UOL Notícias Internacional
 

24/04/2005

"Os Simpsons" continuam alienados, depois de tantos anos no ar

The New York Times
David Carr

Em Los Angeles
Se, pelo bem da arte ou da ciência, uma pessoa tivesse de sentar-se e assistir em seqüência a todos os episódios de "Os Simpsons" já feitos, ficaria mais de uma semana sem dormir, assistindo a 350 episódios de meia hora. A série é apresentada no Brasil pelo canal pago Fox às 20h30 dos domingos (atual temporada) e às 20h de segunda a sexta (temporadas anteriores).

Fox/The New York Times

Hommer é padre de casamento gay no célebre episódio "There's Something About Marrying"
Nessa maratona, o espectador ficaria sabendo que a vida em uma rua chamada Evergreen Terrace nunca muda, que Bart, Lisa e Maggie, com seu criador, Matt Groening, não vão crescer e que os Simpsons, um dia considerados as tropas de choque da mortificação cultural, são um exemplo de estabilidade familiar na efêmera TV.

Apesar de alguns de seus fãs mais ferozes sugerirem que o programa perdeu o gás há algum tempo, ele continua em ritmo acelerado, com 20 autores trabalhando na temporada do próximo ano, buscando mais uma piada que ainda não foi contada em "Os Simpsons".

O seriado cômico animado, que parecia ter perdido um pouco do pique com o passar do tempo, voltou aos noticiários com um episódio sobre o casamento gay no início deste ano, e mais tarde nesta temporada com um episódio satírico, para alguns sacrílego, sobre o flerte dos Simpsons com o catolicismo e outro sobre o apocalipse.

"Os Simpsons", que havia se tornado tão familiar quanto um par de calças de moletom, descobriu uma maneira de espetar o dedo novamente nos olhos dos espectadores.

Groening, apesar de ter sugerido em entrevistas anteriores que o programa talvez estivesse chegando ao fim, encontrou nova inspiração. "Acho que o programa quase atingiu seu ponto intermediário, o que significa mais 17 anos", ele disse --isso sobre um programa que já é o mais antigo atualmente em exibição.

James L. Brooks, o produtor de TV veterano que ajudou a desenvolver a série, disse que os episódios que estão sendo trabalhados para o próximo ano serão "excepcionais", em parte por causa da entrada de novos escritores.

Caso isso não satisfaça o apetite aparentemente sem fim por tudo o que se relaciona aos Simpsons, Groening, juntamente com Brooks e vários dos antigos autores do programa, estão trabalhando duro em um escritório na 20th Century Fox no muito falado filme dos Simpsons.

"Parte do motivo pelo qual ainda estamos aqui é que existe uma verdadeira profundidade emocional nesses personagens", disse Groening, sentado em seu escritório na 20th Century Fox no início deste mês.

O esconderijo no segundo andar do estúdio foi livrado das caixas de entulho da cultura pop --CDs de "world music" obscura, artigos colecionáveis dos Simpsons-- que geralmente o rodeiam, para criar espaço para uma entrevista.

"Acho que há uma relativa leveza de espírito no estúdio", Groening acrescentou, rindo. "Eles parecem estar muito contentes."

Com mais de US$ 1 bilhão levantados pelo pessoal amarelo de Springfield, há poucos motivos para que a Fox não esteja de bom humor. Embora durante a semana passada "Os Simpsons" estivesse em 68º lugar entre todos os programas de redes, segundo a Neilsen Media Research, ele ainda atrai quase 10 milhões de espectadores, muitos deles nas faixas etárias mais jovens, que os anunciantes adoram.

Eles parecem estar contentes o bastante para dar uma festa nesta segunda-feira (25/04) para comemorar o 350º programa, um número aparentemente aleatório, mas que nenhum outro programa em exibição alcançou.

Groening, o criador da série, os atores da série e as legiões de astros convidados farão uma entrada com tapete amarelo para a festa da equipe, que terá cartomantes, caricaturistas e artistas do aerógrafo.

Então toda a família Simpsons vai se sentar diante do telão para assistir a "Don't Fear the Roofer" [Não Tema o Telhadista], o 351º episódio, com participações especiais de Ray Romano [da popular série cômica "Everybody Loves Raymond"] e do físico Stephen Hawking. O episódio será levado ao ar no próximo domingo.

