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20/04/2005

Bento 16 deve alargar fissuras da Igreja Católica

The New York Times
Laurie Goodstein

No Vaticano
O cardeal Joseph Ratzinger era um aliado tão próximo do papa João Paulo 2º que poderia muito bem ter escolhido o nome João Paulo 3º.

James Hill/The New York Times

Joseph Ratzinger saúda a multidão em frente ao Palácio Apostólico do Vaticano, na Praça de São Pedro
Mas aqueles que esperam que o papa Bento 16, de 78 anos, simplesmente siga as pegadas do seu predecessor podem se surpreender, afirmam aqueles que o conhecem. Eles dizem que Ratzinger sabe que pode ter um papado curto e que pretende agir rapidamente para conferir a sua própria marca à Igreja Católica Apostólica Romana e para reverter o declínio desta no Ocidente secular.

Como alter ego de João Paulo 2º, o novo papa alemão treina para este papel há décadas e sabe como funcionam todas as alavancas do poder do Vaticano.

"Este homem não vai simplesmente se preocupar com o trivial", opina George Weigel, um acadêmico conservador norte-americano que conheceu tanto o antigo quanto o novo papa.

"Ele levará a evangelização, especialmente na Europa, muito a sério. Creio que isso representa um reconhecimento por parte dos cardeais de que a grande batalha no mundo continua sendo travada dentro das cabeças dos seres humanos --que se trata de uma batalha de idéias".

Sandro Magister, especialista em Vaticano da revista italiana "L'Espresso", disse que espera uma grande limpeza da casa, não muito diferente das reformas gregorianas às quais a igreja deu início sob o papado de Gregório 7º, que comandou o catolicismo de 1073 a 1085. Aquela reforma provocou o fim do casamento de clérigos e da compra e venda de favores espirituais como as indulgências.

Ratzinger falou e escreveu energicamente sobre a sua percepção de ameaças à igreja, tanto internas quanto externas. Quer se trate de teólogos dissidentes, padres pedófilos, "católicos de lanchonete" que desprezam a proibição dos métodos contraceptivos artificiais, ou do "celibato" de padres do Terceiro Mundo que possuem amantes, a solução do novo papa deverá ser uma reiteração mais enérgica do credo da igreja e da necessidade de viver por ela ou de deixá-la.

"Quanta sujeira existe na igreja, mesmo entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer inteiramente a Ele", disse Ratzinger em Roma na sexta-feira santa deste ano.

Ele critica especialmente a disseminação do "secularismo agressivo", especialmente na Europa e na América do Norte. Na homilia que fez na segunda-feira, pouco antes de os cardeais ingressarem no conclave no qual ele foi escolhido, Ratzinger advertiu a respeito das formas rivais de crença, como, por exemplo, "um vago misticismo religioso", o "sincretismo",e as "novas seitas", um termo que os católicos da América Latina utilizam para se referirem às igrejas evangélicas e pentecostais.

Ao escolher o nome "Bento", esse teólogo alemão se vinculou não só a uma longa cadeia de ex-papas, mas também a São Bento, o fundador do monasticismo cristão, que foi proclamado "patrono e protetor da Europa" pelo papa Paulo 6º em 1964.

Os monastérios fundados por São Bento, e para os quais ele escreveu a "Regra", o guia básico para a vida monástica, tornaram-se os mantenedores da cultura e da devoção na Europa medieval.

Estudiosos da igreja sugerem que o papa Bento 16 pode estar se apresentando como o novo salvador da Europa, resgatando o continente daquilo que na sua homilia da segunda-feira chamou de "a ditadura do relativismo".

O cardeal Justin Francis Rigali, arcebispo de Filadélfia, disse sobre o novo papa em uma entrevista coletiva à imprensa na terça-feira: "Ele pretende usar tudo o que for possível para promover o bem-estar na Europa. O que o continente mais precisa é de não preferir nada acima do amor a Cristo --a Cristocentralidade".

Jim McAdams, professor de ciência política e diretor do Instituto Nanovic de Estudos Europeus da Universidade Notre Dame, disse que o tipo de conservadorismo do novo papa não deve ser confundido com aquele dos conservadores políticos norte-americanos.

"A fé é essencial para a sua argumentação de que existe uma doutrina da igreja, isso está claro, de que os católicos devem se pautar por ela, e de que as pessoas que acham que essa doutrina é negociável estão equivocadas".

A escolha de Ratzinger sepultou as esperanças dos católicos que desejavam um novo papa que adotasse uma série de soluções diferentes para os problemas da igreja, talvez até permitindo o casamento de padres, a ordenação de mulheres e a suavização das restrições aos métodos anticoncepcionais e ao divórcio.

"A eleição de um novo papa é um momento de esperança para a igreja, e essa escolha não passou de um olhar para trás", diz Paul F. Lakeland, professor de estudos religiosos da Universidade Fairfield em Connecticut.

Ratzinger vem atuando há anos como purificador da doutrina da igreja. Durante 24 anos ele dirigiu a Congregação da Doutrina da Fé, de onde decretou condenações dos teólogos renegados, das reinterpretações modernas da liturgia da igreja e da idéia de que todas as religiões possuem igual direito a se dizerem portadoras da verdade.

Nos últimos anos, à medida que João Paulo 2º foi ficando mais e mais debilitado devido ao mal de Parkinson e à velhice, Ratzinger passou a ser, progressivamente, o poder por trás do trono. Bispos de todos os países que visitam regularmente o Vaticano passaram mais tempo com ele do que com o papa, segundo cardeais e funcionários do Vaticano.

Pode ter sido essa familiaridade que fez com que os cardeais escolhessem Ratzinger como a sua âncora neste momento de transição. O reverendo Joseph Augustine Di Noia, padre norte-americano que atua como subsecretário da Congregação para a Doutrina da Fé, disse aos jornalistas na semana passada que muitas vezes observou o cardeal ouvindo atentamente os bispos, durantes as visitas destes, que lhe apresentavam todos os tipos de problemas a respeito de como aplicar a fé nos seus países. Ratzinger respondia com "uma profundidade notável" e com "distinções que não eram imediatamente esclarecedoras", contou Di Noia.

Mas já está claro que o novo papa provavelmente alargará as fissuras que existem na igreja. As reações da multidão nos primeiros minutos após o papa Bento 16 ter aparecido na sacada em frente à Praça de São Pedro sugeriram as divisões que ele terá que enfrentar.

"Assim que ouvi o nome, senti uma decepção, percebendo que esse homem não será bom para a igreja", disse Eileen, 53, de Boston. Ela não quis dizer o sobrenome porque atua ativamente na sua paróquia e não quer causar problemas para o seu padre, ou colocar em risco o casamento iminente da filha na igreja.

A poucos passos dali, o reverendo M. Price Oswalt, um padre que atua em duas paróquias em Oklahoma City, ficou exultante com a escolha do cardeal.

"Ele corrigirá as atitudes de indiferença que conseguiram penetrar nas vidas dos católicos", afirmou. "E terá uma mentalidade alemã de liderança: ou as pessoas embarcam no trem ou saem de cima dos trilhos. Ele não fará acordo com crianças rebeldes". Novo papa, Joseph Ratzinger é evangelista com a Europa na mente Danilo Fonseca

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