UOL Notícias Internacional
 

20/04/2005

Excesso de peso pode reduzir o risco de morte, aponta pesquisa

The New York Times
Gina Kolata

Em Nova York
As pessoas que estão acima do peso correm um risco menor de morte do que as de peso normal, segundo pesquisadores federais revelaram na quarta-feira (19/04), em um resultado inesperado do mais novo e abrangente estudo sobre o impacto da obesidade.

Os pesquisadores, estatísticos e epidemiologistas do Centro de Controle de Doenças e do Instituto Nacional do Câncer também descobriram que o risco maior de morte devido à obesidade não se fez presente até que os indivíduos se tornassem extremamente pesados, um grupo que constitui apenas 8% dos norte-americanos.

Segundo o relatório dos pesquisadores, as pessoas muito magras --ainda que a magreza seja um fator antigo e que haja pouca possibilidade de ser provocada por doença-- correm um risco um pouco maior de morte.

O novo estudo, considerado por muitos como sendo o mais rigoroso já realizado, levou em conta fatores como o tabagismo, a idade, a raça e o consumo de álcool em uma análise sofisticada derivada de um método bem conhecido que vem sendo utilizado para prever o risco de câncer.

A pesquisa usou as definições de categorias de peso estabelecidas pelo governo federal, que determinam a obesidade de acordo com o índice de massa corporal, que se baseia no peso e na altura.

Por exemplo, um indivíduo de 1,73 metros de altura que pese menos de 55 quilos é considerado abaixo do peso normal. Se ele pesar entre 55 e 74 quilos, o seu peso é tido como normal. E se pesar 89 quilos ou mais, é considerado obeso.

No novo estudo, quase todo o risco de morte advindo da obesidade ocorreu entre os obesos mais pesados, como, por exemplo, uma pessoa de 1,73 metros de altura pesando mais de 103 quilos.

Essas descobertas são inesperadas e os pesquisadores enxergam várias possibilidades de respostas para a questão. Alguns vêem o relatório como um teste baseado na realidade, há muito necessário, daquilo que acreditam ser quase que uma histeria nacional em relação à obesidade.

"Adorei os resultados", afirma Steven Blair, presidente do Instituto Cooper, uma organização de pesquisa e educacional sem fins lucrativos de Dallas voltada para a medicina preventiva.

"Há pessoas que se convenceram de que a obesidade e o excesso de peso se constituem no maior problema de saúde pública que enfrentamos. Esses números revelam que talvez esse problema não seja assim tão grande".

Outros simplesmente não acreditam nas descobertas. Joann Manson, chefe de medicina preventiva do Hospital Feminino Brigham de Harvard, aponta para o seu próprio estudo de enfermeiras que revelou riscos de mortalidade devido ao excesso de peso, e riscos ainda maiores resultantes da obesidade. O seu estudo envolveu basicamente profissionais de saúde do sexo feminino e utilizou diferentes métodos estatísticos.

"Não podemos nos dar ao luxo de sermos complacentes quanto à epidemia de obesidade", afirmou.

Na verdade, o estudo avaliou apenas o risco de morte, e não o de incapacitação ou doença. À medida que passam do excesso de peso para a obesidade, e daí para a superobesidade, os indivíduos ficam mais predispostos a sofrerem de diabetes, hipertensão e altos níveis de colesterol. Mas os pesquisadores dizem que também é possível que ser gordo já não seja algo tão perigoso para a saúde.

Em um trabalho publicado nesta quarta-feira (20/04), Edward W. Gregg, David F. Williamson e seus colegas relatam que a hipertensão e os níveis altos de colesterol são menos comuns atualmente do que há 30 ou 40 anos, e que pessoas mais gordas fizeram os maiores progressos no sentido de controlar esses fatores que podem levar a uma doença cardíaca.

E a população também está fumando menos. Porém, o diabetes continua no mesmo patamar, afligindo 4% das pessoas de peso normal, 6% das que estão acima do peso, e 14% das obesas.

Mark Mattson, um pesquisador magérrimo do Instituto Nacional do Envelhecimento que estuda a restrição calórica como forma de prolongar a vida, diz que não está claro que o fato de se ingerir menos calorias signifique pesar tão pouco, já que certas pessoas comem pouquíssimo e jamais emagrecem.

"A restrição calórica talvez possa prolongar a vida, mas há um certo ponto além do qual é possível que se cometam exageros em termos de restrição calórica, e não sabemos que ponto é esse", afirma Mattson.

