UOL Notícias Internacional
 

13/04/2005

Febre de Marburg já atingiu mais de 200 pessoas no interior de Angola

The New York Times
Sharon LaFraniere e Denise Grady

Em Uige, Angola
A equipe na unidade pediátrica do hospital regional de Uige já suspeitava que havia algo de terrivelmente errado em outubro, quando crianças que foram internadas com doenças aparentemente tratáveis, começaram a morrer de forma súbita.

Mas será que aquelas mortes iniciais foram provocadas pelo vírus da febre de Marburg? Caso o responsável tenha sido este vírus, e se o problema tivesse sido diagnosticado a tempo, a atual epidemia poderia ter sido evitada?

Os especialistas internacionais em saúde que se dirigiram para Angola dizem não ser capazes de precisar quando teve origem o maior surto do vírus mortífero.

"Ninguém sabe ao certo onde e quando isso começou", explica Thomas Grein, médico e funcionário da Organização Mundial de Saúde (OMS). "A crença generalizada de que a epidemia começou em outubro não passa de especulação".

Mas autoridades locais em Uige, o centro da epidemia, acreditam que o problema começou naquela época, e que a seguir se disseminou a partir da unidade pediátrica do hospital regional, que agora foi efetivamente fechado, exceto para operações de emergência.

Se eles estiverem corretos e se houve demora para a explicação das mortes, o motivo pode ser que na África às vezes o extraordinário está inserido no comum.

Aqui as crianças morrem em um ritmo tão surpreendente e por qualquer série de razões horríveis, desconhecidas em outras partes do mundo, que leva muito mais tempo até que os profissionais de saúde cheguem à conclusão de que algo tão letal quanto a febre hemorrágica de Marburg esteja em ação.

Em um país como Angola, onde uma em cada quatro crianças morre antes de completar cinco anos de idade, na maioria das vezes devido a doenças infecciosas, crises como a ocorrida na unidade pediátrica podem passar facilmente desapercebidas. Um surto de febre de Marburg pode ser confundido com várias outras doenças por médicos e enfermeiros que jamais conheceram essa enfermidade.

"Isto é a África", diz Dave Daigle, porta-voz local da OMS. "Atual como profissional de saúde aqui é algo como ser um bombeiro em uma cidade que está inteiramente em chamas".

Os especialistas dizem que pelo menos 214 pessoas contraíram o vírus e que 194 delas morreram. A febre de Marburg é transmitida pelo contato com fluidos corporais, como o sangue e o suor, e mata com uma eficiência horrível. As vítimas padecem de vômito, diarréia, febre alta e de sangramento pelos orifícios do corpo. Nove entre cada 10 doentes morrem dentro de uma semana. E não existe tratamento efetivo para a doença.

Quando mortes estranhas surgiram pela primeira vez em outubro, funcionários perplexos da área de saúde enviaram amostras de tecidos e de sangue de quatro crianças aos Estados Unidos. Em novembro o Centro de Controle e Prevenção de Doenças testou essas amostras para pelo menos três tipos diferentes de febres hemorrágicas, incluindo a de Marburg.

Os resultados, que quase todos afirmam serem precisos, foram negativos. Mas em meio à confusão gerada pela incidência de doenças fatais e outras questões de saúde que afligem este continente, é possível que o vírus da febre Marburg já estivesse presente em Uige.

No final de dezembro, pelo menos 95 crianças haviam morrido, dizem os funcionários locais do setor de saúde. Não se sabe quantas das mortes foram causadas pelo vírus da Marburg, mas até mesmo segundo os terríveis padrões de saúde do continente, o número de óbitos foi alarmante.

"Em outubro, novembro e dezembro, vimos muitas crianças morrendo - apenas crianças", relembra Gakoula Kissantou, 31, diretor do hospital. "A coisa estava ficando assustadora".

Ele recorda que Maria Bonino, da Itália, a médica que à época era a encarregada da unidade pediátrica, fez uma reunião com toda a equipe e perguntou: "O que está ocorrendo aqui no hospital?". Ela própria morreu em março, vítima do vírus.

Foi só no início de março que autoridades de saúde da província alertaram um representante da OMS, afirmando ter encontrado 39 casos suspeitos de febre de Marburg. Os representantes da OMS identificaram 60 possíveis casos. A seguir autoridades angolanas enviaram mais amostras ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta. Em 18 de março, nove das 12 amostras tiveram resultado positivo para a febre hemorrágica de Marburg, que já estava fazendo um grande número diário de vítimas.

Desde que aqueles exames laboratoriais confirmaram a presença do vírus, um número cada vez maior de epidemiologistas, antropólogos, especialistas em saúde pública e profissionais especializados em emergências médicas se dirigiram a Uige em uma corrida para neutralizar a doença.

Segundo os cientistas, uma coisa é certa: a epidemia teve início com apenas uma pessoa infectada, e depois foi transmitida de indivíduo a indivíduo.

Essa conclusão, baseada na descoberta de apenas uma variedade do vírus em todas as amostras analisadas, significa que a epidemia pode ser contida se as pessoas infectadas forem submetidas a isolamento.

Devido ao seu grau de contaminação, as operações do hospital regional, que atende a 500 mil pacientes, se limitam agora aos casos de cirurgias de emergência e à manutenção de uma unidade de isolamento onde a Médicos sem Fronteiras, a instituição internacional de auxílio médico humanitário, trata as vítimas da febre de Marburg.

Oito enfermeiras e a médica encarregada da unidade pediátrica estão mortas, assim como seis outras enfermeiras e um outro médico, todos vítimas da febre de Marburg. Todos os colchões, lençóis e uniformes hospitalares foram descartados. Tudo que restou precisa ser desinfetado.

Na segunda-feira passada, uma equipe de soldados e funcionários do hospital vestidos com uma roupa de proteção amarela brilhante esteve no local, pulverizando a grama, os bancos e o solo com uma solução de cloro diluído. Depois disso, queimaram as roupas utilizadas.

Segundo Kissantou, o atual diretor do hospital, em algum momento as operações normais serão retomadas. Ele se recusou a prever quando isso acontecerá.

"Estou perturbado com o fato de não estarmos atendendo pacientes", afirmou. "Sem poder ingressar no hospital, alguns dos doentes estão diagnosticando a própria doença e tentando curar-se com remédios que compram no mercado local, com resultados desastrosos".

"Algumas pessoas estão morrendo porque os remédios não são adequados para combater a doença", disse ele. "É por isso que estamos pedindo ajuda, de forma que os doentes possam vir para cá e receber tratamento".

Mas para tratarem novamente dos pacientes com segurança, os funcionários do hospital precisam resolver uma série de problemas. Eles têm que encontrar formas de isolar sistematicamente pacientes de alto risco antes que estes se misturem aos outros doentes. Precisam fornecer às equipes médicas máscaras, luvas e outros equipamentos de proteção. E é necessário ainda que obriguem as pessoas a adotar medidas sanitárias, como a lavagem apropriada das mãos, ainda que no momento não haja água corrente.

Kissantou, um dos dois únicos médicos angolanos no hospital, diz que tudo isso pode ser feito, contanto que haja dinheiro suficiente. Segundo ele, o governador da província prometeu US$ 1 milhão de dólares, porém mais ajuda é necessária.

Mas o maior desafio para todos pode ser reconquistar a confiança da comunidade após tantas mortes. Esse é um dos motivos pelos quais Kissantou, que assumiu a direção do hospital após a demissão do seu antecessor, ainda vem trabalhar todos os dias.

"Sou um médico", explica. "Não fugirei, porque prefiro dar a minha vida a uma outra pessoa". Danilo Fonseca

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