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23/04/2005

Como cardeal, Ratzinger esteve no centro dos escândalos de abusos sexuais

The New York Times
Laurie Goodstein

No Vaticano
No decorrer dos últimos quatro anos, o homem que agora é o papa Bento 16 teve mais responsabilidade do que qualquer outro cardeal no Vaticano na hora de decidir se disciplinava os padres católicos acusados de cometerem abusos sexuais contra crianças e adolescentes, e como fazê-lo.

Nas manhãs de sexta-feira, o cardeal Joseph Ratzinger se sentava em frente à sua mesa de trabalho na Congregação para a Doutrina da Fé, examinando dossiês que detalhavam alegações de abusos enviadas por bispos de todo o mundo, segundo duas autoridades graduadas do Vaticano. Ele achou os casos tão perturbadores que chamou o trabalho de "nossa penitência de sexta-feira".

O escândalo dos abusos sexuais mudou a igreja nos Estados Unidos, e pode também ter modificado o papa Bento 16. Quando o escândalo crescia como uma bola de neve em 2002, o então cardeal Ratzinger estava entre as várias autoridades do Vaticano cujos comentários pareciam minimizar o problema.

"Nos Estados Unidos, há notícias constantes sobre esse tópico, mas menos de 1% dos padres são culpados de atos dessa natureza", disse ele em novembro de 2002, durante uma visita a uma Universidade Católica na Espanha. "Portanto, chega-se à conclusão de que o fato é intencional, manipulado, e que existe o desejo de desacreditar a igreja".

Mas à medida que os casos passaram a inundar o seu escritório, ele descobriu gradualmente que o problema era mais amplo e profundo, segundo entrevistas feitas com os seus companheiros de trabalho, autoridades norte-americanas da igreja e o chefe da delegação leiga norte-americana que o visitou aqui em Roma para discutir a crise dos abusos sexuais.

"Se existe algum papa que sabe sobre o que está falando quando se refere a esse problema, esse papa é o cardeal Ratzinger", disse o monsenhor Charles J. Scicluna, promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé.

"Tivemos que examinar os casos, e o fato de perceber o mau causado por esses comportamentos impróprios foi obviamente uma grande fonte de sofrimento espiritual e moral para ele".

É impossível examinar os registros referentes a Ratzinger. Os julgamentos são secretos, e de acordo com regras antigas, a Congregação e os seus membros não divulgam qualquer informação sobre casos específicos, sobre o número de casos considerados, ou sobre como se lidou com esses casos. Se um padre foi expulso ou disciplinado de qualquer outra maneira, a informação só se torna pública se um bispo decidir divulgá-la.

Em dezembro do ano passado, a Congregação reabriu um caso particularmente famoso, contra o reverendo Marcial Maciel, o idoso fundador dos Legionários de Cristo. Maciel é acusado de ter abusado de oito homens, há anos, quando estes eram jovens padres do quadro dos legionários. Alguns deles tentaram durante anos fazer com que a Congregação examinasse o caso.

David Clohessy, diretor nacional da Rede dos Sobreviventes Vítimas de Abusos de Padres, criticou Ratzinger por ter magoado tantas vítimas com os seus comentários feitos em 2002. Mas Clohessy também o elogiou por ter reaberto o caso Maciel. "Isso se constituiu, na verdade, em ação, e não em palavras. Assim, queremos dar-lhe crédito quando tal crédito existe", afirmou.

Uma mudança nas regras da igreja em 2001, antes da explosão do escândalo dos abusos nos Estados Unidos, redirecionou os casos de abuso para a Congregação e fez de Ratzinger, efetivamente, o principal juiz, segundo o reverendo Augustus Di Noia, autoridade graduada da Congregação, falando em uma recente conferência na Pontifícia Universidade Norte-Americana, em Roma.

Antes disso, a avaliação dos casos ficava em grande parte a cargo da "Roman Rota", uma equipe de advogados canônicos do Vaticano que examina vários outros tipos de casos.

"Nos tornamos especialistas. Atualmente sabemos mais sobre esses problemas do que qualquer pessoa no mundo, porque estudamos caso por caso", explica Di Noia.

O processo de avaliação dos casos é lento, e algumas vítimas de abuso reclamam que após serem entrevistadas por um investigador da igreja e o caso ser enviado à Congregação, nunca mais ouviram qualquer palavra da igreja.