A festa será uma rara ruptura em uma programação que engloba o ano inteiro. Dez dias atrás, Nancy Cartwright, a voz de Bart, estava ao microfone do palco Marge Simpson --os palcos Marilyn Monroe e Jane Russell ficam em outras partes do prédio--, gravando faixas adicionais para um episódio que será transmitido no final da temporada. A dor, o "leitmotif" da vida como um Simpson, está recebendo uma nova roupagem.

"Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai", ela disse com a voz esganiçada, enquanto assiste a uma animação de Bart sendo seriamente espancado por um colchão giratório. A dolorosa diversão de fazer "Os Simpsons" ainda não se desgastou.

Um programa que Groening concebeu em 15 minutos antes de uma reunião com a Fox --na pressa ele usou os nomes de sua família para os personagens-- sobreviveu a "Friends", "Seinfeld" e "Cheers".

O que começou como uma animação secundária para interromper os esquetes ao vivo do programa de Tracey Ullman ganhou um programa próprio em dezembro de 1989 e avançou até se tornar um dos esteios da cultura americana.

"Eu sempre achei que o programa seria um sucesso", disse Groening. "Na época, a Fox era nova em folha e queria experimentar. Até hoje não acho que poderia ter dado certo em qualquer outra rede."

Com o visual do ex-hippie arrumado que ele é --óculos modernos, barriguinha--, Groening, 51, salientou que "Os Simpsons" talvez seja a única série cômica que nunca teve de aceitar notas de programa dos executivos do estúdio, um status elevado conseguido por Brooks, um dos outros padrinhos do programa.

"Nós sempre dizemos para nós mesmos que saberemos quando parar, e algumas vezes consideramos isso seriamente", disse Brooks. "Mas acho que todos estamos nos sentindo otimamente sobre o programa neste momento."

Colocar borracha nova em um pneu velho não é fácil --o programa está sempre em risco de fazer autoparódia. Um episódio de "South Park" certa vez sugeriu que todas as frases cômicas possíveis já tinham sido usadas em "Os Simpsons".

Mas Groening e Al Jean, um produtor executivo, estão lá desde o início e ambos insistem que a atual temporada terá sua parcela de episódios clássicos.

"Todos nós levamos muito a sério o fato de o programa ser adorado, e não queremos perder isso", disse Jean. A leitura dramática, com os atores presentes, nesta quinta-feira pareceu correr muito bem. Uma sala com cerca de 50 pessoas foi dividida por escritores, atores e pessoas do estúdio que queriam assistir.

"My Fair Laddy" conta a história da tentativa de Lisa de transformar em cavalheiro o brutal zelador escocês do Colégio Springfield, Groundskeeper Willie, como experiência pigmaliônica para a feira anual de ciências.

A leitura deu a sensação de um antigo drama radiofônico, mas com referências culturais atualizadas. Devido a seu trabalho em "Spamalot", Hank Azaria foi canalizado por telefone, assim como Yeardley Smith, mas o resto do elenco estava lá.

O episódio pertence principalmente a Dan Castellaneta, que faz Homer, Groundskeeper Willie, Krusty o Palhaço e cinco outros personagens apenas nesse episódio, e que muda de oitavas, inflexões e sotaques no tempo que a maioria das pessoas levaria para limpar a garganta.

No meio da leitura, Castellaneta faz uma versão de "Wouldn't It Be Lovely" [Não Seria Adorável], de "My Fair Lady", que se torna "Wouldn't It Be Adequate" [Não Seria Adequado], cantada pelo zelador escocês.

"Meias combinando nos dois pés, jantar carne não estragada, uma privada que ainda tem assento, ah, não seria adequado", ele canta. Groening, que estava sentado na cadeira central tomando notas no script, deu algumas das risadas mais fortes.

Groening aprovou o sucesso do programa com um prazer infantil e mercenário, produzindo alegremente uma legião de livros e licenciando milhares de produtos relacionados -- por exemplo, uma réplica inflável de um metro de uma lata de cerveja Duff.

Ele ainda desenha sua tira semanal "Life in Hell" porque gosta de ter um dever solitário, mas claramente aprecia a colaboração com os autores do programa --muitos dos quais eram crianças quando Bart apareceu.

"Assim posso trabalhar com escritores que escrevem mais engraçado que eu, animadores que desenham melhor que eu e executivos que se vestem melhor que eu", disse Groening. "Estou de ótimo humor." Animação comemora nesta semana marca recorde de 350 episódios Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h49

    1,49
    3,306
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h56

    -2,29
    61.202,26
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host