UOL Notícias Internacional
 

17/04/2005

Antigos parceiros comerciais, e não novatos, afetam o crescimento americano

The New York Times
Daniel Gross
A próxima grande moda em investimento é o que os estrategistas e economistas das principais corretoras vêm chamando de BRICs -- Brasil, Rússia, Índia e China. Esses países em desenvolvimento apresentam índices de crescimento excepcionais, e produzem e consomem quantidades prodigiosas de matérias-primas, de petróleo a soja.

É fácil entender como sua rápida emergência afeta diretamente a economia dos Estados Unidos. Muitas discussões sobre o preço do petróleo, o espectro da inflação puxada pelas matérias-primas e, é claro, o crescente déficit comercial começam e terminam com os BRICs.

Mas o enfoque nos pontos quentes da economia global pode estar obscurecendo algumas economias mundiais sólidas, de crescimento mais lento, que são antigos parceiros comerciais dos Estados Unidos. Quando os macroeconomistas falam em déficits no contexto da economia global de hoje, geralmente se referem aos déficits gêmeos dos Estados Unidos -- o déficit orçamentário do governo e o déficit de conta corrente. Mas os economistas dizem que um terceiro déficit, o chamado "déficit de crescimento" da Europa e do Japão, está tendo conseqüências importantes para a economia americana.

No início deste mês, o Banco Central Europeu reduziu sua previsão de crescimento da zona euro -- os 12 países que usam o euro como moeda -- de 2% para 1,6% em 2005. O Fundo Monetário Internacional disse na semana passada que a economia japonesa deverá crescer apenas 0,8% em 2005. O FMI estima que os Estados Unidos crescerão 3,6%.

"Nossas relações comerciais e financeiras com a Europa e o Japão ainda são muito grandes e importantes", disse Nouriel Roubini, professor de economia da Escola de Administração Stern da Universidade de Nova York. O volume do comércio bilateral entre os Estados Unidos e os membros da União Européia foi de US$ 41,1 bilhões em fevereiro, perdendo apenas para o Canadá. O comércio com o Japão foi de US$ 15 bilhões, comparado com US$ 19 bilhões para a China.

Lakshman Achuthan, diretor-gerente do Instituto de Pesquisas de Ciclos Econômicos, sediado em Nova York, nota que o volume do comércio americano com os países do G-6 (Japão, Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha e Canadá) é quatro vezes maior que o do comércio com a China e a Índia juntas.

Considere a fraqueza das exportações americanas. O nível de importações tende a ganhar manchetes -- US$ 161,5 bilhões em fevereiro, relatou o Departamento do Comércio na última terça-feira. Mas as exportações também são importantes, especialmente porque podem estimular a criação de empregos internos. Em fevereiro, o total das exportações atingiu apenas US$ 100,4 bilhões.

As grandes economias desenvolvidas do Japão e da Europa têm recursos -- teoricamente -- para comprar os bens e serviços de alto valor que os Estados Unidos produzem. "O Japão e a Europa ainda são muito importantes no que se refere a exportações", disse Jeffrey Frankel, um economista da Escola de Governo Kennedy na Universidade Harvard e ex-membro do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bill Clinton. "E a história de que as exportações americanas estagnaram nos últimos quatro anos é na verdade um eufemismo." As exportações de bens e serviços caíram de 11,2% do Produto Interno Bruto em 2000 para 10,3% em 2004.

Claramente, o crescimento lento das grandes economias estrangeiras prejudica o setor de exportações. Mas a aparente fraqueza crônica da Europa e do Japão é uma vantagem para a vasta parte da economia americana que é sensível às taxas de juros. "Acho que a principal maneira como isso afetou a economia americana é que os níveis de investimento no Japão e na Europa estão muito baixos -- e isso está mantendo as taxas de juros globais baixas", disse Kenneth Rogoff, professor de economia da Universidade Harvard.

Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve (Banco Central americano), falou sobre o enigma dos juros persistentemente baixos da dívida pública americana -- cerca de 4,27% nos papéis do Tesouro para dez anos. Mas como o crescimento na Europa e no Japão continua abafado, e como a política monetária continua acomodativa nessas regiões, os títulos do governo americano parecem ter alto rendimento comparados a seus semelhantes europeus e japonês.

O déficit de crescimento na Europa e no Japão também está ajudando a conter a inflação. "Com exceção do petróleo, as pressões inflacionárias globais continuam sob controle", disse Barry Eichengreen, um economista da Universidade da Califórnia em Berkeley. Se o Japão e a Europa estivessem crescendo em um ritmo mais rápido, os preços do petróleo provavelmente estariam muito mais altos. E uma pequena diferença de crescimento em um gigante de crescimento lento pode ajudar a avivar o temor da inflação. Em 1999, disse Achuthan, quando a economia japonesa passou da contração para a expansão, isso ajudou a causar uma alta do petróleo e das matérias-primas.

Talvez os motores econômicos lentos na Europa e no Japão recebam pouca atenção porque estamos acostumamos com eles. Afinal, a economia japonesa não cresce robustamente há quase 15 anos. E alguns dos motivos para o crescimento menor são estruturais -- o baixo crescimento populacional e as leis trabalhistas restritivas, particularmente na Europa.

Mas na macroeconomia, assim como no investimento, o antigo desempenho não é garantia de resultados futuros. No início da década de 90 houve uma percepção generalizada de que a Europa e o Japão cresceriam mais rapidamente que os Estados Unidos, graças a sua política industrial supostamente superior. Paul Tsongas, que tentou a nomeação democrata para a presidência em 1992, costumava dizer que a Guerra Fria havia terminado e a Alemanha e o Japão tinham vencido.

Do mesmo modo, a diferença dos índices de crescimento entre os Estados Unidos e a Europa e o Japão "não vai durar para sempre", disse Rogoff. Os Estados Unidos podem estar crescendo um pouco mais rápido que seu índice em longo prazo, e o Japão e a Europa podem estar crescendo um pouco mais devagar que seu potencial. "As pessoas que extrapolam simplesmente não estão observando a história", disse Rogoff. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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