UOL Notícias Internacional
 

19/04/2005

Obesidade vira epidemia mundial, dizem estudos

The New York Times
Jane E. Brody

Em Nova York
Não é segredo o fato de os norte-americanos estarem acima do peso. Mas a obesidade é um problema que cresce em todo o mundo, até mesmo em países cujas populações costumavam exibir uma magreza invejável, conforme revelam novos relatórios de pesquisas.

Na China, por exemplo, cerca de 18 milhões de adultos são obesos e outros 137 milhões estão acima do peso, segundo um estudo feito com 16 mil pessoas, publicado na edição da semana passada de "The Lancet", publicação especializada. Um outro relatório, publicado no "The New England Journal of Medicine", anuncia que nos países em desenvolvimento até 60% dos lares em que há um indivíduo abaixo do peso também contam com um outro indivíduo cujo peso está acima do ideal.

Em um recente relatório, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou a respeito de "uma crescente epidemia global de excesso de peso e obesidade --a 'globesidade'".

"Em 1995, havia cerca de 200 milhões de adultos obesos no mundo e outros 18 milhões de crianças com menos de cinco anos classificadas como acima do peso", disse o relatório. "Em 2000, o número de adultos obesos ultrapassou os 300 milhões".

A OMS luta para criar uma estratégia global para conter a obesidade, ainda que procure, ao mesmo tempo, combater a fome e a desnutrição que continuam sendo uma preocupação maior em grande parte do mundo.

A organização estima que, nos próximos anos, doenças não transmissíveis relacionadas à dieta, à inatividade física e à conseqüente obesidade, como cardiopatias, derrames, diabetes e hipertensão se tornarão a principal causa de doenças e mortes no planeta.

A Força Tarefa Obesidade Internacional, da OMS, cujo diretor é o médico londrino W. Philip T. James, afirma que serão necessárias diferentes estratégias em diferentes países, mas que a não elaboração de estratégias nacionais efetivas acabaria resultando em uma crise de saúde economicamente desastrosa.

A questão da obesidade não se restringe aos países industrializados. "Acredita-se que nos países em desenvolvimento mais de 115 milhões de pessoas padeçam de problemas relacionados à obesidade", diz o relatório da OMS.

De fato, dados recentemente divulgados sugerem que praticamente não existe nenhum país fora da região subsaariana, na África, no qual o índice de massa corporal, ou IMC, um indicador da presença de gordura, não esteja subindo para níveis que aumentam o risco de doenças crônicas sérias.

Na Ásia, o aumento da obesidade, embora distante do nível registrado nos Estados Unidos, está ameaçando causar uma grande epidemia de diabetes do tipo dois, segundo informações divulgadas em Mineápolis no outono passado em um simpósio internacional sobre a obesidade.

O relatório publicado em "The Lancet" revelou altos índices de grandes fatores de risco de doenças cardiovasculares em adultos chineses.

Em todo o mundo o aumento de peso está se tornando um dos mais importantes fatores de risco para a incidência de doenças crônicas e o aumento dos custos dos serviços de saúde.

No Reino Unido, por exemplo, a obesidade é atualmente o fator responsável por 18 milhões de faltas ao trabalho, por 30 mil mortes anuais, pela perda de nove anos de expectativa de vida e por um custo anual extra de US$ 1 bilhão para o Serviço Nacional de Saúde, afirmou no simpósio de Mineápolis o médico Jacob C. Seidell, professor de nutrição e saúde da Universidade Livre de Amsterdã.

Em diversos países, os piores aumentos do número de casos de obesidade ocorreram entre a população jovem.

Por exemplo, embora menos de 1% das crianças da África sofram de desnutrição, 3% estão acima do peso ou são obesas, segundo Francine Kaufman, endocrinologista pediátrica do Hospital Infantil de Los Angeles.

Talvez os dados mais inquietantes venham da Ásia, onde a escala utilizada para medir o excesso de peso nos países do Ocidente pode subestimar a seriedade dos problemas de saúde relacionados ao peso enfrentados pelos asiáticos.

No Japão, por exemplo, a obesidade é definida como um índice de 25 ou mais, e não 30, como nos países ocidentais. Mas as autoridades japonesas de saúde dizem que um IMC de 25 ou mais já causa alta incidência de diabetes. Essas autoridades disseram a Seidell que um nível superior a 30 faria com que a maior parte da população sofresse de diabetes.

"Por volta de 2010, mais da metade dos pacientes de diabetes no mundo será asiática", afirma Kaufman.

