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25/04/2005

Novo álbum de Bruce Springsteen é repleto de espiritualidade

The New York Times
Jon Pareles
em Asbury Park, Nova Jersey
Quando Bruce Springsteen fala sobre o seu novo álbum, ele soa mais como um pregador do que como um astro do rock. Alma e espírito, Deus e família; é isso o que está na sua mente ao interpretar as músicas plácidas e folclóricas de "Devils & Dust" (Columbia). Ele canta, reverentemente, sobre Jesus e sua mãe, Maria; e também sobre um homem que está em companhia de uma prostituta em um quarto de hotel.

"Gosto de escrever sobre pessoas cujas almas estão em perigo, que correm risco", disse Springsteen. Em ensaios para uma turnê que terá início na próxima segunda-feira em Detroit, ele e sua equipe acertam os detalhes técnicos aqui no Paramount Theater, o decadente palácio do cinema do Centro de Convenções de Asbury Park.

"Em cada música deste disco, alguém está envolvido em algum tipo de luta espiritual entre o pior e o melhor de si próprio, e todos emergem em um local ligeiramente diferente. Isso ocorre em todo o disco e é isso que confere à gravação o seu espírito fundamental", acrescenta o cantor.

De certa forma, "Devils & Dust" é o álbum de valores familiares de Springsteen, cheio de reflexões sobre Deus, maternidade e o significado de casa. Ele surge em um momento no qual o pop está cheio de apelos a Deus de bandas e roqueiros diversos, como o U2, Los Lonely Boys, Ryan Cabrera e Prince, e quando o conservadorismo cristão evangélico procura ganhar espaço entre as tendências predominantes.

Pode parecer que com "Devils & Dust" Springsteen está fazendo a sua própria oferta a um país no qual a retórica dos valores morais cresceu, tornando-se veemente e divisiva. Afinal, ele apoiou o candidato derrotado na eleição presidencial de 2004.

Na verdade, a maior parte das músicas de "Devils & Dust" - até mesmo a alegre "All the Way Home", que começa dizendo "I know what it's like to have failed, baby/With the whole world looking' on" ("Sei como é ter fracassado, baby/Com o mundo inteiro olhando") - foi composta há quase uma década, e Springsteen, 55, disse que trabalhava guiado pelo instinto quando decidiu ressuscitá-las para este álbum. "É algo, ao mesmo tempo, vinculado e desvinculado da cronologia", espanta-se. "O canário na mina de carvão - esse é um modelo artístico muito bom".

O último álbum de Springsteen foi "The Rising", a sua resposta ao 11 de setembro. O trabalho fez com ele se reafirmasse como a consciência norte-americana, como questionador e consolador, e lhe proporcionou o seu maior sucesso comercial desde a década de 80. O álbum vendeu dois milhões de cópias, e Springsteen e a E Street Band lotaram arenas e estádios por todo o país.

Tudo isso fez com que o apoio de Springsteen ao senador John F. Kerry na corrida presidencial fosse ainda mais surpreendente. Antes da eleição de 2004, Springsteen apoiava causas e não candidatos: veteranos do Vietnã, bancos de alimentos, a revista "DoubleTake". Mas com essa eleição, Springsteen decidiu investir um pouco da credibilidade que construiu no decorrer de uma carreira cantando músicas sobre as pessoas que ficaram à margem do sonho norte-americano. Uma carreira que recebeu um polimento extra com "The Rising".

Ele e sua banda não só lideraram a turnê Vote for Change (Vote pela Mudança) no outono de 2004; Springsteen também pegou o seu violão e literalmente abraçou Kerry nos comícios de última hora. Depois, veio a reeleição de George W. Bush. "Passei umas duas semanas terríveis, como se precisasse que Patti me despregasse da parede", conta ele, referindo-se à mulher, Patti Scialfa. "E depois foi tocar para frente e para cima. Mas foi algo que me sinto feliz por ter feito".

