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16/04/2005

Para iItalianos, próximo papa precisa ser da Itália

The New York Times
Jason Horowitz

Na Cidade do Vaticano
Por 455 anos, o papado passou ininterrupto de um italiano a outro, até a eleição recente do papa polonês, João Paulo 2º. Agora, depois de 26 anos, muitos italianos acham que é hora de voltarem ao cargo --temendo que a Igreja Católica Romana possa fechar a porta para eles para sempre.

Enquanto 115 cardeais de 52 países se preparam para entrar em um conclave nesta segunda-feira (18/04) para selecionar o próximo papa, alguns historiadores do Vaticano acreditam que a eleição de outro estrangeiro concluirá uma transferência histórica do poder para fora da Itália.

De acordo com essa escola de pensamento, o pontificado precisa espelhar a mudança do catolicismo para o Hemisfério Sul, onde o número de seguidores cresce, como na África e América Latina, enquanto encolhe na Europa.

Poucos especialistas acreditam que outra perda para os italianos os tirará da concorrência para sempre, mas certamente poria fim à idéia, reforçada por tantos séculos de dominação, de que os italianos são naturalmente melhores para o cargo.

Alguns acham que seria um erro.

"Há uma vocação, um carisma italiano", disse Vittorio Messori, autor italiano que colaborou no livro de João Paulo "Crossing the Threshold of Hope" (Cruzando o Limiar da Esperança, de 1994). "Os italianos têm uma tradição de séculos, eles sabem como fazer o papel de papa, está em seu DNA."

Bem, isso foi até agora. "Outro papa de fora confirmaria o declínio italiano. Significaria que a Itália perdeu seu papel central na sucessão papal", disse Giovanni Maria Vian, acadêmico da Universidade La Sapienza, de Roma.

Há sinais de que a Itália está resistindo à tendência, buscando retomar seu domínio e acrescentar mais um aos 212 papas que teve na história da igreja.

Os 20 italianos que entrarão no conclave na próxima semana ainda constituem o maior bloco de cardeais de uma única nação. Alguns emergiram como prediletos entre os que estão sendo considerados para pontífice. Nos últimos anos, com a saúde do papa debilitada, uma série deles manteve alto nível de visibilidade e influenciou questões e desafios da igreja.

Por exemplo, o cardeal Dionigi Tettamanzi, 71, arcebispo de Milão, divulgou seu grande trabalho em bioética em um livro eletrônico. O cardeal Angelo Scola, 63, arcebispo de Veneza, criou uma revista promovendo o diálogo com muçulmanos no mês passado. O cardeal Camillo Ruini, 74, vicário de Roma, publicou um livro criticando o secularismo.

Também parece haver uma campanha mais sutil por parte dos italianos como um todo para retratar João Paulo como um deles.

Ruini presidiu uma missa memorial ao papa na semana passada, fazendo um discurso excepcionalmente carismático, no qual observou que João Paulo entrou "tão profundamente nos corações dos romanos, e dos italianos".

A capital da Itália também fez sua campanha, espalhando pelas ruas cartazes anunciando: "Roma em luto por seu papa."

O Colégio de Cardeais também decidiu que o local do descanso eterno do papa deveria ser na cripta de São Pedro, em vez de em sua terra natal.

Independentemente de quanto Roma diga que João Paulo era seu, o fato permanece que era um papa com apelo global, e sua enorme personalidade e longo reinado deixaram uma marca indelével no pontificado.

"Wojtyla tornou-se a própria igreja, as pessoas se identificavam com ele. Um italiano poderia adotar uma postura mais discreta e deixar a igreja avançar", disse Pietro Scoppola, especialista em Vaticano, usando o nome de João Paulo antes de se tornar papa.

De fato, alguns analistas argumentam que a volta a um papa italiano pode ser necessária para a administração adequada da cúria, o governo da igreja. Poucos têm um conhecimento íntimo da burocracia do Vaticano que administra as operações diárias da igreja e que João Paulo, em geral, ignorava.

Um cardeal italiano, Fiorenzo Angelini, que tem 88 anos e é velho demais para votar no conclave, pareceu discordar em uma entrevista nesta semana no Corriere della Sera, de Milão.

"Nossa percepção da igreja ampliou-se e alcançou dimensões globais", disse ele. "Não podemos mais argumentar com uma mentalidade nacionalista, nem mesmo continental."

O maior crescimento da Igreja Católica Romana em 2003, deu-se na África, seguido da Ásia e América do Sul. Somente na Europa o número de católicos não cresceu.

"O centro da igreja, de um ponto de vista sociológico, não é na Itália. O mundo mudou, e é normal que a igreja também mude. Há grandes chances de termos o primeiro papa não-europeu em muito tempo, e isso seria significativo", disse Giancarlo Zizola, autor de "Conclave: History and Secrets" (Conclave: História e Segredos), um estudo de como os papas foram selecionados.

No início dos 2.000 anos de história da igreja, houve papas gregos e sírios, e os franceses praticamente mudaram o Vaticano para Avignon no século 15.

Desde a morte de Adrian 6º, papa holandês, em 1523, os italianos mantiveram um domínio sobre o poder papal, passando pela ascensão e queda dos Estados Papais e duas guerras mundiais. Mas em 1978, ano da eleição do João Paulo, tudo mudou.

Independentemente de onde o papa vier, uma coisa é certa --algo que João Paulo instantaneamente compreendeu em seu primeiro discurso papal do balcão de São Pedro, há tantos anos, quando falou à multidão romana usando, como disse, a "nossa língua italiana".

"Os que não falam italiano estão fora", disse Messori, o autor. "É como querer ser secretário-geral da ONU sem falar inglês." Para especialista, os religiosos italianos já contam com "DNA papal" Deborah Weinberg

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