UOL Notícias Internacional
 

13/04/2005

Vinhos da Califórnia provocam grande debate

The New York Times
Eric Asimov
Não faz muito tempo, quando os americanos procuravam comprar carros compactos e calculavam seu consumo, a maior parte dos vinhos californianos apresentava teor alcoólico econômico de 12 a 13%. Talvez fosse um tom acima de seus colegas europeus, mas a Califórnia é abençoada com um sol generoso que torna o amadurecimento das uvas mais fácil do que em climas mais frios, como Bordeaux e Burgundy.

Vinte e cinco anos mais tarde, o vinho de 12% da Califórnia parece tão raro quanto um chevete econômico. Hoje, é difícil encontrar uma garrafa de tinto ou branco da Califórnia com menos de 14% de álcool, e muitos chegam a 15 ou até 16%. A diferença parece insignificante, até que se compreenda que uma garrafa de 15% contém 25% a mais de álcool do que uma de 12%.

Os consumidores não parecem dar muita atenção aos dados no rótulo que indicam o conteúdo aproximado de álcool. Apesar desses vinhos extremos não esconderem seus níveis de álcool, poucos os alardeiam.

De fato, muitos desses vinhos vêm de alguns produtores aclamados, que cobram de US$ 25 a US$ 100 (entre R$ 62,50 e R$ 250) por garrafa. É claro que os consumidores que tiverem a intenção de se embebedar podem encontrar soluções mais baratas, como um Bourbon com 40% de álcool.

Mas entre os produtores da Califórnia e os que acompanham o setor a bebida provocou fortes debates.

Oponentes chamam o fenômeno de vinhos com esteróides e insistem que as qualidades de elegância e sutileza e a habilidade de evoluir com graça com a idade, tão apreciadas em vinhos tradicionais, foram completamente perdidas. O lugar do vinho na mesa de jantar também está correndo perigo, dizem. Esses vinhos superam o sabor do alimento em vez de melhorá-lo, argumentam. O alto teor alcoólico pode criar uma sensação de doçura que pode se chocar com a comida. E há o fator da dor de cabeça, sem mencionar o volante.

"Você aumenta o álcool em apenas poucos pontos percentuais e muda a experiência da pessoa. Aquele velho conceito de que um casal dividir uma garrafa de vinho no jantar não é mais verdade", disse Andrew Murray, produtor de vinho no condado de Santa Bárbara, que diz que tentou restringir o conteúdo alcoólico em seus vinhos.

Os defensores dizem que o nível de álcool é irrelevante, desde que os vinhos estejam equilibrados e tenham gosto bom. Eles reclamam que os críticos estão usando padrões do Velho Mundo para julgá-los. Esses produtores afirmam que eles estão criando uma identidade para a Califórnia, permitindo que os vinhos reflitam as características de solo e clima onde são produzidos. Eles alegam que o alto teor de álcool não é uma falha, desde que outros fatores, como a acidez e o tanino, que dá sua estrutura, façam sua parte.

"Não estamos tentando ser Burgundy, estamos tentando ser um pinot da Califórnia", disse Greg Brewer que, junto com seu parceiro, Steve Clifton, produz Pinot Noir e Chardonnay em Santa Rita Hills, no oeste do condado de Santa Barbara. "Estamos apenas interessados nas duas uvas que crescem melhor na região." Os vinhos de Brewer-Clifton têm mais de 15% álcool. Eles são intensos mas, diferentemente de muitos outros vinhos de alto teor alcoólico, podem ser equilibrados e elegantes.

"É apenas um número", disse Brewer, negando o foco no teor de álcool.

Mesmo nos restaurantes, há certa discordância sobre o teor de álcool. Serafin Alvarado, sommelier do Charlie Trotter, em Chicago, concorda com Brewer que o nível de álcool não é uma questão. "Desde que sejam equilibrados, (esses vinhos) podem ser apreciados na mesa", disse ele.

Mas Yoshi Takemura, sommelier do Veritas do distrito de Flatiron, em Nova York, diz que quando seus clientes se preocupam em combinar a comida com vinho, ele os afasta desses grandes vinhos. "Há definitivamente um mercado para eles, mas tende a ser de pessoas apenas interessadas no vinho", disse ele.

No Adega Restaurant and Wine Bar, em Denver, onde os vinhos de maior teor alcoólico são populares, a percentagem de álcool quase nunca é uma questão, disse Aaron Foster, diretor do setor de vinhos. "Sua popularidade deve-se ao reconhecimento do nome", disse ele. "Até certo ponto, a maior parte das pessoas assume que os vinhos são iguais, e busca sabor."

Os níveis altos de álcool não são completamente novos na Califórnia. Os Zinfandels têm uma longa história, ultrapassando 15 e 16%. O que é diferente é que agora são vinhos de uvas não conhecidas por produzir altos níveis de álcool. A Heavyweight 2003, uma mistura de Cabernet Sauvignon, Merlot e duas outras uvas de Behrens & Hitchcock, no Napa Valley, chega a 15,6%. Um Roussanne de 2001 da Sine Qua Non tem 15,5%. O Hard Core 2002, um vinho tinto misturado do oeste do condado de Santa Barbara, atingiu 15,7%. Os Syrahs da Pax Wine Cellars, no norte da Califórnia, regularmente se aproximam de 16%, enquanto o Bulladoir, um Syrah 2002 de Garretson Wine Co. em Paso Robles, chegou a quase 17%. Todos esses vinhos tiveram notas de 90 pontos ou mais de Robert M. Parker Jr., crítico de vinho influente.

