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25/04/2005

Podem as Cruzadas servir de lição de harmonia para os dias de hoje?

The New York Times
Por Alan Riding

Em Londres
Dificilmente, o novo hit potencial de bilheteria e vídeolocadoras de Ridley Scott, "Cruzada" ("Kingdom of Heaven)", cuja estréia nos Estados Unidos e no Brasil está programada para 6 de maio, poderia ser mais atual e de circunstância. Este filme mostra os muçulmanos resistindo aos invasores cristãos, batalhas encarniçadas no meio de desertos açoitados pelas ventanias, cidades antigas sitiadas e civis tentando se proteger. Ele mostra até mesmo prisioneiros sendo decapitados por causa das suas crenças.

Pois bem, vamos admitir que toda essa violência filmada tenha mesmo acontecido há mais de oito séculos. Mas então, por que tudo neste filme se parece tanto com um telejornal apresentando as mais recentes notícias do Iraque?

De fato, o filme tampouco pretende mostrar que cristãos e muçulmanos, há séculos vêm se digladiando num conflito sem fim de civilizações. Em vez disso, ao focalizar a extensa e turbulenta guerra santa conhecida pelo nome de Cruzadas, Ridley Scott disse que ele esperava conseguir demonstrar que cristãos, muçulmanos e judeus podiam muito bem conviver em harmonia - contanto que o fanatismo seja combatido e erradicado.

Para tanto, ao elaborarem todas as cenas de batalhas enfurecidas que se sucedem em "Cruzada - Kingdom of Heaven", Scott e o seu roteirista, William Monahan tentaram manter um certo equilíbrio. Os muçulmanos são retratados como adeptos da convivência, até que extremistas cristãos venham arruinar tudo. E, além disso, quando os cristãos são derrotados, os muçulmanos lhes dão até mesmo um salvo-conduto para que possam retornar à Europa.

"Na verdade, é um filme sobre a importância de se fazer a coisa certa", diz Ridley Scott, 67, um britânico cuja experiência em levar combates para as telas também inclui a direção de "1492: A Conquista do Paraíso" (1992), "Falcão Negro em perigo" ("Black Hawk Down", 2001) e "Gladiador" (2000). "Eu sei que pode parecer incrivelmente simplista, mas este filme fala da tentação e da importância de se evitar a tentação. É um filme sobre a ética, sobre a necessidade de se declarar a guerra contra a paixão e o idealismo. O idealismo é ótimo, contanto que ele seja equilibrado e humanitário".

Se este for mesmo o caso, Scott torna patente aqui que os cruzados ainda precisam responder por "um ou outro" tropeço que eles cometeram ao longo da história. A partir do ano de 638, quando os muçulmanos ocuparam pela primeira vez Jerusalém, tanto os cristãos como os judeus foram autorizados a visitar os seus locais sagrados. Então, em 1095, atendendo a um apelo da Igreja cristã bizantina em Constantinopla, o papa Urbano 2º organizou a Primeira Cruzada para liberar Jerusalém. Quatro anos mais tarde, esses cruzados tomaram a cidade e massacraram praticamente todos os seus habitantes, provocando um banho de sangue que vem sendo invocado até hoje.

Sete outras cruzadas foram empreendidas, levando monarcas, senhores e cavaleiros europeus, com os seus exércitos de seguidores devotados, a combaterem numa região que se estende entre o que é hoje a Síria e o Egito, na qual eles também se instalaram e criaram raízes. Os muçulmanos responderam com as suas próprias jihads (guerras santas) esporádicas, até que finalmente, em 1291, os cristãos acabaram sendo expulsos de lá.

Diante disso, é difícil não se deparar com a seguinte dúvida: será mesmo que este é o momento certo - a época adequada para mostrar as guerras entre cristãos e muçulmanos a título de entretenimento?

"Eu penso que este é o momento perfeito para este filme, porque, ao refletir sobre esta questão de atualidade, ele retrata os dois lados de maneira equilibrada, evitando abordar as suas lutas em termos de confronto entre bonzinhos e malvados", insiste Jeremy Irons, um dos vários atores famosos que contracenam aqui como cruzados. "Este filme mostra apenas que a natureza humana está trilhando o caminho de uma possível coexistência pacífica. Eu não acho que ele possa despertar a cólera de qualquer um dos protagonistas, esteja ele de um lado ou do outro. Acho que ele induzirá os dois lados a pensarem".

É claro, os produtores que estão por trás de "Cruzada - Kingdom of Heaven", a 20th Century Fox, dificilmente estão neste negócio para investir US$ 140 milhões (R$ 355,48 milhões) em aulas de história e de moralidade. O filme enfoca um momento particularmente dramático entre a Segunda e a Terceira Cruzada, quando os muçulmanos retomaram Jerusalém. Esta história real está enredada numa história de amor fictícia e apresentada num rico espetáculo repleto de costumes, cavalos e espadas, e que tem como pano de fundo o deserto sem fim.