Mas outras vítimas disseram ter ficado satisfeitas quando souberam, por meio das suas dioceses locais, que o padre que cometeu abuso contra eles havia sido expulso --o termo na igreja é laicizado. Somente o papa pode laicizar um padre, segundo autoridades da igreja. Um padre pode também ser disciplinado de outras maneiras, como ser obrigado a passar o resto da sua vida em orações e penitências.

No decorrer do escândalo norte-americano de abusos sexuais, várias vítimas e seus aliados acabaram acreditando que o Vaticano orquestrou uma ampla operação de ocultação da verdade. As acusações aumentaram depois que autoridades do Vaticano ordenaram mudanças na "carta" que os bispos norte-americanos aprovaram na sua reunião em Dallas, em 2002, instruindo os bispos a removerem qualquer clérigo que abusasse de um jovem.

Mas o quadro mais acurado pode ser aquele segundo o qual Ratzinger e outras autoridades do Vaticano estavam simplesmente fora de contato com a realidade, diz a juíza Anne Burke, que atua em um tribunal de apelações de Illinois.

Ela e um grupo de leigos católicos proeminentes foram nomeados pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos para trabalharem em um Comitê de Revisão Nacional a fim de examinarem as causas dos escândalos provocados por abusos sexuais e apresentarem recomendações.

O comitê tentou entrar em contato com autoridades do Vaticano por meio do núncio papal, o representante do vaticano em Washington D.C., mas, segundo Burke, este nunca respondeu.

Assim, Burke fez uma pesquisa na Internet, descobriu os números de fax de dez departamentos relevantes no Vaticano e enviou a estes uma solicitação enérgica de reunião. Ela recebeu a resposta de sete dos departamentos, e em dezembro de 2003, ela e dois outros integrantes do comitê viajaram ao Vaticano para uma série de reuniões.

Quando retornaram aos Estados Unidos, ela encontrou uma mensagem de fax de Ratzinger, convidando-os a retornarem a Roma a fim de se reunirem com ele. Em 25 de janeiro, ela e dois outros membros --o juiz de Washington, Robert Bennett, e o executivo do setor de publicidade William Burleigh-- retornaram ao Vaticano.

Os três norte-americanos falaram a Ratzinger e a cinco dos seus principais assessores sobre as proporções assumidas pelo escândalo dos padres nos Estados Unidos, e forneceram-lhes informações que segundo ela o cardeal nunca recebeu dos bispos norte-americanos --embora ela tenha se recusado a especificar do que se tratava.

Eles falaram sobre maneiras de prevenir mais abusos, incluindo a proposta de que os bispos responsabilizem uns aos outros, a melhor avaliação dos candidatos ao sacerdócio e a melhora do currículo nos seminários católicos.

Um mês mais tarde, em Washington, o Comitê de Revisão divulgou um estudo inédito que encomendou a pesquisadores da Faculdade de Justiça Criminal John Jay, que revelou que mais de 4.000 padres em um período de 52 anos foram acusados de abusarem de 10 mil jovens --um índice de cerca de 4%. Segundo ela, uma das primeiras pessoas a receber uma cópia do relatório foi Ratzinger.

"Tenho uma grande esperança", disse Burke. "Primeiramente, ele é uma pessoa que sabe ouvir. Agora temos um papa que conta com informações diretas de três pessoas comuns sobre a gravidade da crise dos abusos sexuais. Ele manterá essas informações sempre consigo". Ela disse que também está otimista porque o atual papa aceitou o envolvimento de leigos católicos.

Segundo Scicluna, Ratzinger não repudiou os comentários que fez em 2002, mas revisou a sua avaliação. "Aprendemos a colocar as coisas em seu contexto. Creio que agora somos mais cuidadosos com números", afirmou.

Antes de se tornar papa, Ratzinger já indicava a sua receita para lidar com a tragédia dos abusos sexuais na igreja: avaliação mais cuidadosa dos candidatos ao sacerdócio e melhor "formação" dos estudantes nos seminários, especialmente quando se trata de preparar padres para vidas de celibato.

"Após se deparar com tantos casos, a pessoa acaba vinculando essa tragédia à ausência de uma doutrina clara", afirma Scicluna. Papa participou de investigações sobre padres pedófilos dos EUA Danilo Fonseca

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