UOL Notícias Internacional
 

26/04/2005

Agitação nas repúblicas que compõem a Rússia pode desintegrar o país

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Ufa, Rússia
Aqui na borda sudoeste dos Montes Urais, um levante popular contra um governo regional está se constituindo em um dos mais significantes desafios ao controle político exercido pelo presidente Vladimir V. Putin, gerando a possibilidade de que o protesto civil se dissemine para a Rússia a partir da periferia.

Sergei Kivrin/The New York Times

Manifestante protesta contra o governo; atos como esse se multiplicam pela Rússia
Encorajadas pelas rebeliões em dois vizinhos da Rússia, Ucrânia e Quirguistão, milhares de pessoas fizeram uma série de manifestações desde fevereiro, pedindo a renúncia do presidente do Bashkortostão, Murtaza G. Rakhimov.

Aliado de Putin, ele é o líder dessa região de maioria islâmica, que formalmente é uma republica autônoma dentro da Rússia, desde o colapso da União Soviética. Ele se reelegeu em 2003 em uma eleição da qual o seu principal adversário desistiu, supostamente devido a ordens do Kremlin.

As questões são em sua maioria de âmbito local, mas as reclamações contra o governo de Rakhimov fazem lembrar aquelas que foram feitas contra os recém-depostos líderes na Ucrânia e no Quirguistão, e cada vez mais mencionam Putin. Elas incluem alegações de eleições manipuladas, de aumento de controle estatal sobre os negócios e de corrupção.

Embora a autoridade de Putin pareça continuar sólida, os eventos aqui refletem uma sensação emergente de descontentamento e impaciência que cada vez mais tem se expressado, de uma forma ou de outra, nas ruas da Rússia.

"Um fim para isso chegará", afirmou Ramil I. Bignov, empresário e líder de uma coalizão heterogênea de oponentes de Rakhimov, após o último protesto, em 16 de abril. "E ele chegará em breve".

Embora Bignov limite os seus comentários às suas esperanças de que Rakhimov sofra uma derrocada política, as implicações de uma campanha de rua bem sucedida contra o líder regional também atingiriam Putin. E isso é um tanto quanto óbvio porque Putin apoiou Rakhimov e porque o Bashkortostão, assim como a rebelada república tchetchena, é parte da Rússia.

Além disso, Putin influiu na forma como a disputa tem sido travada, como uma conseqüência da sua decisão no ano passado de abolir eleições diretas para governadores e outros líderes regionais.

"Agora é evidente que, ao invés de tornar a sua vida mais fácil com essa proposta, o Kremlin criou grandes problemas para si", opina Kikolai Petrov, analista do Centro Carnegie de Moscou, que estuda a política regional. "Agora não existem meios legais para que a oposição nessas regiões derrote os governadores que ocupam o poder".

Assim, aos críticos de Rakhimov só restaram duas linhas de ação: sair às ruas e apelar a Moscou. Eles têm feito ambas as coisas.

Em meados de abril, quando não havia nenhuma eleição à vista após dois meses de protestos, cerca de 200 oponentes foram até Moscou marcar sua posição, organizando uma manifestação e apresentando ao governo Putin uma petição que, segundo eles, continha 107 mil assinaturas, exigindo a renúncia de Rakhimov. Enquanto isso, as manifestações continuaram, e uma outra está marcada para 1º de maio.

Bignov disse que os líderes da oposição apelaram diretamente aos assessores de Putin, embora ele tenha se recusado a dizer com quais funcionários do Kremlin se reuniram. Petrov disse que é improvável que Putin acate o pedido, por medo de abrir um precedente que geraria protestos contra outros líderes impopulares.

Desde que Putin aboliu as eleições regionais, que ele defendia como sendo um meio de fortalecer o seu poder executivo, os manifestantes em três outras regiões do sul --Karachayevo-Cherkessia, Ingushetia e Ossetia do Norte-- exigiram sem sucesso a renúncia dos seus líderes. Porém, até o momento, os protestos aqui foram os mais significantes e contínuos.

"Estamos presenciando uma nova onda de ativismo social", afirma Petrov. "E isso é perigoso, porque existe uma falta de instituições democráticas por meio das quais essa energia possa ser canalizada".

As autoridades aqui na capital do Bashkortostão responderam vigorosamente, embora ainda não tenham recorrido à repressão total. Duas horas antes do protesto de 16 de abril, Bignov e um outro líder da oposição, Anatoly N. Dubovsky, foram detidos pelo Serviço de Segurança Federal e interrogados durante cinco horas e meia, até o final da manifestação, como parte de uma investigação relativa a acusações de extremismo.

Enquanto isso, os partidários de Rakhimov organizaram como resposta uma grande manifestação na Praça Lênin, chegando em mais de cem ônibus e se dirigindo em massa ao local onde a oposição recebeu permissão para se reunir.

