UOL Notícias Internacional
 

21/04/2005

Temores de inflação derrubam ações e aumentam preocupações nos EUA

The New York Times
Jonathan Fuerbringer e Louis Uchitelle

Em Nova York
Os temores de alta da inflação fizeram as ações atingirem novas baixas para o ano nesta quarta-feira (20/04), após o governo ter informado um aumento acentuado nos preços ao consumidor, o que praticamente garante que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, continuará elevando as taxas de juros apesar da economia parecer estar desacelerando.

Na semana passada, os investidores estavam preocupados com o impacto do crescimento econômico mais baixo nos ganhos corporativos. A adição dos temores de inflação na mistura poderá colocar os nervos em Wall Street ainda mais no limite.

O aumento de 0,6% no índice de preços ao consumidor foi o maior em cinco meses, informou o governo. O salto de 0,4% no núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, foi o dobro do previsto por analistas e o maior aumento mensal em quase quatro anos.

Apesar de alguns economistas terem previsto que a inflação deverá se tornar mais moderada nos próximos meses, os custos mais altos de energia têm pressionado constantemente para o alto os preços ao consumidor, de forma que têm mantido uma taxa de 3% ou mais por vários meses.

Na região metropolitana de Nova York, a inflação foi consideravelmente mais alta, aumentando 1,7% em março, no maior aumento mês a mês em 23 anos.

As ações caíram ainda mais na tarde, depois da divulgação pelo Fed de seu sumário da atividade econômica por todo o país. O principal tema do relatório foi que as pressões de custo têm aumentado e que as empresas os têm repassado na forma de preços mais altos.

Com a inflação se aproximando do topo do que os autores de política do Fed consideram aceitável, disseram os analistas, eles poderão não ter muita escolha a não ser continuar elevando as taxas ainda mais, mesmo se tais ações ameaçarem desacelerar ainda mais a atividade econômica.

"A notícia decepcionante da inflação sugere que o Fed agora terá que ver algo mais dramático na fraqueza econômica para considerar uma pausa" na elevação dos juros, disse Robert J. Barbera, economista-chefe da ITG/Hoenig, uma corretora em Rye Brook, um subúrbio de Nova York.

O baixo crescimento e os preços em alta foram uma característica dos anos 70 e foi chamada de estagflação. Apesar de ninguém estar dizendo que a economia enfrenta tal mal no momento, mesmo um indício de estagflação torna o trabalho do Fed mais difícil.

"Isto dificultará para eles se quiserem agir de forma mais agressiva na elevação das taxas de juros, porque poderão ser acusados de colocar em risco a recuperação econômica", disse Barbera.

A queda nas ações na quarta-feira colocou um fim a uma pausa de dois dias depois das ações terem despencado por três dias consecutivos na semana passada, de quarta-feira até sexta-feira, e terem sofrido sua pior semana desde agosto.

Com a queda de 1,1% na quarta-feira, o índice industrial Dow Jones agora perdeu toda a alta de 9% que acumulou do dia seguinte à eleição presidencial até 4 de março, quando o Dow atingiu seu ponto mais alto de 2005, restando apenas 59 pontos para 11 mil. Após perder na quarta-feira 115,05 pontos, fechando a 10.012,36, ele está agora correndo o risco de ficar abaixo de 10 mil.

O índice mais amplo Standard & Poor's 500 caiu 15,28 pontos, ou 1,3%, fechando a 1.137,50, o colocando apenas sete pontos acima do patamar que estava no dia da eleição. O índice composto Nasdaq caiu 18,60 pontos, ou 1%, fechando a 1.913,76, e está no patamar que se encontrava em meados de outubro, muito antes da alta pós-eleição.

As vendas na tarde foram altas o suficiente para superar a performance de ações que informaram ganhos surpreendentemente bons no primeiro trimestre, incluindo a Intel e Caterpillar. Muitos investidores estavam esperando que os ganhos acima do esperado de várias empresas referenciais ajudariam na recuperação geral do mercado de ações.

A Intel, que informou após o fechamento do mercado na terça-feira que seus lucros saltaram 25%, teve alta de até 3,4% no início do pregão, mas fechou com uma alta de apenas 3 centavos, ou 0,1%, a US$ 22,66. A Caterpillar, cujos ganhos incharam em 38% no primeiro trimestre, chegou a apresentar alta de até 6,1%, mas fechou com um ganho de US$ 3,09, ou 3,6%, a US$ 88,04. Após o fechamento do mercado, o eBay informou outro forte ganho trimestral de 28%.

