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22/04/2005

Guerra não é assunto de campanha no Reino Unido, mas não para os muçulmanos

The New York Times
Alan Cowell
Em Birmingham, Inglaterra
A guerra no Iraque levou Salma Yaqoob à vida pública e, com a eleição do próximo mês, a política deste mesmo conflito poderá significar o vai ou racha para seu sonho de mantê-la.

Antes uma líder da campanha pacifista Pare a Guerra, Yaqoob agora faz parte de um punhado de candidatos que enfrenta a poderosa máquina eleitoral dos trabalhistas em nome do minúsculo movimento nascente chamado Respeito - que explora o sentimento antiguerra que tomou muitos britânicos antes do conflito em 2003 e que permanece na profunda desconfiança nutrida por muitos eleitores em relação ao primeiro-ministro Tony Blair.

Mas à medida que a eleição de 5 de maio se aproxima, com Blair liderando nas pesquisas de opinião, a guerra no Iraque passou a ocupar uma posição ambígua. Os estragos que a guerra causou na credibilidade de Blair transformaram a confiança no primeiro-ministro em um assunto em todo o Reino Unido. Mas a oposição à guerra em si, o que mobiliza particularmente Yaqoob e muitos de seus companheiros muçulmanos, é raramente mencionada pelos principais candidatos ao poder durante a campanha.

A oposição conservadora, liderada por Michael Howard, apoiou a invasão e portanto não pode explorá-la politicamente. E os liberais democratas antiguerra não têm se esforçado para explorar a questão.

"Nesta eleição a guerra está em toda parte e em lugar nenhum", disse o colunista Jonathan Freedland no jornal antiguerra "The Guardian", comparando a eleição britânica com as do ano passado na Espanha e nos Estados Unidos. "Enquanto José Maria Aznar e George Bush eram atacados pelos seus rivais eleitorais por causa do conflito, Tony Blair desfruta de passe livre por parte de seu principal rival, Michael Howard. O Iraque não é exatamente o principal item de qualquer um dos principais manifestos partidários."

Ou, como Yaqoob colocou em uma entrevista em seu lar suburbano, "é o elefante na sala". A campanha dela aqui nas Midlands britânicas tem uma característica especial. O distrito dela, chamado Birmingham Sparkbrook e Small Heath, tem 27 mil eleitores muçulmanos, quase metade do eleitorado, lhe dando uma das maiores concentrações de muçulmanos entre os 646 distritos eleitorais em disputa, segundo especialistas. Mas o distrito também tem a sexta mais ampla maioria trabalhista do país -16.246 votos. Apesar de pequena, a disputa aqui oferecerá um teste para a capacidade de Blair de evitar a punição política entre a população muçulmana da Grã-Bretanha por ordenar o envio das tropas britânicas do Iraque como aliadas dos americanos.

"Onde quer que haja uma forte população muçulmana, Tony Blair perderá", disse Mohammed Naseem, presidente da Mesquita Central de Birmingham. Naseem também apóia o movimento Respeito, que é liderado em Londres por um ex-legislador trabalhista independente, George Galloway, que se encontrou duas vezes com Saddam Hussein no Iraque pré-guerra.

Mas igualmente importante, a eleição aqui reflete uma disputa entre os mais de 1,6 milhão de muçulmanos da Grã-Bretanha -menos de 3% da população- uma entre uma primeira geração de imigrantes, mais velha, que geralmente apóia o Partido Trabalhista, e seus filhos mais jovens, mais assertivos, nascidos e criados na Grã-Bretanha.

"Meu pai sempre votou nos trabalhistas, mas a guerra no Iraque mudou a opinião de todos", disse Farrah Zaman, 37 anos, uma dona de casa muçulmana nascida na Grã-Bretanha e que usa o lenço que cobre toda sua cabeça, exceto os olhos.

"Tony Blair enviou as tropas ao Iraque, e ele disse inflexivelmente que acredita ter feito a coisa certa, mas não posso deixar de pensar em quantas pessoas inocentes foram mortas", disse ela. "Ele sempre disse que nunca fez nada errado, mas eles nunca encontraram as armas de destruição em massa", cuja existência -a base do argumento de Blair para a derrubada de Saddam Hussein- nunca foi provada.

