UOL Notícias Internacional
 

15/04/2005

Mulheres sofrem discriminação em universidades

The New York Times
Sara Rimer

Em Nova York
Passaram-se 12 anos desde que Nancy Hopkins, professora titular de biologia molecular do MIT, viu-se agachada em seu laboratório com um metro, tentando provar para o administrador que tinha 140 metros quadrados a menos de espaço de laboratório do que seus colegas homens. O administrador, porém, ignorou seus dados e se recusou a fornecer os 20 metros quadrados que ela precisava para expandir sua pesquisa com câncer.

Desde então, as mulheres nas ciências e matemática têm tido ganhos visíveis. No MIT, Hopkins, 61, diz que ela e outras pesquisadoras têm laboratórios e salários equivalentes aos de seus colegas homens. As pesquisadoras também dirigem o MIT, a Universidade do Michigan, Princeton, Rensselaer Polytechnic Institute e quatro campi da Universidade da Califórnia.

Mesmo assim, o progresso geral em muitas outras universidades do país tem sido lento, as conquistas irregulares e frágeis. Isso ficou claro após as observações do presidente de Harvard, Lawrence H. Summers, para quem as mulheres ficam para trás em ciências e engenharia por causa de uma "aptidão intrínseca".

Enquanto o número de mulheres doutoras em ciências cresceu substancialmente --as mulheres hoje são de 45% a 50% dos doutorandos em biologia e 33% em química- o corpo docente em faculdades de ciências e engenharia das universidades de elite em pesquisa continuam de maioria masculina. E a maioria das professoras tem cargos inferiores.

Em Harvard, por exemplo, há 149 homens titulares em ciências naturais e apenas 13 mulheres. Cynthia Friend, diretora do departamento de química, continua sendo a única mulher na história de Harvard a ser titular em química. (Por comparação, as mulheres se saíram melhor nos departamentos de humanas na mesma universidade, onde há 39 mulheres e 98 homens.)

A situação em Harvard não é incomum. O corpo docente da maior parte das instituições de elite não apenas é de maioria masculina, mas também de maioria branca.

De acordo com uma pesquisa de Donna Nelson, professora de química da Universidade de Oklahoma, há 13.235 professores nas faculdades de ciências da matemática e da natureza nas 50 melhores universidades de pesquisa do país. Apenas 468 são negros ou hispânicos.

Com o preconceito em algumas universidades e a velocidade de troca de professores extremamente lenta na academia --os professores de carreira, em geral, mantém seus empregos por mais de 30 anos-- é compreensível a lentidão do progresso das mulheres, dizem muitos especialistas.

No entanto, também há vastas diferenças nos esforços que algumas universidades fizeram para promover as mulheres. As pesquisadoras e professoras ficaram particularmente preocupadas com a postura de Harvard na última década, incluindo os quatro últimos anos sob Summers. O número de vagas abertas para as mulheres nas faculdades de artes e ciências caiu de 14 dentre 41 no ano acadêmico de 1999-2000 para 4 de 32 no ano passado.

Enfrentando cada vez mais críticas, Summers nomeou dois grupos de estudos para assessorar Harvard a recrutar e manter mais mulheres. Quando os consultores anunciarem suas conclusões no mês que vem, suas recomendações vão partir, em grande parte, da meia dúzia de instituições que já adotaram essa espécie de programas, inclusive as universidades de Michigan, Wisconsin, Washington, Princeton, Stanford e MIT.

Estas instituíram uma série de programas, inclusive palestras sobre preconceitos inconscientes, aulas para ajudar as mulheres a negociar por salários, fundos de pesquisa e programas para os filhos. (Tal ajuda também está disponível aos homens, mas em geral essa carga doméstica recai mais sobre as mulheres.)

Há três anos, a Universidade de Michigan tinha 55 departamentos de ciências e engenharia, e apenas um chefiado por uma mulher. Hoje, oito são dirigidos por mulheres. Nesse período, a universidade também triplicou o número de vagas de carreira para mulheres em ciências e engenharia, para 41%.

Mel Hochster, professor de matemática em Michigan, pertence a um comitê de professores titulares que dá oficinas para chefes de departamento e comitês de pesquisa sobre as conclusões de inúmeros estudos sobre o preconceito de sexo na contratação: os homens recebem cartas de recomendação mais longas e relevantes do que as mulheres; homens e mulheres preferem contratar um homem a uma mulher com o mesmo currículo.

As mulheres que pedem bolsa de pós-doutorado têm que ser 2,5 vezes mais produtivas que os homens para receber a mesma nota. Quando as orquestras fazem audições em que os juizes não podem ver os músicos, de 30 a 55% mais mulheres são contratadas.

