UOL Notícias Internacional
 

20/04/2005

Mulheres não têm vez na época em que vivemos

The New York Times
Maureen Dowd

Em Washington
NYT Image

Maureen Dowd é colunista
Na queda livre de audiência que vem arrasando os telejornais, a tentativa do ABC News de criar um sucessor para o programa "Nightline", com o âncora Ted Koppel, será vista como um dos momentos mais embaraçosos e divertidos da história da TV.

Uma versão do programa testada recentemente, segundo informou a emissora, foi ambientada numa casa noturna. Havia toalhas de mesa brancas, velas acesas, um quinteto de jazz, um público acomodado em volta de pequenas mesas e --isso não é uma piada-- a sala estava mergulhada numa neblina artificial.

Nós já conhecíamos a neblina da guerra, mas não a neblina das notícias.

Os segmentos testados naquele clube noturno traziam anfitriões e convidados representativos da "geração X" (de 30 a 40 anos de idade), e debates bipartidários sobre Michael Jackson, o "lixo chic" das gêmeos Olsen [jovens atrizes gêmeas] e discursos bombásticos, tão loucos quanto o inferno, eram apresentados ao acaso.

A rede ABC decidiu não dar seqüência ao recurso da máquina de fumaça. Ainda assim, Ted Koppel --que jurou, no ano passado, que ele sairia do "Nightline" antes de ser obrigado a fazer a cobertura dos concursos de "burka molhada"-- deve agora estar se virando no seu país de origem.

Les Moonves, da CBS, chegou a afirmar que, agora que os tempos gloriosos dos Dan, Tom, Peter e Ted da vida estão chegando ao fim, os telespectadores não estão mais interessados nos formatos que impõem um "único âncora na posição de um porta-voz de Deus".

Mas quem imaginava que eles iriam preferir a voz de Frank? Uma voz em rede declamando no mais puro estilo chamativo de Sinatra, que lembrava os bons tempos em que este cantava "one for my baby and one more for the road" (um [drinque] para a minha garota e outro para a estrada)?

Em Washington, na semana passada, Rupert Murdoch confirmou as declarações de Moonves ao dar aos membros da Sociedade Americana dos Editores de Jornais uma série de más notícias sobre jornalismo na era da Internet, dos blogs e da televisão a cabo:

"Os telespectadores não querem ficar dependendo dos telejornais matinais para se manterem atualizados com as notícias. Eles não querem depender de uma figura com aparência divina enviada do além que lhes diga o que é importante. E eles definitivamente não querem notícias apresentadas como se fossem o evangelho".

Com isso, os gigantes da mídia estão descartando o uso de figuras que ditam as notícias com voz divina autoritária e patriarcal, mesmo se os políticos e a Igreja Católica andaram procurando ou se transformando em figuras dotadas de vozes divinas autoritárias e patriarcais.

Nesta terça-feira (19/04), a fumaça branca sinalizou que o Vaticano acredita que o homem de quem ele está precisando para conduzi-lo rumo à modernidade é o papa mais idoso já escolhido desde o século 18: Joseph Ratzinger, um homem arquiconservador, e dos mais convencionais, de 78 anos, que dirigiu a entidade que outrora era chamada de Inquisição, e que numa certa época pertenceu à juventude hitleriana.

Para os católicos americanos --em particular as mulheres e os membros dos movimentos católicos democratas que defendem a liberdade de escolha na questão do aborto-- a brincadeira oficialmente acabou.

Afinal, o cardeal Ratzinger, que já recebeu no passado os apelidos de "Rottweiler de Deus" e de "O Executor", contribuiu para recusar os direitos de comunhão a John Kerry, Tom Daschle e outros políticos católicos durante a eleição de 2004.

O único outro emprego para o qual este papa estaria qualificado seria o de âncora do telejornal "60 Minutes".

O presidente Bush, por muito tempo, deu-se muito bem no papel de "voz de Deus". E agora, Tom DeLay e Bill Frist também estão manipulando por vias escusas os cristãos da extrema direita e os evangélicos ao tentarem induzi-los a acreditar que Deus fala --e age-- também através deles.

A reverência mais sutil de Bush em relação aos evangélicos da direita deixou de ser suficiente; empurrados para o estrelato pelas suas vitórias eleitorais, os cristãos conservadores querem neste momento que os políticos façam abertamente suas genuflexões.

O médico que tenta há algum tempo tornar-se presidente [Bill Frist, presidente do Senado, republicano conservador] está agora ajoelhado, feliz por poder explorar a religião ao fazer um discurso gravado em vídeo, num programa de televisão a ser exibido no próximo domingo, no qual ele descreverá os democratas que bloqueiam as nomeações judiciárias do presidente Bush como sendo autores de um ato dirigido "contra as pessoas de fé".

Um folheto publicitário deste programa de televisão cristão, produzido pelo Conselho de Pesquisas sobre a Família, mostra um jovem adolescente confuso segurando a bíblia com uma mão e um martelo de juiz na outra. O texto explica: "Numa certa época, a obstrução jurídica foi utilizada abusivamente para proteger o preconceito racial, e agora ela está sendo utilizada contra as pessoas de fé".

O "born-again" (novo cristão) Tom DeLay andou lutando contra os seus dissabores éticos agindo como um mártir durante um certo tempo. Bill Frist, ao contrário dele, nunca havia chamado a atenção por ser um político capaz de jogar a carta da religião antes deste caso.

Mas ele está claramente disposto a se transformar em qualquer personagem bíblico e assustador, a partir do momento em que isso o ajudar a marginalizar certos favoritos da direita cristã, tais como Rick Santorum e Sam Brownback, e a angariar o apoio daqueles que sempre votam por verem as eleições como um passo rumo à eternidade.

Até mesmo o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, um republicano com a bíblia na mão, pareceu estar surpreso pela iniciativa espalhafatosa de Frist, o líder da maioria no Senado. Em entrevista à revista semanal "Newsweek", Graham declarou: "Questionar os motivos de um senador desta maneira constitui um precedente muito perigoso".

Além disso, evidentemente, os democratas estão à beira de um ataque de nervos. "Eu não posso imaginar que Deus --com todas as coisas com as quais ele ou ela precisa se preocupar-- vai dedicar parte do seu precioso tempo para debater a obstrução jurídica no paraíso", declarou Richard Durbin, senador por Illinois.

No momento em que eles estão ensaiando novas fórmulas menos dogmáticos, com vários ãncoras, as redes de televisão bem que poderiam se abrir mais para as mulheres. Mas, seja no Vaticano ou nas fileiras políticas dos cristãos de direita, podemos ter certeza de que a voz de Deus não é a de uma mulher. Sinais de fumaça invadiram o nosso noticiário; dos EUA ao Vaticano Jean-Yves de Neufville

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