Nos países em desenvolvimento, tradicionalmente as pessoas mais pobres são as mais magras, uma conseqüência do trabalho físico pesado e do consumo de pequenas quantidades de comidas tradicionais. Mas, quando indivíduos de países pobres migram para as cidades, os índices de obesidade aumentam mais rapidamente entre aquelas pessoas que estão no grupo socioeconômico mais baixo, anunciou Seidell.

Mickey Chopra, especialista em saúde pública da Universidade de Western Cape, na África do Sul, atribui o aumento da obesidade em países de renda média ou baixa a mudanças de dietas. "Passou-se a consumir mais alimentos refinados, assim como carnes e laticínios que contêm altos índices de gorduras saturadas, além de ter diminuído o gasto de energia".

Em outras palavras, à medida que os indivíduos dos países em desenvolvimento mudam os seus hábitos alimentares, baseados em verduras e grãos, passando a consumir alimentos processados e de origem animal, e gastam menos energia para se locomoverem e fazerem o trabalho diário, fica muito fácil consumir um excesso de calorias.

A China é um exemplo clássico. A urbanização gerou mudanças nos hábitos alimentares e estimulou a adoção de estilos de vidas cada vez mais sedentários, onde há um excesso de refrigerantes açucarados, óleos vegetais baratos, veículos motorizados e televisores.

Nos últimos oito anos, a proporção de homens chineses classificados como acima do peso, com um índice de massa corporal acima de 25, aumentou de 4% para 15%, e a de mulheres chinesas acima do peso dobrou, passando de 10% para 20%.

"As transições dietéticas que demoraram mais de cinco décadas no Japão ocorreram em menos de duas décadas na China", escreveu Chopra no boletim da OMS.

Ele atribui essa rápida mudança em grande parte ao aumento do número de companhias alimentícias multinacionais que acrescentaram açúcar, gorduras e óleos aos produtos agrícolas. O valor de mercado desses produtos é atualmente três vezes maior do que o valor nas fazendas, e exportações estrangeiras para países como a China representam uma grande fonte de rendimento e crescimento para os produtores de alimentos.

Tendências similares têm sido registradas em outras regiões. "Atualmente os mexicanos tomam mais Coca-Cola do que leite", observou Chopra. Adam Drewnowski, diretor do Centro de Nutrição Pública Saudável da Universidade de Washington, disse: "Os alimentos estão ficando globalmente mais baratos, sobremaneira as calorias derivadas de açúcar e gordura".

No Brasil, por exemplo, são precisos apenas quatro centavos para a produção de meio quilo de açúcar", disse Drewnowski. "Dá para consumir 50 mil calorias doces vazias por apenas US$ 1".

"Já na Ásia os alimentos estão sendo imersos em óleo. O óleo melhora o sabor dos alimentos e os indivíduos são naturalmente predispostos, devido à evolução biológica, a selecionar e consumir alimentos que fornecem muita energia", afirmou Drewnowski.

Ele acrescenta que, como alimentos mais nutritivos e com menor índice energético, como saladas, frutas e vegetais tendem a ser mais caros, para ajudar a conter a crescente epidemia global de obesidade são necessários subsídios de verduras, legumes e frutas e campanhas internacionais para promover o consumo desses produtos.

Ao mesmo tempo em que o consumo de calorias aumenta, o nível de atividade física cai. "Vinte anos atrás, no Vietnã, as pessoas se deslocavam a pé. Cinco anos atrás, andavam de bicicleta. Agora estão usando motocicletas, e daqui a cinco anos utilizarão carros", afirma Drewnowski.

Shiriki Kumanyika, epidemiologista da Universidade da Pensilvânia, diz que não se prestou a atenção necessária ao declínio de atividade física, especialmente nos países em desenvolvimento. À medida que diminui a quantidade de atividade física diária, fica fácil cometer erros de cálculo relativos ao consumo diário de alimentos de até mil calorias, especialmente em se tratando de indivíduos em países em desenvolvimento que migram para áreas urbanas nas quais as comidas mais baratas são caloricamente densas.

Mesmo assim, disse Kumanyika no simpósio, o crescimento da obesidade em todo o mundo não pode ser atribuído somente a um ou dois fatores. "Certos fatores globais são difíceis de se controlar, até mesmo no nível nacional, como é o caso da globalização dos mercados e o desenvolvimento industrial, que muda a maneira como as pessoas ganham as suas vidas e quem produz alimentos e prepara refeições", conclui ela. Problema não é exclusivo de país desenvolvido; diabetes é ameaça Danilo Fonseca

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