UOL Notícias Internacional
 

14/04/2005

Japão anuncia exploração de mar reivindicado pela China e aumenta a tensão

The New York Times
James Brooke*

Em Tóquio
O Japão anunciou nesta quarta-feira (13/04) que autorizará a exploração de gás e petróleo em águas também reivindicadas pela China, uma medida que provavelmente aumentará a tensão diplomática e econômica já elevada após uma série de protestos anti-Japão em cidades chinesas.

O Japão anunciará em meados de julho o resultado de uma licitação entre companhias de petróleo para perfuração exploratória em um área há muito tempo disputada, de 36 mil quilômetros quadrados do Mar do Leste da China, segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão.

Apesar de o ministério ter descrito as águas como "a parte ocidental da fronteira entre Japão e China", a China não aceita tal fronteira. Há duas semanas o Japão acusou a China de preparar a extração de gás neste verão de reservatórios submarinos que se estendem até a zona econômica exclusiva do Japão.

Na quarta-feira, as autoridades japonesas, incluindo o primeiro-ministro Junichiro Koizumi, destacaram para os repórteres que o novo anúncio para exploração de petróleo e gás na área não é uma reação aos recentes protestos anti-Japão.

"Foi uma infelicidade a decisão ter coincidido com os incidentes que ocorreram repentinamente", disse Shoichi Nakagawa, o ministro do Comércio.

Duas empresas japonesas de energia, a Teikoku Oil e Japan Petroleum Exploration expressaram interesse em explorar trechos da área de 36 mil quilômetros quadrados que está aberta à licitação. Diante das reivindicações nacionais, Pequim já concedeu às empresas chinesas de gás e petróleo os direitos de exploração de 12 blocos que violam a área do Japão, noticiou o "Yomiuri", o principal jornal conservador japonês.

A ação do Japão é "uma provocação séria aos direitos da China e normas internacionais", disse Qin Gang, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, segundo uma declaração no site do ministério na quarta-feira.

Na terça-feira, Tang Jiaxuan, um conselheiro de Estado chinês, disse para a agência de notícias "Kyodo" do Japão que a exploração japonesa complicará ainda mais e intensificará a situação no Mar do Leste da China, mudando fundamentalmente a natureza desta questão.

Talvez no pior antagonismo desde que as relações foram estabelecidas em 1972, recentes manifestações populares em massa em várias cidades chinesas, protestando contra o não reconhecimento por parte do Japão de suas atrocidades contra a China na Segunda Guerra Mundial, se tornaram violentas, com algumas empresas japonesas sendo vandalizadas.

Um boicote e mais manifestações estão sendo planejadas, e o anúncio de petróleo e gás do Japão sem dúvida inflamará ainda mais as tensões, disseram analistas em entrevistas.

"Se a exploração começar de fato, nós não podemos excluir totalmente a possibilidade de navios particulares chineses enfrentarem navios militares chineses", disse Junichi Abe, um membro pesquisador de relações Japão-China da Fundação Kazankai, uma organização de pesquisa centrista de Tóquio que dirige uma escola de língua chinesa.

Referindo-se aos protestos de rua, ele disse: "Se os ataques contra empresas japonesas e cidadãos japoneses aumentarem, isto poderá fazer algumas empresas japonesas abandonarem a China".

Um site chinês na Internet, Japanpig.com, está convocando manifestações neste fim de semana em seis cidades, incluindo Pequim. Mais protestos estão previstos para maio e um boicote de um mês a produtos japoneses deverá começar em 1º de maio.

Ainda assim, a China e o Japão estão interligados econômica e financeiramente e cada vez mais dependentes um do outro para futuro crescimento econômico, disseram especialistas.

Por anos a China tem importado quantidades imensas de maquinário, tecnologia e equipamento do Japão, importações que estão ajudando a alimentar o boom econômico da China. No ano passado, a China superou os Estados Unidos como parceiro comercial mais importante do Japão e destino para investimento japonês.

E a própria economia em dificuldade do Japão está sendo mantida à tona em parte pelo aumento das exportações para a China.

"O desenvolvimento econômico da China é altamente dependente do comércio internacional", disse Yang Dongliang, um professor do Instituto de Estudos do Japão na Universidade de Nankai, em Tianjin. "Assim, a menos que em um dia no futuro a economia da China seja forte o suficiente para não depender do comércio exterior com outros países, a China não deverá adotar medidas como o boicote de produtos importados."

As manifestações e boicotes, ele disse, poderão arranhar a imagem da China na comunidade internacional e minar os esforços do país para se tornar uma superpotência plena.

