UOL Notícias Internacional
 

19/04/2005

Israel dá sinais de que tomará decisão unilateral sobre a fronteira com a Palestina

The New York Times
Steven Erlanger

Em Maale Adumim, Cisjordânia
Eles estão construindo aqui no maior assentamento de Israel, com operários palestinos trabalhando em novos apartamentos com vista para as colinas marrom-avermelhadas da Cisjordânia.

Rina Castelnuovo/The New York Times

Israel constrói na Cisjordânia casas para colonos sem negociar previamente com os palestinos
As intenções de Israel de continuar construindo neste subúrbio, a 5 km de Jerusalém, provocaram furor no governo Bush, que pressiona Israel a manter o compromisso de congelar o crescimento dos assentamentos.

Mas a construção e o planejamento em Maale Adumim e o plano do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, de retirar 9 mil colonos israelenses da Faixa de Gaza neste verão são apenas parte de uma transformação maior e mais complexa da paisagem israelense-palestina, e das próprias políticas de Sharon.

Na prática, Israel sob Sharon está buscando definir unilateralmente suas futuras fronteiras com um Estado palestino --com a retirada prevista de Gaza e de quatro pequenos assentamentos no norte da Cisjordânia, com o "adensamento" dos assentamentos perto de Jerusalém e da fronteira israelense, e com uma nova rota para a barreira de separação israelense aprovada pelo gabinete em 20 de fevereiro.

Os palestinos estão furiosos por Israel estar agindo sem esperar pelas negociações. Mas o provável impacto da nova fronteira provisória sobre a vida palestina será, talvez surpreendentemente, menor do que geralmente se supõe, deixando cerca de um quarto dos colonos israelenses no lado palestino.

Pressionado pela Suprema Corte de Israel e pelos Estados Unidos, Sharon recuou a barreira de separação para mais perto daquela que era a fronteira de Israel de 1967, que eram as linhas do armistício da guerra entre árabes e israelenses de 1948-49, que se tornaram conhecidas como linha verde.

Mesmo incluindo os três maiores blocos de assentamentos israelenses de Maale Adumim, Ariel mais ao norte e Gush Etzion no sul, a terra entre a linha verde e a barreira corresponde a 8% da Cisjordânia --perto dos 5% da proposta que o presidente Bill Clinton estava promovendo em 2000, ao final de suas negociações com palestinos e israelenses.

E mesmo estes 8% provisórios, unilaterais, antes do início das negociações do status final, significam que 99,5% dos palestinos viverão fora da barreira, em 92% da Cisjordânia, com 74% dos colonos israelenses dentro dela.

"O que realmente interessa está passando despercebido na disputa em torno de Maale Adumim", disse David Makovsky, um membro sênior do Instituto para Política do Oriente Próximo de Washington. "Os contornos do debate em torno da Cisjordânia têm mudado sob nossos olhos."

"As pessoas associam Sharon como sendo o sr. Assentamento e reagem com uma certa rudeza, dizendo que ele está tentando trocar Gaza pela Cisjordânia. Mas a verdadeira história é como o sr. Assentamento, que queria construir em 100% da Cisjordânia, agora fica com 8%. Se estamos falando sobre Maale Adumim, isto significa que Sharon vê este como sendo o campo de batalha principal, não Elon Moreh ou o Vale do Jordão."

Os palestinos não vêem isto como uma vitória. Eles argumentam que todos os assentamentos israelenses além da linha verde são ilegais. Eles rejeitam a anexação de Jerusalém Oriental de 1967 e dizem que os 8% da Cisjordânia dentro da barreira estão entre as melhores terras para habitação e agricultura. O unilateralismo, eles disseram, não substitui as negociações.

Saeb Erekat,um negociador palestino veterano, disse: "Se este projeto for executado, ele significará o fechamento das portas para negociações e paz e, na prática, a colocação de mais palestinos na prisão".

Os 8% representam metade do número do verão passado, antes da Suprema Corte ter ordenado ao governo o recuo da barreira para mais próxima da linha verde. A nova rota reduziu acentuadamente o número de palestinos presos dentro da barreira: menos de 10 mil dos 2 milhões de palestinos na Cisjordânia.

Tais números não incluem Jerusalém Oriental, que contém cerca de 175 mil israelenses e cerca de 195 mil palestinos.

Cerca de 85 mil palestinos, disse o Ministério da Defesa, vivem com carteiras de identidade israelenses no lado israelense da barreira. A população palestina está crescendo anualmente a uma taxa de cerca de 3,3%, e a população israelense a menos de 1%.

Outros milhares de palestinos vivem em áreas como Qalqilya, que não está mais formalmente atrás da barreira, mas onde precisam cruzar por portões que podem ser fechados rapidamente.

Ainda assim, argumentam os israelenses, as dificuldades da barreira agora são menos severas e afetam menos palestinos do que antes.

Autoridades israelenses apontam que até mesmo a proposta final que estava sendo considerada no final das negociações de Clinton concediam parte das terras da Cisjordânia para Israel, com transferências de terras para os palestinos como compensação. E os palestinos, em todas as negociações até o momento, pareciam dispostos a ceder Maale Adumim aos israelenses em troca de outras terras.

Mas Ariel pode ser um assunto diferente, considerando o quanto adentro da Cisjordânia ele se encontra. Mas mesmo com Ariel, o governo israelense concordou com Washington em não fechar plenamente a área, o que prenderia milhares de palestinos em enclaves. Em vez disso o governo utiliza cercas locais ao redor dos assentamentos e mais patrulhas do exército.

Dentro da nova rota da barreira, mas fora da linha verde, se encontram cerca de 177 mil israelenses que vivem principalmente nestes grandes blocos de assentamento --cerca de 74% dos colonos israelenses. Os outros 26%, cerca de 63 mil, vivem no restante da Cisjordânia, além da barreira.

Estes 26%, alguns em assentamentos isolados, altamente protegidos, ou em pequenos postos avançados, provavelmente se verão presos em uma Palestina independente ou sendo obrigados a mudarem, pois é altamente improvável que qualquer negociação desta fronteira nacional israelense, juntamente com a rota da barreira, avançará mais adentro da Cisjordânia.

A barreira de Sharon deixou claro o futuro para estes colonos, mas a remoção deles poderá fazer a futura evacuação de Gaza parecer como um passeio no parque, especialmente quando se fala de assentamentos ferozmente ideológicos como Ofra e Beit El.

Israel argumenta que a barreira não é uma fronteira, mas apenas uma medida de segurança temporária que poderá ser removida ou movida de acordo com as negociações. Mas Israel está construindo dentro da nova rota --em Maale Adumim, por exemplo-- como se ela fosse uma fronteira, ou algo próximo de uma.

Makovsky analisou a mudança de rota da barreira e fez estimativas de população, aldeia por aldeia, com números de recenseamento e uma projeção da CIA dos índices de crescimento populacional anual.

"Clinton reduziu a 5% da Cisjordânia, e aqui estamos com 8% antes das negociações do status final", disse Makovsky. "Ele precisa ser modificado e acertado pelas partes, mas diante de nossos olhos nós estamos vendo um esboço da solução de dois Estados."

Enquanto os políticos discutem, nada pára. Construção oferece pista dos planos israelenses de futuras fronteiras George El Khouri Andolfato

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