rippe, economista do Prudential Equity Group. "O fenômeno foi registrado com relação a muitos produtos".

Os investidores nos mercados financeiros não se mostraram muito impressionados com a magnitude do déficit da balança comercial, já que esperam que o Federal Reserve continue elevando as taxas de juros a fim de controlar a inflação.

Mas os economistas reconhecem que o déficit acima do esperado nas contas externas da nação prejudicará bastante o crescimento econômico no primeiro trimestre, já que os produtores estrangeiros capturarão uma fração maior da demanda norte-americana. "A demanda precisa crescer mais rapidamente do que o rendimento para que o peso das importações seja superado", opina Charles Dumas, economista do Lombard Street Research, em Londres.

David Greenlaw e Ted Wieseman, economistas do Morgan Stanley, diminuíram em 0,7% a sua estimativa de crescimento econômico para o primeiro trimestre do ano, reduzindo-a de 4,1% para 3,4%.

O déficit da balança comercial está crescendo a despeito de uma prolongada desvalorização do dólar em relação a outras moedas fortes como o euro, o iene e o dólar canadense, o que, em tese, aumenta a competitividade dos produtores norte-americanos nos mercados estrangeiros. Mas as exportações em fevereiro foram apenas 8,7% maiores do que no mesmo período de 2004, enquanto as importações cresceram 17%.

Alguns economistas argumentam que é normal haver um longo descompasso entre uma desvalorização cambial e ajustes na balança comercial.

Mas outros apontam para o fato de que o governo chinês não permitiu que o dólar se desvalorizasse em relação ao yuan, e afirmam que a China - que sozinha responde por mais de um quarto do déficit total da balança comercial norte-americana - cavou o buraco cada vez mais profundo do déficit dos Estados Unidos.

"A China e alguns outros países asiáticos continuam mantendo o dólar artificialmente alto de forma que possam deixar as suas exportações para os Estados Unidos em patamares bem mais elevados do que estariam se não existissem tais manipulações contrárias às regras do mercado", critica Frank Vargo, vice-presidente de assuntos econômicos internacionais da Associação Nacional de Fabricantes.

Na verdade, o déficit dos Estados Unidos com a China no comércio de produtos diminuiu um pouco, tendo passado de US$ 15,3 bilhões em janeiro para US$ 13,9 bilhões em fevereiro, sem que fosse aplicado o reajuste sazonal. Já o déficit com os países da área do euro subiu 6,6%, chegando a US$ 6,5 bilhões, e o déficit com o Japão aumentou quase 11%, ficando em US$ 6,9 bilhões.

O déficit norte-americano com a China foi amenizado pelas festividades do ano novo chinês, em meados de fevereiro, que prejudicaram a produção industrial. Em uma tendência de longo prazo, o déficit superou em US$ 5,5 bilhões aquele registrado em fevereiro do ano passado, e a China está conquistando rapidamente fatias de mercado.

Por exemplo, Bob Piazza, presidente da Price Pump Company, em Sonoma, Califórnia, diz que a companhia compra cerca de 75% das suas peças no exterior, o que representa um aumento de 10% em relação a sete anos atrás. Enquanto as exportações da Price Pump, especialmente para a Europa, dobraram nos últimos 18 meses, as importações, especialmente da China e da Índia, triplicaram.

Preeg argumenta que o yuan desvalorizado e o seu efeito dominó - que mantém as moedas do leste da Ásia desvalorizadas - foram responsáveis por cerca de um quarto do déficit da balança comercial norte-americana.

Porém, outros economistas alegam que o persistente déficit comercial dos Estados Unidos pouco tem a ver com a China, e mais com o consumo norte-americano, que vem sendo financiado por estrangeiros que investem seu dinheiro nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e em outros bens norte-americanos.

Kenneth S. Rogoff, professor de economia em Harvard, observa que o déficit de conta corrente dos Estados Unidos - especialmente o déficit comercial, mas também outros fluxos financeiros de curto prazo, como o pagamento de juros - equivale a 70% ou 80% dos superávits de contas correntes de todos os outros países juntos. "Os asiáticos não são culpados pela falta de poupança nos Estados Unidos", afirma Rogoff.

Ele acrescenta que as exportações chinesas para os Estados Unidos contêm tipicamente apenas 20% de componentes e produtos feitos na China. Assim, se a China e os seus vizinhos valorizassem as suas moedas em, digamos, 30%, os preços na Wal-Mart poderiam subir 5%, mas o déficit da balança comercial norte-americana pouco seria alterado.

Apesar disso, a crescente frustração com o desempenho comercial do país poderia fazer com que os elaboradores de políticas econômicas se sentissem tentados a criar barreiras comerciais contra a locomotiva das exportações asiáticas. No início de abril, o Departamento de Comércio disse que avaliaria a necessidade de voltar a impor cotas comerciais, que foram suspensas há apenas três meses, no que se refere a uma ampla gama de produtos chineses.

Reclamações quanto à concorrência chinesa também podem ser ouvidas na Europa, onde as companhias amargaram prejuízos quando a desvalorização do dólar prejudicou a sua competitividade em relação aos concorrentes norte-americanos e enfraqueceu a sua posição no leste da Ásia, onde a maior parte das moedas acompanhou a queda do dólar.

À medida que a China for conquistando fatias do mercado por todo o mundo industrial, a frustração poderá se aprofundar. "Em algum momento haverá uma retaliação comercial", afirma Rogoff. "A paciência está se esgotando tanto na Europa quanto nos Estados Unidos".

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host