Do outro lado das águas disputadas, em território rival, Osamu Watanabe, presidente da Organização de Comércio Exterior do Japão, uma agência governamental, previu em uma entrevista em Tóquio na quarta-feira: "Não haverá maiores impactos por causa da situação".

"Mas", ele disse, "há um certo impacto psicológico indelével".

Apesar de não se saber ao certo quais serão os impactos de longo prazo, a curto prazo o setor mais duramente atingido na China poderá ser o turismo, que se beneficia de três milhões de turistas japoneses por ano. Em comparação, a China enviou no ano passado apenas 189.692 turistas ao Japão, 5% do total de visitantes estrangeiros neste país.

Também é possível que o crescimento nas vendas de carros e aparelhos eletrônicos japoneses na China sofra desaceleração e que o Japão tenha dificuldade para vencer licitações em grandes projetos de infra-estrutura.

Com as paixões tão exaltadas na China --os noticiários na TV japonesa, por exemplo, se concentraram longamente em uma faixa de protesto chinesa, "Matem todos os porcos japoneses"-- espera-se uma queda nas viagens de japoneses para a China, particularmente durante o feriado da "Semana Dourada" do Japão, de 29 de abril a 5 de maio.

"Nós estamos aconselhando as pessoas a não irem para áreas onde as embaixadas e consulados estão localizados", disse Akiko Mitsuhashi, uma porta-voz da Japan Travel Bureau, a maior agência de turismo do país. O índice de cancelamento de excursões para a China já está em 3%.

As empresas japonesas estão dando conselhos semelhantes. Honda Motor, Toshiba e Matsushita Electric Industrial pediram aos seus funcionários que façam apenas viagens essenciais à China.

No ano passado, o comércio do Japão com a China, excluindo Hong Kong, saltou 27%, atingindo US$ 168 bilhões. Neste ano, ele poderá crescer pelo menos 13%, ultrapassando US$ 190 bilhões, previu em fevereiro uma associação de comércio japonesa. Se o comércio com Hong Kong for acrescentado, ambos os países desfrutariam de um comércio bilateral mais ou menos equilibrado.

Citando o enfraquecimento das exportações, o Fundo Monetário Internacional reduziu na quarta-feira sua previsão de crescimento do Japão em 2005 para 0,8%, uma queda em comparação a 2,6% há seis meses. Na quarta-feira, os índices de ações no Japão caíram para o patamar mais baixo em duas semanas, em parte devido ao fraco mercado para ações ligadas à China.

A Associação de Franquias e Redes da China, um grupo responsável por cerca de 10% das vendas de varejo na China, já disse aos seus membros para removerem produtos de origem japonesa de suas prateleiras.

Nos dois últimos fins de semana, a Aeon Co., a maior rede de supermercados do Japão, fechou duas vezes sua loja em Shenzhen por medo de vandalismo por parte dos manifestantes. Na terça-feira, Toshifumi Suzuki, presidente da Ito-Yokado Co., uma empresa de varejo do Japão, cancelou uma viagem à China para inauguração de uma loja em Pequim.

No ano passado, pela primeira vez, a China atraiu mais dinheiro estrangeiro de investimento direto do Japão do que da América do Norte. Os US$ 2,7 bilhões que o Japão investiu na China representaram quase 15% do investimento do Japão no exterior, em comparação a 1% cinco anos atrás.

Com 16 mil empresas japonesas realizando negócios na China, as grandes corporações chinesas estão tentando reduzir seu perfil lá, expressando preocupação com a antipatia ao mesmo tempo em que insistem que foram para lá para ficar.

A batalha também atingiu o palco global. Após a China ter deixado claro que bloquearia as pretensões do Japão de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o Japão formou uma coalizão que bloqueou com sucesso o pedido da China para se juntar ao Banco Interamericano de Desenvolvimento até pelo menos 2008.

Os analistas estão depositando suas esperanças para uma tranqüilização das relações em uma visita à China, no domingo, de Nobutaka Machimura, o ministro das Relações Exteriores do Japão. Uma segunda chance poderá ocorrer em 22 de abril, quando Koizumi e Wen Jiabao, o primeiro-ministro da China, viajarem para Bandung, Indonésia, para um encontro de cúpula asiático e africano.

Peter Morici, um professor de comércio da Universidade de Maryland e um especialista em comércio internacional, disse que o governo chinês --que geralmente é pragmático quando se trata de assuntos econômicos-- provavelmente não deixará as relações com o Japão se deteriorarem ainda mais.

"A China necessita do Japão e o Japão necessita da China, e os líderes de ambos os países reconhecem isto", disse Morici. "Eles encontrarão uma forma de navegar nesta tempestade."

*Colaborou David Barboza, de Xangai. Apesar das hostilidades, os países mantêm dependência econômica

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