Entre eles havia várias dezenas de jovens, vários deles vestindo roupas camufladas, que pelo menos duas vezes entraram em conflito corporal com os críticos de Rakhimov. Eles esmurraram a face de uma mulher idosa e confrontaram o líder da recém-criada Frente Popular do Bashkortostão, Ayrat Dilmukhametov, que foi retirado do local em um carro civil e interrogado pelo serviço secreto durante horas. Bignov informou mais tarde que Dilmukhametov foi liberado à noite.

"Esta é a agonia do regime", disse Dilmukhametov em uma entrevista momentos antes de ser atacado, referindo-se às tentativas de acabar com o protesto. "Eles estão fazendo tudo para trazer esses jovens até aqui e para mobilizá-los contra as suas mães".

O Bashkortostão, uma região rica em energia do tamanho do Estado de Illinois, é uma das 21 repúblicas étnicas russas --de um total de 89 regiões. Aqui o grupo étnico é formado por muçulmanos bashkirs, que conquistaram um alto grau de autonomia em relação a Moscou quando a União Soviética entrou em colapso.

Rakhimov, um bashkir, manifestou a princípio uma forte queda pela independência nacionalista. Os seus críticos dizem que ele se tornou um déspota, administrando a região como se fosse o seu próprio feudo, no qual grande parte dos recursos naturais é controlada por companhias gerenciadas pelo seu filho, Ural.

Os opositores de Rakhimov, que incluem bashkirs, russos étnicos, tártaros e outros, se rebelaram depois da sua campanha pela reeleição em 2003, quando ele obteve um terceiro mandato após uma votação de segundo turno, na qual o seu oponente simplesmente desistiu --supostamente por ordens do Kremlin.

Os recentes protestos irromperam após quatro dias de batidas policiais em dezembro passado na cidade de Blagoveshchensk, quando centenas de jovens foram presos e espancados depois de uma confusão envolvendo a polícia local.

A revolta aumentou após a implantação de uma nova lei federal neste ano que substituiu os benefícios sociais dos pensionistas --incluindo transporte gratuito e remédios subsidiados-- por pagamentos em dinheiro, uma mudança que provocou grandes protestos por toda a Rússia.

Atualmente a oposição inclui vários pensionistas que reclamam da redução da qualidade de vida, ainda que empresários influentes do Bashkortostão, liderados pelo filho de Rakhimov, tenham ficado mais ricos.

Rakhimov se recusou a conceder entrevistas. O seu porta-voz, Rostislav R. Murzagulov, disse que o presidente estava muito ocupado com a temporada de plantio de primavera para responder às queixas dos seus críticos. Murzagulov descreveu os líderes da oposição como sendo um pequeno grupo de insatisfeitos que desejam conquistar o poder político e as riquezas da região.

Ele nega a existência daquilo que vem sendo chamado de "inspiração laranja", após os protestos maciços na Ucrânia contra as eleições fraudulentas para a escolha do sucessor de Leonid Kuchma. "Não temos um espírito revolucionário", argumenta. "O que temos é um pequeno grupo de pessoas que procura criar tal espírito".

Putin não falou publicamente sobre os protestos ocorridos aqui ou em outras regiões, mas em uma rara entrevista concedida à revista "Ekspert", o chefe da sua administração, Dmitri A. Medvedev, defendeu as mudanças eleitorais e advertiu que um fracasso em unir a elite política do país poderia resultar na desintegração da Rússia.

"A desintegração da União Soviética parecerá uma brincadeira de criança quando comparada a um colapso da Rússia moderna", afirmou.

Os líderes da oposição prometeram que os seus protestos continuariam, pacificamente, mas os episódios de 16 de abril revelaram como a situação é volátil.

Uma faixa na manifestação favorável a Rakhimov declarava: "O Bashkortostão não é o Quirguistão". Um jovem com uma boina verde que nitidamente comandava aquilo que chamava de uma força de segurança e que não quis se identificar expressou aversão aos manifestantes. Em determinado momento ele despachou um esquadrão de jovens até a manifestação oposicionista a fim de apreender os panfletos dos manifestantes.

Quando lhe perguntaram sobre o uniforme camuflado e que serviço de segurança representava, ele retrucou: "Eu mesmo o comprei de forma que pudesse esmagar os 'laranjas'".

Rodeado por um grupo de opositores de Rakhimov debaixo da corpulenta estátua de Lênin, Dilmukhametov apresentou as suas exigências, incluindo eleições livres e justas, a suspensão das novas mudanças nos benefícios e o confisco dos bens do filho de Rakhimov.

Ele disse que a oposição atuaria dentro da lei, mas as suas palavras soaram ameaçadoras: "O tempo das resoluções, pedidos e apelos passou", disse Kilmukhametov.

A seguir, fez uma alusão à exortação do poeta Maiakóvsky a respeito de uma pistola comumente usada pelos revolucionários bolcheviques, a Mauser. "Como escreveu o poeta, é hora da Camarada Mauser dizer, 'Sim'". Suspeitas de fraude eleitoral e corrupção causam tensão no interior Danilo Fonseca

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