"Antigamente, algo acima de 14% já estava lá no alto", disse Bob Lindquist de Qupe Wine Cellars, que produz vinhos no condado de Santa Barbara desde 1970. "Hoje 15 é o novo 14".

Em torno do mundo, poucos vinhos, como o Amarone no nordeste da Itália, normalmente têm mais de 15%. A Austrália teve vários vinhos de alto teor alcoólico, e na França, em anos quentes como 2003, alguns produtores têm níveis altos de álcool. Mas nenhum outro lugar consegue se equiparar à concentração extrema dos vinhos da Califórnia.

A questão do nível de álcool chegou ao Estado em torno de 1990. Antes, os produtores julgavam o amadurecimento de suas uvas simplesmente avaliando seu conteúdo de açúcar. As uvas eram colhidas quando atingiam certo ponto da escala Brix, que mede o teor de açúcar. Nos últimos 15 anos, porém, a expressão da moda tem sido maturidade fisiológica, que leva em conta a maturidade de outras partes da uva, como a semente e a casca. Uma uva madura fisiologicamente, na qual as sementes passaram de verde para marrom, dá taninos mais suaves, mais sutis com menos adstringência, deixando os vinhos mais fáceis de beber mais cedo, antes do envelhecimento.

Quando as sementes e as cascas amadurecem, as uvas tornam-se cada vez mais doces. Os produtores que usam a maturidade fisiológica padrão estão pegando uvas em um nível de açúcar muito mais alto do que antes.

Isso é apenas parte da questão. Muitos produtores dizem que avanços científicos na viticultura intensificaram a produção, criando plantas capazes de gerar açúcar de forma muito mais eficiente do que duas décadas atrás. Os cientistas reduziram fortemente os vírus que afetavam as folhas e tornavam-nas vermelhas brilhantes durante o crescimento. Agora as folhas estão verdes e absorvem muito mais luz do que antes. Atualmente, os produtores podem selecionar suas plantas, fazer enxertos em clones e assim montar a seu gosto suas fábricas vegetais produtoras de uvas.

"Como nós fazemos seleção dos brotos e eliminamos o vírus, a fotossíntese está trabalhando com maior eficiência. Assim as uvas têm níveis muito mais altos de açúcar antes da casca e da semente amadurarem", disse R. Michael Mondavi, ex-executivo de Robert Mondavi Corp. que hoje é consultor.

Para lidar com o suco de uva super doce, os cientistas desenvolveram variedades vorazes de levedura, muito mais eficientes em transformar o açúcar em álcool do que as antigas.

"Essas são tipo Schwarzenegger. Elas fermentam até um prédio, se tiverem a chance", disse Bruno D'Alfonso, produtor da Sanford Winery em Santa Rita Hills.

Mondavi não defende os vinhos de maior teor alcoólico.

"Para mim o vinho é uma bebida para ser apreciada com a refeição", disse ele. "Esses vinhos me lembram do que meu avô costumava fazer com um vinho pesado. Ele acrescentava água, depois bebia com a refeição."

De fato, o avô de Mondavi usava uma técnica similar ao que alguns produtores fazem para evitar vinhos com álcool demais. Acrescentam água ao suco da uva antes da fermentação, resultando em menos álcool por volume.

"Pego maduras e diluo", disse D'Alfonso, dizendo claramente o que muitos produtores não admitem. "Procuro 14,2 a 14,5%. Mas tive vinhos acima de 14,8 e eram equilibrados."

Outros produtores empregam métodos mais avançados, como a osmose reversa, que pode remover o álcool do vinho depois de pronto. "Colho a 16%, centrifugo para 12, misturo para 15", disse Jim Clendenen, proprietário do Au Bom Climat Winery no condado de Santa Barbara.

Clendenen continua a fazer vinhos a 14%, ocasionalmente abaixo de 13, assim como Randy Dunn, proprietário da Dunn Vinyeards no Napa Valley, que faz um poderoso Cabernet Sauvignon de boa duração. Sua safra de 2001 estava abaixo de 13,8% e ele tenta manter seus vinhos nessa faixa, mesmo que tenha que recorrer a técnicas como a osmose reversa.

Números como 13,8%, aliás, não são tão precisos quanto parecem. Um vinho abaixo de 14%, de acordo com os regulamentos federais, pode ter uma margem de erro de mais ou menos 1,5%. Acima de 14%, a margem de erro é reduzida para 1%. E por razões mais arcanas do que científicas, o governo federal taxa mais os vinhos acima de 14% (US$ 1,57 por galão, ou cerca de R$ 1,03 por litro) do que os de 14% ou menos (US$ 1,07 por galão, ou R$ 0,70 por litro). Os produtores não parecem se importar.

"Não importam os números, se você está colhendo a fruta madura", disse Mat Garretson da Garretson Wine Co., cujos vinhos em geral têm de 15 a 17% de álcool. Ele admite que são um pouco pesados para um jantar.

"Beber mais do que dois ou três desses com uma refeição é assustador", disse Garretson. "Sei que isso apresenta um problema para algumas pessoas, mas estou tentando fazer os melhores vinhos possíveis na região. Há muito mais problemas para quem colhe cedo ou tarde demais." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host