Como outras pessoas entrevistadas para este artigo, Zaman preferiu se estender no número de mortos na guerra -que ela e outros aqui disseram ser, sem oferecer provas, 100 mil. Blair, como o presidente Bush, prefere lembrar os céticos de que a invasão colocou um fim às atrocidades de Saddam Hussein, que, segundo seus relatos, custaram mais vidas do que a ação militar aliada.

Na área pobre de Sparkbrook de Birmingham, a influência muçulmana é evidente nas lojas de alimentos e livrarias islâmicas, nos mantos negros e lenços de cabeça pretos das mulheres. Ao longo das décadas, ondas de imigrantes trouxeram pessoas para cá, predominantemente da Caxemira e do Afeganistão, e mais recentemente da Somália. Muitos são mulheres.

"Pela primeira vez você tem jovens britânicas vestindo o hijab", disse Parwez Hussain, 32 anos, administrador de um site educacional, se referindo ao lenço de cabeça islâmico que cobre o cabelo e o pescoço das mulheres e reflete a devoção islâmica. "Metade dos eleitores são mulheres", disse ele. "Você não sabe o que elas vão fazer. Historicamente as mulheres não se envolvem. Agora elas correspondem a metade das pessoas presentes nos comícios políticos."

Mas isto poderá não significar algo como uma derrota completa para Blair nesta região crítica. "Quem vence nas Midlands vencerá na Grã-Bretanha", disse Robert Waller, co-autor do Almanaque da Política Britânica, uma obra de referência. Mas para vencer, os adversários de Blair precisarão de uma margem imensa e aparentemente improvável a seu favor.

Além disso, a oposição, está dividida de muitas formas. "Não há um bloco monolítico" entre os eleitores muçulmanos, disse Yaqoob, uma psicoterapeuta de 33 anos que está buscando aumentar o número de muçulmanos no Parlamento britânico além dos atuais dois. Ela não é a única buscando isto.

O Partido Liberal Democrata de oposição, que se opôs ao envio de tropas britânicas ao Iraque, já lançou seu próprio candidato muçulmano no distrito dela, Talib Hussain, que abandonou o Partido Trabalhista. Alguns acreditam que com raízes mais profundas e maior organização, os liberais democratas conquistarão os votos dos muçulmanos descontentes.

"É uma decisão difícil", disse Ibrahim Versani, um médico que disse que votou nos trabalhistas em 2001 mas que não fará o mesmo em 2005, porque o governo de Blair ignorou a ampla oposição à guerra no Iraque.

"Há muita simpatia pelo Respeito na questão antiguerra", disse ele, "mas eu suspeito que não são fortes o bastante em outras questões -como empregos e economia".

Há também um certo rancor com o fato do voto muçulmano estar tão dividido. Hussain, o candidato liberal democrata, acusou o Respeito de "ajudar os trabalhistas" ao dividir a lealdade dos muçulmanos.

O beneficiário potencial é Roger Godsiff, o candidato trabalhista eleito pela primeira vez 12 anos atrás, que tem mantido o domínio dos trabalhistas aqui.

Godsiff, que não é muçulmano, parece estar calculando que, independente das esperanças de rebeldes como Yaqoob, os laços tradicionais dos muçulmano com os trabalhistas prevalecerão. "A forma como o sistema funciona é que você conversa com a comunidade, você conversa com grupos, grupos grandes, grupos pequenos, particularmente com os homens, e eles levam a mensagem para suas famílias estendidas", disse ele.

Há, é claro, distinções muito mais amplas dentro do Islã britânico como um todo. Na terça-feira, militantes islâmicos invadiram uma coletiva de imprensa em Londres realizada por representantes do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, a maior organização muçulmana do país, e distribuíram panfletos dizendo: "Votar em qualquer partido político garantirá a você um lugar no fogo do inferno para sempre".

Mais tarde no mesmo dia, pessoas do mesmo grupo militante entraram violentamente em confronto com os seguidores de Galloway, o líder do Respeito no leste de Londres, dizendo que não era islâmico votar e que quem o fizer se tornará um infiel.

Alguns líderes muçulmanos disseram que isto aponta para uma maior divisão entre gerações. Ali Miraj, um candidato conservador em Watford, norte de Londres, disse aos repórteres que os muçulmanos mais jovens estão impacientes com a liderança central. "Eles querem algum tipo de Estado islâmico, algum tipo de ideal utópico", disse ele. George El Khouri Andolfato

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