Para milhões de investidores, os novos números da inflação dificultam ainda mais a previsão do que ocorrerá com a economia, as ações e as taxas de juros.

"Eu acho que está muito confuso", disse Henry Herrmann, diretor chefe de investimento da Waddell & Reed, em Overland Park, Kansas. Parece que "o mercado de ações acredita que a inflação levará o Federal Reserve a reagir fortemente", ele acrescentou, aumentando suas taxas de juros de curto prazo tão agressivamente que o crescimento econômico sofrerá demais.

Espera-se que os autores de política do Fed aumentem as taxas de juros de curto prazo que controlam para 3% em sua reunião de 4 de maio, naquele que seria o oitavo aumento de um quarto de ponto percentual consecutivo em menos de um ano.

A reação do mercado de títulos diante da notícia da inflação também pode ser confusa para os investidores, porque os temores de inflação geralmente derrubam o preços dos títulos e aumenta os rendimentos. Após uma queda inicial, os preços do título de 10 anos do Tesouro se recuperaram. Já o rendimento, que se move na direção oposta, caiu para 4,19%, em comparação a 4,21% na terça-feira.

"As pessoas estão preocupadas com as ações e o remendo na economia, e você está tendo uma fuga para a qualidade", disse Scott Gewirtz, co-chefe de comércio de títulos de governo do Deutsche Bank.

Indícios de um leve enfraquecimento na economia --as fracas vendas de automóveis, a queda nas vendas no varejo, os salários ainda perdendo terreno para a inflação, o crescimento do emprego abaixo do esperado- têm feito muitos previsores reduzirem suas expectativas de crescimento econômico para uma taxa anual entre 3% e 3,4% no segundo trimestre, em comparação a 3,8% no quarto trimestre.

"Se tem algo apertando os orçamentos familiares no momento, é a experiência diária nos postos de gasolina", disse Jared Bernstein, um economista sênior do Instituto de Política Econômica. "Isto afeta os orçamentos das famílias mais do que as taxas de juros. E se estão gastando mais nos postos, elas terão que gastar menos em outros lugares."

Na quarta-feira, o preço do óleo cru na Bolsa Mercantil de Nova York, para entrega em junho, subiu 46 centavos, ou 0,9%, fechando a US$ 54,03 o barril, próximo de sua alta recorde. Apesar dos preços do petróleo não estarem incluídos no núcleo da taxa de inflação, eles parecem ser um fator que está contribuindo para o aumento dos outros preços.

"A tendência é de alta e isto se deve ao aumento do petróleo", disse Nigel Gault, economista doméstico chefe da Global Insight.

Mesmo assim, o aumento de 0,4% do mês passado no núcleo da taxa pode não ser tão ameaçador como parecia à primeira vista, por causa de aberrações sazonais.

Outro fator importante que contribuiu foi um aumento acentuado dos preços das diárias de hotel, talvez porque o feriado da Páscoa caiu em março; de forma semelhante, um grande salto nos preços de vestuário na primavera também pode ter sido afetado pela data do feriado. Nenhuma destas altas deverá se repetir em abril.

Mas a taxa de inflação mais ampla não demonstra sinal de estar diminuindo. Metade do aumento no índice geral se deve ao aumento dos preços da gasolina, disse o Birô de Estatísticas do Trabalho. O galão custava em média US$ 2.09, em comparação a US$ 1,91 em fevereiro, segundo pesquisas do Departamento de Energia, e na primeira metade de abril a média subiu novamente, para US$ 2,24 o galão, prevendo ainda outro forte aumento no índice de preços ao consumidor.

Para os 12 meses concluídos em março, a taxa de inflação geral para os consumidores foi de 3,1%, em comparação a 2,5% em setembro passado e 1,7% em março de 2004.

O núcleo do índice de preços ao consumidor também subiu, apesar de mais lentamente, para 2,3% no ano encerrado no mês passado, em comparação a 2% em setembro passado e 1,6% em março do ano passado. Para analistas, pressão inflacionária fará Fed ampliar taxa de juros George El Khouri Andolfato

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