O fato é que durante um período de paz relativa, Baldwin 4º, o jovem rei de Jerusalém, novamente abriu a cidade para todas as religiões. Mas, depois da sua morte, em 1185, os cavaleiros da ordem do Templo, os templários, começaram a atacar comboios muçulmanos no deserto. Em resposta, o lendário guerreiro muçulmano Saladin, à frente de um exército de 200 mil, cercou e sitiou Jerusalém. Balian de Ibelin, o cavaleiro cristão que ofereceu a Saladin a rendição da cidade em 2 de outubro de 1187, é o herói do filme.

Na verdade, pouco se sabe hoje a respeito do verdadeiro Balian. Encarnado pelo ator britânico Orlando Bloom ("Falcão Negro em perigo", "O Senhor dos Anéis" e "Piratas do Caribe"), Balian surge aqui como um guerreiro bonito, leal e valente, despontando como o par perfeito para a irmã estupenda do rei Baldwin, Sybilla, encarnada pela atriz francesa Eva Green ("Os Sonhadores").

O seu clandestino de baldwin e Sybilla floresce, mas tudo mais em volta deles não tarda a desmoronar. Na confrontação final com Saladin, encarnado com majestade sarracena pelo veterano ator sírio, Ghassan Massoud, Balian desiste de lutar, enquanto enormes projeteis e balas de fogo começam a crivar os muros de Jerusalém.

"Em última instância, ele se rende e entrega Jerusalém a Saladin para preservar a vida dos seus súditos", aponta Orlando Bloom, 28. "Os preceitos de conduta que um cavaleiro deve seguir são: seja valente e Deus poderá ajudá-lo; diga a verdade, mesmo se isso por resultar na sua morte; e proteja os desamparados. Este é o seu juramento, e ele o cumpre até o seu derradeiro instante da sua vida".

Com toda certeza, Ridley Scott subscreveria sem problema a esses sentimentos tão elevados. De fato, numa entrevista que ele concedeu nos estúdios Shepperton, na região de Londres, o diretor disse que o principal motivo que o levou a realizar "Cruzada - Kingdom of Heaven" foi o seu fascínio pelos cavaleiros medievais, que havia sido despertado décadas atrás pelos filmes de Akira Kurosawa e Ingmar Bergman.

"O que me interessava sobremaneira é uma coisa que parece ter desaparecido do nosso vocabulário, a saber, as noções de honra, virtude, cavalheirismo, cortesia, bravura e nobreza", disse. "Então, após ter concluído as filmagens de `Falcão Negro em perigo', eu me reuni com Bill Monahan para discutir sobre um novo projeto, e perguntei-lhe se ele tinha algum conhecimento sobre cavaleiros medievais. Ele respondeu que as Cruzadas eram um verdadeiro hobby para ele".

Quando o roteiro ficou pronto, os Estados Unidos já haviam invadido o Iraque, mas Scott estava bem menos absorvido pela política do que pela complexidade do filme. Na Espanha, ele utilizou como cenário um castelo medieval e explorou a arquitetura moura de Sevilha, e, no Marrocos, ele filmou no porto-fortaleza de Essaouira e em estúdios em Ouarzazate, nas montanhas do Atlas. Nas imediações dos estúdios, a produção construiu fortificações de 365,7 de extensão e de mais de 17 metros de altura para representar Jerusalém.

Com o consentimento do rei Mohammed 6º do Marrocos, Ridley Scott também contratou 1.500 soldados marroquinos como figurantes. No filme, eles são multiplicados por meio de computadores. Para o sítio de Jerusalém, baluartes de 17 toneladas e enormes catapultas foram reproduzidos digitalmente.

Após ter passado cinco meses nas locações, trabalhando a partir de um roteiro de 260 páginas (quase o dobro do tamanho habitual), Scott acabou realizando um filme de 3 horas e 40 minutos. Esta versão sobreviverá em DVD, mas, para o lançamento geral, ele foi obrigado a reduzir o filme para 2 horas e 22 minutos.

"Nós fomos constantemente cortados", disse Jeremy Irons depois de assistir à versão para salas de cinema. "Mas eu fiquei realmente surpreso ao ver o quão consistente se manteve o filme apesar disso. É difícil para todos nós realizar algo realmente consistente, em termos de conteúdo. Mas, nos dias de hoje, as pessoas querem muitas lutas e uma história de amor, e eu acho que neste contexto, Ridley encontrou um excelente equilíbrio".

Ainda assim, existe neste filme uma mensagem política, que a atriz Eva Green, 24, ressalta com certa franqueza característica dos franceses. "É muito diferente daqueles filmes estúpidos de Hollywood", disse ela por telefone de Los Angeles. "É um filme que tem substância. É muito inteligente e valente, e espero que ele desperte um grande número de pessoas nos Estados Unidos".

Que ele desperte as pessoas em relação a o quê?

"A se tornarem mais tolerantes, mais abertas em relação aos povos árabes", disse.

Bem, não sei se isso era exatamente o que Ridley Scott tinha em mente, mas, por que não? "Cruzada", o novo filme de Ridley Scott, mostra uma das guerras recorrentes entre cristãos e muçulmanos, ocorrida há mais de oito séculos no Oriente Médio, mas que apresenta coincidências instigantes com os atuais eventos no Iraque Jean-Yves de Neufville

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