Outros estatísticos e epidemiologistas dizem que os métodos e dados do estudo são exemplares. Eles dizem ainda que os autores do trabalho, Katherine M. Flegal e Williamson, do Centro de Controle de Doenças, e Barry I. Graubard e Mitchell H. Gail, do instituto do câncer, são cientistas respeitados e experientes.

"Esse é um grupo bem conhecido e creio que a sua análise e as abordagens estatísticas foram muito boas", afirma Barbara Hulka, professora emérita de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte.

O estudo não explica por que o excesso de peso parece ser um fator positivo no que ser refere à mortalidade, mas Willianson disse que isso pode se dever ao fato de a maioria das pessoas morrer quando são velhas, com mais de 70 anos. Sendo assim, contar com uma camada extra de gordura na velhice parece ser algo que confere proteção, estimulando o crescimento de mais músculos e ossos.

"Esse é o chamado paradoxo da obesidade", afirmou. "Embora o paradoxo seja real, as razões para isso não passam de especulações e conjecturas".

O estudo ocorre apenas 13 meses após diferentes pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças terem publicado um documento no mesmo jornal, assinado pela diretora da instituição, Julie Gerberding, afirmando que a obesidade e o excesso de peso estariam causando 400 mortes extras por ano e que esses fatores superariam o tabagismo como a principal causa de morte prematura possível de ser prevenida.

A conclusão gerou grande barulho, já que os cientistas, especialmente aqueles que estudam as conseqüências do tabagismo, questionaram os métodos utilizados. Em janeiro, os cientistas da agência corrigiram erros computacionais e publicaram uma estimativa revisada de cerca de 365 mil mortes.

Agora, segundo o estudo atual, a obesidade está causando cerca de 111 mil mortes a mais, enquanto que o excesso de peso está prevenindo cerca de 86 mil mortes, o que significa que o saldo de mortes devido à obesidade e ao excesso de peso é de cerca de 25 mil. Enquanto isso o peso abaixo do normal causa cerca de 34 mil mortes por ano.

Dixie Snider, principal diretor de ciência da agência, diz que o órgão não assumirá uma posição a respeito do verdadeiro número de mortes provocadas por obesidade e excesso de peso. "Estamos em um estágio científico muito inicial", justifica.

Donna Stroup, diretora do centro de coordenação para promoção de saúde do Centro de Controle de Doenças, falando pela agência, observou que o estudo anterior utilizou dados e métodos de análise diferentes. "A contagem de mortes não é uma ciência exata", afirmou.

"Quanto às descobertas, sob um ponto de vista científico, elas são um passo à frente", afirmou, mas acrescentou que as doenças vinculadas à obesidade são tão importantes quanto o número de mortes.

"A mortalidade realmente só representa a ponta do iceberg no que se refere à magnitude do problema", afirmou Stroup.

Os pesquisadores que realizaram o estudo dizem que avaliar as mortes devidas à obesidade e ao excesso de peso é algo que se constitui em um desafio estatístico. A idéia é determinar, para cada indivíduo na população, qual seria o risco de morte caso o seu peso fosse normal.

Para as pessoas cujos pesos já estão naquela faixa não haveria alteração no risco de morte. Mas o que acontece com tal risco no caso de pessoas cujos pesos estão acima ou abaixo da faixa normal? A idéia é manter fixos fatores como idade, tabagismo e gênero e perguntar o que aconteceria se apenas o peso mudasse.

Williamson diz que agora que fizeram sua análise, a mensagem, é que talvez as pessoas devessem levar outros fatores em consideração ao decidirem se devem se preocupar com os riscos para a saúde motivados pelo peso.

"Se eu estivesse acima do peso, e eu estou --o meu índice de massa corporal é 28--, e se tivesse uma história na família, um pai que tivesse sofrido um ataque cardíaco aos 52 anos ou um irmão diabético, procuraria perder peso", afirma. "Mas se o meu pai morresse aos 94 anos e minha mãe aos 97, e eu não tivesse nenhuma história de doença crônica na família, talvez não ficasse alarmado".

Barry Glassner, professor de sociologia da Universidade do Sul da Califórnia, tem uma opinião diferente. "A mensagem desse estudo para mim é inequívoca. Aquilo que hoje em dia é oficialmente classificado como excesso de peso, se constitui, na verdade, no peso ideal". Instituto aponta que só a obesidade mórbida causa ameaça grave Danilo Fonseca

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