UOL Notícias Internacional
 

17/04/2005

Às margens da Igreja, liberais ainda buscam um raio de esperança

The New York Times
Ian Fisher

Em Roma
A idéia era tão ridícula que a primeira resposta da irmã Christine Schenk foi uma longa e resignada risada. Ela e outros católicos liberais, que gostariam que a Igreja promovesse reformas como a ordenação de mulheres, têm alguma influência no conclave que escolherá o novo papa?

"Oh, não, nem um pouco", disse a irmã Christine, diretora da FutureChurch, uma coalizão de católicos americanos progressistas, em uma entrevista por telefone de Cleveland, onde fica a sede do grupo. "Eu acho que esta é uma das dificuldades com o conclave. Como você é católico e como ele não acontece com freqüência, a sensação é de você faz parte da equipe."

"Mas achar que há alguma forma de influenciar é uma completa fantasia", disse ela.

Eles podem ser idealistas em geral, mas em uma questão básica - a essencial irrelevância de uma voz liberal neste conclave - eles são definitivamente realistas. Por bons motivos: dos 115 cardeais que participam do conclave, que terá início na segunda-feira, quase nenhum deles se manifestou sobre assuntos importantes para a ala liberal da Igreja Católica, como a ordenação de mulheres, maior inclusão de leigos nos negócios da Igreja e redução das proibições aos contraceptivos.

De fato, Luigi De Paoli, um dos fundadores da We Are Church, a maior organização liberal católica na Europa, disse que seu grupo não conta com nenhum cardeal dentro do conclave representando seus pontos de vista. "Nós conhecemos alguns deles, e achamos que alguns dos mais 'progressistas' são a favor de nossas posições", disse ele. "Mas a maioria deles é realmente conservador."

Ainda assim, os liberais não parecem em desespero (o que, de qualquer forma, é um pecado mortal para todos os tipos de católicos). Apesar de questões como moralidade sexual não parecerem estar na mesa, a da colegialidade -a permissão para que bispos tenham maior liberdade para adaptar localmente a doutrina da Igreja- transcende as fronteiras de liberais e conservadores. E muitos especialistas acreditam que esta será uma das principais questões discutidas no conclave, e poderá resultar em maior controle local, uma mudança que os liberais gostariam, mesmo que a opinião deles não faça diferença aqui.

Isaac Wust, um ativista liberal católico da Holanda, disse que sob o papa João Paulo 2º, e especialmente em seus últimos anos, as decisões vinham "do alto para baixo, e nenhuma voz vinha de baixo para o alto".

"Ou pelo menos ninguém estava escutando no Vaticano", disse ele. "É isto que nós queremos mudar acima de tudo", ele acrescentou.

Como muitos assuntos diante da Igreja, a divisão liberal-conservadora não é clara: alguns liberais argumentam que o ponto de vista conservador predominante no Vaticano e no Colégio dos Cardeais não reflete a vida católica como é de fato vivida, e é um motivo para o declínio da freqüência à igreja em países desenvolvidos, especialmente na Europa. Mas os conservadores notam que os liberais não representam todos os católicos, mesmo na Europa, particularmente entre os mais devotos.

Os próprios grupos liberais enfrentam contradições. Apesar de dizerem que representam os católicos de todo o mundo, seus movimentos são baseados principalmente nos Estados Unidos e na Europa, onde a freqüência à igreja está caindo. No Terceiro Mundo, onde a Igreja está crescendo mais rapidamente, muitos católicos continuam profundamente conservadores, especialmente na moralidade sexual.

Mas mesmo entre os cardeais no conclave, definições fáceis de liberal e conservador nem sempre se aplicam. No Terceiro Mundo, muitos cardeais são conservadores em moralidade sexual. Na América Latina, muitos são fortemente contrários à teologia da libertação, mas são francos em questões de pobreza e justiça social, tradicionalmente consideradas preocupações liberais.

Na Itália, um dos cardeais considerados como candidato a papa, Dionigi Tettamanzi, o arcebispo de Milão, é segundo a maioria dos parâmetros um conservador, especialmente em moralidade sexual, e mantém laços com o grupo conservador católico leigo Opus Dei. Mas ele tem expressado solidariedade aos manifestantes antiglobalização, algo que tem levantado sobrancelhas entre seus colegas de posição mais linha-dura, e é franco na necessidade de cristãos e muçulmanos encontrarem um ponto em comum.

Um dos cardeais mais progressistas disse em uma entrevista na semana passada que a verdadeira divisão no colégio dos cardeais não é entre mais conservadores e mais liberais. Mas sim, ele disse, a divisão é entre aqueles que são a favor de discutir assuntos delicados, como bioética e moralidade sexual, e aqueles que querem que sejam declaradas resolvidas e fora de discussão.

"Você pode falar com maior ou menor abertura", disse o cardeal, falando anonimamente devido às restrições sobre declarações públicas impostas aos cardeais antes do conclave.

Ele deu como exemplo a proibição da Igreja do uso de células-tronco fetais para pesquisa. Uma questão crescente, ele disse, é se poderia ser moralmente aceitável o uso de células-tronco de fetos que estão destinados a morrer, comparando à doação de órgãos de pessoas falecidas.

Enquanto isso, a impotência básica dos grupos liberais se reflete em suas atividades ao redor do conclave. Um grupo americano disse que nem se deu ao trabalho de viajar para Roma, porque sentiu que não faria diferença. We Are Church está planejando várias novas conferências, mas deixou claro que suas expectativas de resultados são muito baixas.

Ainda assim, vários ativistas disseram que acreditam que a realidade da Igreja forçará algumas das mudanças que buscam. A irmã Christine notou que a calamitosa escassez de padres e seminaristas terá que ser confrontada para que a Igreja possa sobreviver. Ela disse que espera que o apoio aumentará para a idéia de padres casados, e algum dia para mulheres serem ordenadas.

"A longo prazo, nossa fé está no Espírito Santo", disse Linda Pieczynski, porta-voz da Call to Action, com sede em Chicago, o maior grupo de reforma católica nos Estados Unidos. "Não está nos homens individuais que governam a Igreja."

"Jesus disse que o Espírito sempre estará conosco", ela acrescentou. "De que outra forma a Igreja poderia ter durado 2 mil anos considerando a liderança terrível que às vezes teve?" George El Khouri Andolfato

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