UOL Notícias Internacional
 

16/04/2005

Lobby que já ajudou pobres hoje rouba os índios

The New York Times
Maureen Dowd

Em Washington
NYT Image

Maureen Dowd é colunista
Minha família deve carregar a cruz da invenção do lobby moderno. Foi tudo culpa da minha prima Peggy, com covinhas tipo Grace Kelly, irresistível, que encantou Tommy Corcoran --contra a vontade do presidente Franklin Delano Roosevelt [democrata que governou os EUA entre 1932 e 1944, período que abrange a recuperação do país da grande depressão e a Segunda Guerra Mundial].

Tommy foi o jovem advogado inteligente de FDR que elaborou grande parte do New Deal [plano que tirou os EUA da crise] com Ben Cohen e vendeu ao Congresso proteções econômicas para os menos afortunados.

Os dois se tornaram, como escreveu David McKean em "Peddling Influence: Thomas `Tommy the Cork' Corcoran and the Birth of Modern Lobbying", "talvez a melhor equipe de defesa nos anais do governo americano".

Peggy Dowd e Tommy se conheceram em 1933 quando ela foi enviada ao escritório dele na Reconstruction Finance Corp. "Você é irlandesa", o chefe dela disse para Peggy, 22 anos. "Talvez você possa lidar com ele." Ele falava com um charuto na boca, vociferava ordens e avaliava rapidamente as secretárias.

Em uma cena saída diretamente de um filme de Jean Arthur, Peggy disse ao seu novo chefe: "Tire o charuto da boca ou não redigirei seus ditados".

Tommy, chocado, acatou.

Ela se tornou a escrevente do New Deal. Todos ficaram encantados com Peggy, que era inteligente e generosa, exceto FDR e Felix Frankfurter, que achavam que seu protegido não devia se casar com a filha de um carteiro imigrante de Washington.

Peggy contou para minha mãe que FDR provocativamente se referia a ela como "nossa 'Mulher Sublime', "o título de um filme de Joan Crawford de 1936 sobre a filha de um albergueiro de Washington que tinha uma notória amizade com Andrew Jackson.

Tommy pediu Peggy em casamento, e arranjou um encontro para apresentar sua noiva ao presidente. McKean descreve a terrível cena que se seguiu: "Peggy comprou um novo vestido e chapéu para a ocasião, e ela e Tommy chegaram na área familiar da Casa Branca no horário marcado.

Mas após esperarem por mais de duas horas, Harry Hopkins apareceu na área de recepção para lhes dizer que o presidente não poderia vê-los. Corcoran ficou furioso e posteriormente alegou que o incidente contribuiu para sua decisão de deixar o serviço público".

Juntamente com outros superadvogados super-relacionados, como Abe Fortas e Clark Clifford, Tommy elevou o lobby à uma lucrativa profissão de cavalheiro. McKean escreve que Tommy podia falar em código ao telefone --eu ouvi alguns poucos de seus telefonemas crípticos de lobby quando trabalhei em sua firma de advocacia-- mas nunca fez nada ilegal: "Se ocasionalmente ele burlou os limites da propriedade, ele cuidou para não deixar pegadas".

Quando ele foi investigado --e inocentado-- pelo Congresso em 1960 por suspeita de lobby indevido junto ao presidente da Comissão Federal de Energia para um aumento em prol da Tennessee Gas Co., Tommy não se desculpou: "Eu caminhava pelos corredores da comissão, e sempre caminhei pelos corredores da comissão --em plena luz do dia com uma banda atrás de mim".

É algo muito diferente do lobby de hoje. Legisladores questionáveis como Tom DeLay agarram avidamente o suborno de lobistas questionáveis como Jack Abramoff, que levou DeLay, o líder da maioria na Câmara, para jogar golfe na Escócia em 2000 como parte de uma viagem de US$ 70 mil com a esposa de DeLay e funcionários, e para uma viagem de "averiguação de fatos" de seis dias a Moscou em 1997.

Se há algum questionamento ético, os republicanos destróem o Comitê de Ética da Câmara, enquanto DeLay e companhia tentam destruir o New Deal.

Antes de se tornar um superlobista de US$ 750 a hora, acusado de fraudar as tribos indígenas em dezenas de milhões dos dólares de seus cassinos e de as colocar umas contra as outras para pagamento de caras viagens para congressistas, "Cassino Jack" nunca foi consultor da Casa Branca ou passou anos no serviço público. Ele produziu filmes B como "Red Scorpion" e "Red Scorpion 2".

Diferente do refinado Tommy, que era uma espécie de Robin Hood, cuidando de muitas pessoas em dificuldades, Abramoff sangrou um grupo que sempre foi trapaceado e então escreveu um horrível e-mail zombando de seus clientes indígenas como "macacos" e "idiotas".

Outro lobista, Tongsun Park, um sul-coreano no centro de um escândalo de suborno no Congresso nos anos 70, conhecido como "Koreagate", voltou do passado nesta semana. Park foi acusado de receber secretamente pelo menos US$ 2 milhões de Saddam Hussein pela ajuda clandestina para criação do corrupto programa da ONU petróleo por alimentos, e de carregar sacolas de dinheiro de diplomatas iraquianos em Nova York, em parte para subornar uma autoridade da ONU.

Não exatamente à luz do dia acompanhado de uma banda. Mas sim à meia-noite no esgoto. Prática evoluiu no governo de Roosevelt, que implantou o New Deal

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host