Hochster disse que não estava inclinado a entrar para o comitê até que Abigail Stewart, professora de psicologia e estudos da mulher que está liderando o esforço, fez uma apresentação sobre o preconceito sexual em seu departamento.

"Subestimei imensamente o problema", disse Hochster. "As pessoas tendem a pensar que se há um problema, é com poucas pessoas antiquadas. Isso não é verdade. Todo mundo tem uma parcialidade inconsciente. Aparece em todos os estudos."

Nos últimos três anos, o departamento de matemática, que é considerado um dos melhores do país, contratou duas mulheres, disse Hochster, elevando o número de mulheres titulares para 6, de um total de 64 professores. Duas outras mulheres estão entrando na carreira.

Algumas universidades pediram aos seus comitês de contratação para ampliar suas escolhas de candidatos qualificados, especialmente no que diz respeito a alunos de pós-graduação que podem se inscrever para vagas de auxiliares de ensino.

Jo Handelsman, professora de patologia vegetal que está liderando o esforço de recrutamento de Wisconsin, disse que pediu-se a cada membro do comitê de contratação que criasse uma lista de 10 colegas respeitados no país que pudessem nomear candidatos qualificados, especificamente mulheres e minorias. "Se você tem um comitê de oito pessoas, e cada uma chama 10 colegas, você tem 80 pessoas pensando", disse Handelsman.

Preocupados que apenas metade das mulheres que fazem doutorado em biologia e química se inscrevem para cargos de auxiliar de ensino em universidades de elite em pesquisa, o MIT e outras instituições estão fazendo esforços para encontrar jovens mulheres excepcionais em lugares incomuns.

Catherine Drennan, 41, professora de química do MIT, disse que talvez ainda estivesse ensinando química em um colégio em Iowa, como fazia, se não fosse por JoAnne Stubbe, bióloga molecular famosa do MIT.

Drennan era candidata ao doutorado da Universidade de Michigan quando conheceu Stubbe em uma conferência de química. Ela ficou espantada quando Stubbe, mais tarde, perguntou se estaria interessada em se candidatar a uma vaga de professora no MIT.

"Nunca tinha pensado que uma escola como essa estaria interessada em mim", disse Drennan, que chegou ao MIT há mais de cinco anos. Ela é uma das candidatas à vaga de titular.

Algumas universidades também observaram a desvantagem que as mulheres enfrentam ao negociarem salários, espaços de laboratório e verbas de pesquisa, assim como a importância de criarem fama, publicando em revistas acadêmicas notórias e recebendo convites para palestrar em conferências de prestígio.

Os homens naturalmente seguem esse caminho, pois têm uma rede maior de colegas e mentores de influência. A Universidade de Columbia agora está convidando professores aposentados a ensinar essas coisas às mulheres.

Hopkins, que em janeiro deixou uma conferência na qual Summers fez suas observações controversas sobre a mulher na ciência, disse que quase perdeu uma grande verba anos atrás porque seus colegas homens esconderam informações.

Depois de ler em um jornal que uma empresa de biotecnologia estava dando bolsas a pesquisadores do MIT, perguntou a um colega se ele sabia como se inscrever. Ele disse que não sabia nada sobre a bolsa. Mais tarde, ela descobriu que o colega estava instando outro homem do departamento a pedir a verba.

Hopkins disse que então buscou o reitor, que submeteu seu pedido de US$ 30.000 (em torno de R$ 78.000) para a empresa. Ela recebeu US$ 8 milhões (cerca de R$ 20,8 milhões), o que lhe permitiu expandir sua pesquisa em câncer e levou à descoberta de dois genes de câncer.

Especialistas acreditam que talvez as mulheres não estejam se inscrevendo para vagas de auxiliar de ensino nas universidades de elite por acreditarem --erroneamente, segundo as pesquisadoras-- que essas vagas são incompatíveis com a criação dos filhos.

Em um discurso muito elogiado em Columbia há três semanas, a reitora de Princeton, Shirley M. Tilghman, bióloga molecular e mãe de dois filhos, disse que as universidades devem fazer muito mais para criar um ambiente que "legitima a escolha" de ser cientista e ter uma família. O primeiro passo, disse ela, "para parafrasear o estrategista político James Carville, é reconhecer: 'Precisamos de creches!'"

Princeton, como muitas outras universidades, oferecem aos pais e mães que acabaram de ter filhos um alívio da carga de trabalho e a possibilidade de que a falta de produtividade daquele ano não seja levada em conta em sua revisão de carreira.

Mas Princeton concluiu que os homens costumam aproveitar mais dessa possibilidade do que as mulheres, que têm medo de pedir o ano extra e isso ser visto como sinal de fraqueza ou falta de confiança. Para evitar isso, Princeton recentemente tornou o procedimento automático, disse Tilghman. Conquistas das mulheres no meio acadêmico são instáveis e frágeis Deborah Weinberg

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