Será que ele se preocupou com a possibilidade de perder fãs que discordam da sua postura política? "Foi o tipo de situação em que deixei as coisas acontecerem espontaneamente", diz ele. "E recebi algumas cartas ríspidas, teve gente que ficou brava. Mas quanto aos fãs que tenho por todos estes anos, bem, percebi que se trata de um grande relacionamento, e um relacionamento flexível".

O pessoal, o político e o espiritual se misturam na música que é o título do álbum. Springsteen compôs "Devils & Dust" logo após os Estados Unidos terem invadido o Iraque, em 2003, e ele pensou em utilizá-la para abrir as apresentações da turnê Vote for Change (no final, preferiu tocar "The Star-Spangled Banner").

O narrador de "Devils & Dust" poderia ser um soldado no Iraque ou nos próprios Estados Unidos. Ele canta, "I got my finger on the trigger/But I don't know who to trust" ("O meu dedo está no gatilho/Mas não sei em quem confiar"). A seguir, ele se pergunta: "What if what you do to survive/Kills the things you love" ("E se aquilo que você faz para sobreviver/Mata as coisas que você ama"). A música é uma prima mais comportada de outras como "Tougher Than the Rest", e embora seja fácil imaginar um resplandecente arranjo da E Street Band, é também óbvio o motivo pelo qual Springsteen decidiu fazer com que o seu narrador parecesse tão solitário.

Após cada sucesso na sua carreira, Springsteen mudou do rock pauleira para a narrativa melancólica, do extrovertido para o pensativo. "Gosto de compor músicas pop, e me agrada que a banda toque alto. Me sinto bem tocando em grandes espaços", afirma o cantor. "Mas há algo quando a audiência participa, e é apenas você e eles".

O precursor direto de "Devils & Dust" é "The Ghost of Tom Joad", o álbum que Springsteen gravou em grande parte sozinho em 1995, cheio de baladas no estilo Woody Guthrie sobre imigrantes e trabalhadores desempregados. Várias das músicas de "Devils & Dust" foram compostas mais ou menos na mesma época.

"Tom Joad" é uma música triste, admirável pela sua concisão, mas propositadamente fria. "Devils & Dust" proporciona bons e maus momentos, canções românticas entre mensagens amargas, e possui toques de música country assim como o espírito de Guthrie e de Bob Dylan.

As músicas do álbum não se limitam a citar personagens; elas atingem o interior. "Na maior parte das canções ouvimos alguém pensando", explica Springsteen. Onde "Tom Joad" era cheia de detalhes repertoriais, as músicas de "Devils & Dust" se dissolvem em memórias e imagens visionárias. Uma delas, "Matamoros Banks", conta, de trás para frente, a história de um imigrante ilegal afogado. Começando com o seu corpo flutuando no rio e terminando com a ânsia do personagem em reencontrar a sua amada, a música transforma pesar em esperança.

A canção traz esse tom reflexivo. Springsteen gravou quase todas as músicas em um espaço de poucos dias, há quase uma década, sentado com a sua guitarra na sala de star da sua casa de campo em Nova Jersey. Na fantasmagórica "Silver Palomino", a morte da mãe de um garoto conecta este último à aparição de um cavalo belo e intocável; como em uma velha canção folclórica, a métrica da música jamais se encaixa em uma batida constante.

"No momento em que assimilo a essência de algo, procuro parar", diz Springsteen. "Se eu retroceder para regravar, às vezes posso escutar um pouco mais o pensamento".

No ano passado, ele reuniu as suas antigas gravações e trabalhou com o produtor Brendan O'Brien de forma que os acompanhamentos - uma guitarra periférica, uma seção de cordas, vozes distantes - flutuassem como se fossem fantasmas. Os vocais principais são agradáveis, o que é uma maneira deliberada de evitar a voz heróica que Springsteen utiliza com a E Street Band. E em duas músicas, ele muda para uma voz que antes só usou esporadicamente: um falsete fantasmagórico.

