UOL Notícias Internacional
 

23/04/2005

Premiê pede desculpas por crimes cometidos pelo Japão na Segunda Guerra Mundial

The New York Times
Raymond Bonner, em Jacarta (Indonésia), e

Norimitsu Onishi, em Tóquio (Japão)
O primeiro-ministro nipônico, Junichiro Koizumi, apresentou nesta sexta-feira (22/04) o pedido oficial de desculpas mais categórico dos últimos dez anos em relação às agressões que foram cometidas pelo Japão contra vários países asiáticos durante a época da Segunda Guerra Mundial.

Aparentemente, esta intervenção tem por objetivo de pressionar o principal líder chinês a se reunir com ele, e desmentir as acusações segundo as quais o Japão teria ocultado e censurado a vocação militarista que o movia no passado.

Em discurso durante uma cúpula que reuniu vários dirigentes de países da Ásia e da África, em Jacarta, quando estava presente o presidente Hu Jintao, da China, assim como outros líderes mundiais, Junichiro Koizumi afirmou: "No passado, o Japão, por meio da sua administração e das suas agressões coloniais, provocou danos e sofrimentos tremendos aos povos de muitos países, e particularmente aos das nações asiáticas".

Sem especificar nominalmente qualquer país, ele acrescentou: "O Japão hoje encara estes fatos da história com um espírito de humildade. E movido por um sentimento de profundo remorso, e com um pedido de desculpas sinceras sempre presentes no seu espírito, o Japão manteve constantemente a resolução, desde o final da Segunda Guerra Mundial, de nunca mais voltar a ser uma potência militar, e sim uma potência econômica".

O pedido de desculpas não acrescentou nada diferente às declarações que os predecessores de Koizumi ou ele mesmo já haviam feito anteriormente.

Mas esta intervenção ocorre na esteira de uma onda de violentas demonstrações anti-japonesas na China, e por iniciativa de um primeiro-ministro que atraiu a antipatia da China ao rezar todos os anos no santuário de Yasukuni, um local considerado por muitos asiáticos como um símbolo de militarismo impenitente, mas que, para muitos japoneses, é simplesmente um espaço religioso para reverenciar os mortos.

Além de tudo, este pedido de desculpas foi feito por ocasião de um fórum público, perante líderes mundiais, em circunstâncias bastante diferentes daquelas que cercaram as mais recentes manifestações desse tipo, realizadas somente no Japão.

Aqui, na Indonésia, os asiáticos, que vinham acusando há muito os japoneses de manterem panos quentes sobre esta questão, receberam o pedido de desculpas com ceticismo. Essas dúvidas ficaram ainda mais evidentes quando, no final da tarde desta sexta-feira, um membro do ministério de Koizumi, junto com 80 deputados, participou de um ritual de preces primaveril no santuário de Yasukuni, onde há criminosos de guerra entre as personalidades enterradas.

O fato de Koizumi "ter tomado esta atitude no quadro desta cúpula é louvável; e nós recebemos este pedido de desculpas como tal", declarou Kong Quan, um porta-voz do ministro das Relações exteriores da China, durante uma coletiva de imprensa em Jacarta.

"Mas o fato de pedir desculpas representa apenas um aspecto da questão. O que é muito mais importante é a ação. É preciso transformar este sentimento em realidade".

Nos bastidores desta conferência de cúpula em Jacarta, o Japão pediu oficialmente para que seja agendada uma reunião entre Koizumi e Hu, a qual deveria provavelmente ocorrer neste sábado (23).

A China ainda não respondeu. O pedido de desculpas abriu para os chineses a possibilidade de aceitarem este convite sem perder a face e, nesta competição em que está em jogo a imagem pública de cada um destes países, também tornou difícil para eles recusarem tal encontro.

Simultaneamente, em reuniões sucessivas com os jornalistas em Jacarta, vários funcionários do ministério japonês das Relações Exteriores trataram de dissipar as críticas. Shinichi Nishimiya, o vice-diretor-geral para os assuntos das regiões asiática e oceânica, explicou que o pedido de desculpas de Junichiro Koizumi havia sido planejado "meses atrás, e não apenas dias atrás".

