UOL Notícias Internacional
 

20/04/2005

Países em desenvolvimento esperavam por um papa vindo deles

The New York Times
Larry Rohter*

No Rio de Janeiro
Ainda não foi desta vez. Apesar da maioria dos católicos romanos atualmente viver na América Latina, Ásia e África, aqueles entre os fiéis que estavam abertamente torcendo por um papa de um país em desenvolvimento ficaram desapontados.

James Hill/The New York Times

Freiras brasileiras aguardam na Praça de São Pedro o resultado da eleição do novo papa
Mas tal senso de decepção popular contrastou com o notável entusiasmo com a escolha do cardeal Joseph Ratzinger entre as conferências episcopais de todos os países desta região, que falam em nome dos centenas de bispos da América Latina.

Dominadas pelos conservadores teológicos nomeados pelo papa João Paulo 2º, as conferências podem esperar um maior apoio do Vaticano em seus esforços para responder a dois importantes desafios: o protestantismo evangélico e os resquícios da teologia da libertação.

Na esfera popular, a resposta inicial à escolha de Ratzinger como novo papa foi silenciosa por toda a América Latina, onde vivem 480 milhões dos 1,1 bilhão de católicos do mundo.

As redes de televisão que cobriam o conclave ao vivo de Roma, na expectativa de que alguém da região pudesse ser escolhido papa, rapidamente retornaram à programação normal após o anúncio. Os jornais e emissoras de rádio lembraram que alguns dos apelidos do novo papa eram "Cardeal Não" e "Grande Inquisidor".

"Eles nunca escolheriam um papa da América Latina ou da África", disse Guilherme Marra, um vendedor daqui, lamentando na tarde de terça-feira. "A igreja está parada no tempo", se queixou Marra, 37 anos. "Imagine, eleger um papa radical que é contra camisinhas!"

Mas entre a hierarquia da igreja, pelo menos aqui no Brasil, que tem a maior população católica romana do mundo, a perspectiva de um sucessor ainda mais doutrinário e conservador para João Paulo 2º já animou os tradicionalistas. Na semana passada, por exemplo, dois cardeais criticaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que suas crenças "não são católicas, são caóticas" e que ele "não é um cristão modelo".

Como os líderes da vários outros países latino-americanos, Lula assumiu posições que divergem dos ensinamentos da igreja sobre aborto, homossexualidade, contracepção e pesquisa de células-tronco. A posição inflexível de Ratzinger nestas e outras questões provavelmente aumentará a perspectiva de conflito entre a igreja e o Estado.

Não se sabe como o papa Bento 16 pretende responder ao crescimento do Islã na África e na Ásia, onde ocorreu um grande aumento no número de católicos durante o papado de João Paulo 2º. Mas o rebanho católico nestes lugares tende a ser mais doutrinariamente conservador do que na América Latina, e expressou menos reservas sobre a escolha de Ratzinger.

"Você precisa de um homem de valores", disse Alfred Jantjies, um motorista de caminhão sul-africano. "Não é bom ter um homem na igreja que permita a entrada de idéias erradas, como a ordenação de mulheres ou que padres se casem. Um homem de Deus deve saber que optou por uma vida difícil e se ater a ela sem tentar ser moderno. O novo papa parece um homem que entende o que funcionou no passado e não tentará mudar."

Nos dias que antecederam o conclave, alguns padres e bispos na América Latina tornaram públicas suas dúvidas sobre a disposição de Ratzinger de promover mudanças que consideram necessárias à igreja. Como braço direito de João Paulo 2º, ele foi freqüentemente visto como porta-bandeira do que alguns críticos na região estão chamando de "wojtylismo sem Wojtyla", uma referência a Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo 2º.

"Eu não acho que ele tem o carisma de João Paulo 2º com as massas, porque ele sempre foi um intelectual", disse o padre Jesus Vergara, diretor geral do Centro Tata Vasco, uma instituição jesuíta na Cidade do México.

"Por exemplo, as viagens de João Paulo 2º pela América Latina. Bem, a América Latina sentirá muito pesar porque eu não acho que Ratzinger tem a personalidade para conquistar a maioria das pessoas na América Latina como fez João Paulo."

Como líder da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger é bastante conhecido de todos cardeais, bispos e muitos padres. Nesta condição, ele teve um papel importante na supressão da teologia da libertação, que extrai do marxismo sua busca por uma igreja que faz "uma opção preferencial pelos pobres" e transforma estruturas injustas que perpetuam a desigualdade social e a pobreza.

"Me parece que precisamos não de uma teologia da libertação, mas de uma teologia do martírio", disse ele em 1997.

Em 1984, por exemplo, foi Ratzinger que supervisionou o decreto do Vaticano que forçou o teólogo brasileiro Leonardo Boff, o frei franciscano e um dos criadores da teologia da libertação, a um silêncio "por período oportuno".

Boff, um ex-aluno de Ratzinger, foi considerado carente de "serenidade" e "moderação" em seus escritos, que foram considerados guiados não pela fé, mas por "princípios de natureza ideológica".

Boff, que renunciou como clérigo em 1992 e ensina teologia e ética em uma universidade estadual daqui, queixou-se do que chamou de "arrogância e fundamentalismo doutrinário" de João Paulo 2º.

Mas ele é um crítico ainda maior de Ratzinger, o descrevendo em um recente ensaio como "o exterminador do futuro do ecumenismo" e "a expressão petrificada" do domínio da cúria romana dentro da igreja.

Com Ratzinger no comando da igreja, os conservadores podem esperar um apoio ainda maior a movimentos como o Opus Dei, um movimento conservador de clérigos e leigos, e Comunhão e Liberação, que é forte em locais como Chile e Peru. Em 2001, João Paulo 2º nomeou o primeiro membro do Opus Dei a se tornar cardeal, Juan Luis Cipriani Thorne de Lima, e sete dos bispos daquele país também pertencem ao Opus Dei.

O bispo Raul Vera de Saltillo, que nos anos 90 praticou a teologia da libertação no sul do México e que foi criticado pelo papa João Paulo 2º, disse que os cardeais fizeram uma escolha segura e ignoraram a confusão nas Américas sobre qual direção a igreja está seguindo.

"Os cardeais estavam pensando na segurança", disse ele. "E também estavam pensando em alguém que completaria o papado de João Paulo 2º."

O novo papa também estará sob pressão do clero conservador e dos leigos para tentar conter o avanço do protestantismo evangélico, que está em marcha por toda a América Latina. Aqui no Brasil, por exemplo, o percentual de pessoas que se declaram católicas caiu de mais de 90% em 1970 para quase 70%, com um aumento correspondente no número de protestantes.

Não apenas Ratzinger tem criticado o protestantismo com base doutrinária, mas também tem acusado o Conselho Mundial de Igrejas de "fazer mal à vida do evangelho" ao oferecer assistência financeira ao que chamou de "movimentos subversivos" na América Latina. Embora isto possa animar os conservadores na igreja, também poderá aumentar as tensões.

"Para aqueles à procura de um controle forte, centralizado, uma igreja ortodoxa concentrada na ortodoxia da fé, eu acho que tais pessoas ficarão contentes", disse o bispo Kevin Dowling, um membro da Conferência dos Bispos Sul-Africanos. "Para as pessoas que estão procurando por uma igreja aberta ao debate, discussão e reflexão de algumas das questões cruciais dos tempos modernos", ele acrescentou, "tais pessoas poderão se preocupar".

*Colaboraram Michael Wines, em Johannesburgo, África do Sul, e James C. McKinley Jr. na Cidade do México. Elite religiosa comemora enquanto o público reage sem entusiasmo George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host