Idéias de redenção, escolhas morais e invocações de Deus vêm sendo parte das músicas de Springsteen no decorrer da sua carreira, mas essas características se tornaram mais fortes e mais explicitamente cristãs nos seus álbuns do século 21. "É algo que eu coloquei de lado por muito tempo", afirma. "Mas tenho pensado bastante nisso ultimamente". Ele possui uma trindade de motivos para a sua conexão com os conceitos e as imagens cristãos: "Escola católica, escola católica, escola católica", afirma. "Você é doutrinado. É uma forma não muito sutil de lavagem cerebral, e, é claro, funciona muito bem".

Springsteen foi criado a meio quarteirão da igreja, convento e paróquia católicos. "Não sou um freqüentador da igreja", admite. "Mas descobri, com o passar do tempo, que a minha música está cheia de imagens católicas. Não é algo negativo. Havia um mundo forte de imagens potentes que se tornaram vivas, vitais e vibrantes, e isso era assustador, mas ao mesmo tempo trazia a promessa de êxtases e paraíso. Eles criavam uma incrível paisagem interna em você".

O álbum inclui "Jesus Was an Only Son", uma canção que se assemelha a um hino religioso sobre o amor de Maria e que termina com Jesus a consolando, dizendo: "Remember the soul of the universe/Willed a world and it appeared" ("Lembre-se da alma do universo/Desejou um mundo e este surgiu"). Mas "Devils & Dust" também inclui "Reno", que possui uma letra suficientemente explícita para justificar um aviso na capa do CD alertando que a música "contém mensagens impróprias para menores". O narrador visita uma prostituta que faz com que se recorde da sua ex-amante, apenas para, depois, se sentir ainda mais desolado.

"Ele está no quarto com a substituta porque é incapaz de lidar com a coisa real", explica Springsteen. "O aspecto físico e o conteúdo sexual da música foram importantes, já que o sexo casual é como fechar o seu livro. É êxtase e liberação. Já o sexo com alguém que se ama é como abrir o seu livro, algo que sempre implica em uma leitura arriscada e assustadora".

O outro tipo de amor em "Devils & Dust" é maternal e filial. Metade das músicas do álbum, como "Jesus Was an Only Son", avalia o relacionamento entre mães e filhos. Springsteen compôs com mais freqüência músicas a respeito dos laços difíceis com o pai, que morreu em 1998, mas raramente sobre a mãe, que, segundo ele, "ainda está viva e esperneando".

Em "Black Cowboys", um adolescente do gueto deixa a mãe e o namorado desta, um traficante de drogas, e segue para o oeste; em "The Hitter", um boxeador acabado aparece à porta da mãe e implora a ela que o deixe entrar. E em "Long Time Comin", um homem apalpa a barriga da sua mulher grávida e deseja, com relação à criança, "Your mistakes would be your own/Yea your sins would be your own" ("Os seus erros serão os seus próprios erros/Os seus pecados serão os seus próprios pecados"), fazendo mais uma vez uma conexão entre família e fé.

"Peter Townshend disse que o rock foi um dos maiores movimentos espirituais da segunda metade do século 20", diz Springsteen. "Ele é medicinal e fala ao seu espírito, sem sombra de dúvida. E ele saiu da igreja. Quais foram os pioneiros? Os pregadores!".

No palco no Paramount, Springsteen ensaia novas e velhas melodias enquanto os músicos afinam as guitarras, ajustam os aparelhos de reverberação e se certificam que a gaita correta está no lugar certo. Um tecladista chamado Fitz trabalhou sons que pairarão misteriosamente sobre algumas músicas. Com a guitarra nas mãos, Springsteen começa a escolher a introdução para "Black Cowboys". Olhando para o expectador solitário, ele diz: "Estou contando uma história realmente comovente aqui". E, rindo, acrescenta: "Espero". Danilo Fonseca

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