Ao insistirem sobre o fato de que os pedido de desculpas não havia sido apresentado em resposta aos recentes eventos na China, os funcionários do governo japonês tentaram evitar que predomine a impressão, especialmente no Japão, de que eles estavam fazendo concessões de qualquer maneira aos chineses.

Na noite de sexta-feira, os meios de comunicação japoneses andaram repercutindo a posição oficial do seu governo segundo a qual o pedido de desculpas não havia sido apresentado em resposta às recentes manifestações iradas que ocorreram na China e na Coréia do Sul, as quais haviam sido motivadas pela publicação no Japão de livros escolares de história que passam sob silêncio certos fatos ocorridos durante a época da guerra, tais como o Massacre de Nanking.

Caso a reunião entre Koizumi e Hu for mesmo ocorrer, a questão do santuário de Yasukuni muito provavelmente deverá ser abordada, assim como aconteceu durante um encontro informal entre estes mesmos dirigentes durante a conferência pela cooperação econômica dos países da Ásia e do Pacífico, que foi realizada em Santiago, no Chile, em novembro. Naquela oportunidade, Hu havia pedido a Koizumi para se abster de visitar o santuário, e, de fato, ele não o visitou até agora neste ano.

"Para Koizumi, este discurso já representava um passo a frente, mas a China vai provavelmente pedir ao Japão para dar mais um passo no que diz respeito à questão do santuário de Yasukuni", avalia Kazuko Mori, um professor de política chinesa da universidade Waseda em Tóquio.

"O problema vai se transformar numa questão realmente delicada se Koizumi disser que ele não visitará o santuário de Yasukuni. Tal atitude seria muito mal recebida no Japão, e principalmente se ele desistisse oficialmente de visitar este templo em função das demonstrações anti-Japão ou por causa de outras formas de pressão externas".

Apesar dos pedidos de desculpas repetidos que foram feitos pelo Japão ao longo dos anos, várias ações, que incluíram as visitas ao santuário de Yasukuni e a tendência crescente, encontrada nos manuais escolares japoneses, a menosprezar ou passar sob silêncio a invasão e a ocupação, pelo Japão, do continente asiático andaram alimentando o ceticismo em relação à sinceridade dos japoneses.

"O arrependimento em relação às exações cometidas no passado precisa ser sincero concretizado por meio de ações", comentou Lee Hae-chan, o primeiro-ministro sul-coreano, num discurso que ele pronunciou durante esta cúpula de governos em Jacarta, algumas horas depois da intervenção de Koizumi.

Enquanto o Japão está tentando adquirir uma maior estatura internacional como parte de um esforço para conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, quando este for ampliado, a sua disputa com a China chamou as atenções de maneira indesejada para o seu passado problemático.

Vários protestos contra o Japão ocorreram também na Coréia do Sul e no Vietnã, enquanto dirigentes políticos de países tais como a Malásia e a Indonésia emitiram comentários críticos em relação a este país.

Antes do discurso que Koizumi pronunciou nesta sexta-feira, Cingapura, que havia sido ocupada pelas forças japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, divulgou uma nota criticando o endosso pelo governo japonês dos manuais escolares de história, o que "constitui uma aprovação desta interpretação bastante estranha da Guerra do Pacífico que se alastrou pela Ásia". Mais tarde, os dirigentes de Cingapura divulgaram uma outra nota louvando o pedido de desculpas de Koizumi.

Enquanto a rivalidade crescente entre o Japão e a China no sentido de aumentarem a sua influência respectiva na Ásia está cada vez mais evidente por trás de suas disputas, a sua crescente interdependência econômica alterou as suas posições nos últimos dias.

No Japão, foram ouvidos muitos comentários ao longo desta semana, alertando para o fato de que as tensões constantes que foram verificadas nos últimos tempos podem no curto prazo prejudicar os negócios e interesses japoneses na China, que é hoje o maior parceiro comercial do Japão.

Na sexta-feira, o ministro do comércio da China afirmou que um eventual boicote dos produtos japoneses poderia prejudicar gravemente os interesses econômicos de ambos os países. Países atingidos mostram-se céticos sobre a sinceridade japonesa Jean-Yves de Neufville

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