UOL Notícias Internacional
 

26/04/2005

Venezuela endurece postura em relação aos EUA

The New York Times
Juan Forero

Em Nova York
Enquanto o presidente Hugo Chávez da Venezuela confronta Washington cada vez mais, o governo Bush está avaliando adotar política mais dura como resposta. Assim, por exemplo, dirigiria mais verbas para fundações e grupos políticos que se opõem ao seu governo de esquerda, disseram autoridades americanas.

Os EUA já começaram a instar os vizinhos da Venezuela a se distanciarem de Chávez e levantaram questões sobre liberdade de imprensa, independência judicial e a afinidade do governo venezuelano com grupos de esquerda no exterior, inclusive guerrilheiros colombianos.

Entretanto, até agora, o governo Bush não encontrou aliados em suas tentativas de isolar o líder venezuelano e está cada vez mais frustrado com os arroubos anti-americanos de Chávez e suas medidas que parecem querer agredir Washington.

No último domingo (24/04), Chávez extinguiu um acordo de cooperação militar de 35 anos e expulsou quatro instrutores americanos, que acusou de fomentarem revolta.

A acusação, negada pelas autoridades americanas, foi o último golpe nas relações amargas desde que os EUA tacitamente apoiaram um golpe que tirou brevemente Chavez do governo, em abril de 2002. Desde então, a força de Chávez aumentou.

Além de vencer um referendo em agosto último, a alta do preço do petróleo deixou seu governo cheio de dinheiro. O país fornece 15% das importações de petróleo americanas.

As autoridades americanas, que preferiram ignorar Chávez no último ano, hoje reconhecem a necessidade de uma estratégia mais ampla para lidar com um líder que poderá ser reeleito no ano que vem para o cargo de seis anos.

Uma força tarefa de várias agências em Washington vem trabalhando para criar uma nova política em relação a Caracas, provavelmente mais dura. O apoio americano a grupos que se opõem ao governo venezuelano foi fonte de tensão no passado. Sob os planos atualmente considerados, esse apoio poderá aumentar, disseram as autoridades.

"Washington está concluindo, cada vez mais, que um relacionamento pragmático realista, no qual podemos concordar em discordar de algumas questões mas progredir em outras, não é uma opção", disse uma autoridade americana que especialista em política na América Latina.

Ela acrescentou: "Nós oferecemos a eles um relacionamento mais pragmático. Obviamente que, se não quiserem isso, podemos passar para uma abordagem de mais confronto."

Os programas de combate aos narcóticos já sofreram com as tensões, e as reuniões entre altas autoridades dos dois países são mínimas, observaram as autoridades.

"O que está acontecendo é que eles entendem que essa coisa está se deteriorando rapidamente e vai requerer mais atenção. A atual política de fazer vista grossa não está funcionando", disse um alto assessor republicano no Capitólio, que trabalha com política latino-americana.

Os EUA, disse ele, estão particularmente preocupados porque a Venezuela é um de seus quatro principais fornecedores de petróleo. "Não se pode descartá-lo. Ele está sentado em uma fonte de energia crítica para nós", disse o republicano sobre Chávez.

Um importante problema para os EUA é que Washington tem pouca, ou nenhuma influência sobre Caracas. A alta do petróleo deixou a Venezuela sem a necessidade de empréstimos ou outra ajuda que os EUA pudessem usar como trunfo.

O governo Bush tampouco tem muito apoio na América Latina, onde líderes de esquerda hoje governam dois terços do continente. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, deve discutir as preocupações com a Venezuela em uma excursão por quatro países na região, nesta semana.

Analistas políticos dizem que ela terá dificuldades em encontrar apoio.

O secretário de defesa Donald H. Rumsfeld, em recente visita ao Brasil, publicamente expôs as preocupações americanas com Chávez. Dias depois, o presidente Luiz Inácio da Silva do Brasil, em uma reunião na Venezuela com Chávez e os líderes da Colômbia e Argentina, disse: "Não aceitamos difamação e insinuações contra um companheiro. A Venezuela tem o direito de ser um país soberano, de fazer suas próprias decisões."

Chávez, famoso por seus discursos ofensivos, ficou ainda mais beligerante, usando uma postura anti-americana para manter o apoio popular. Ele acusou os EUA de planejarem uma invasão, ameaçarem com cortes nas compras de petróleo e fez insultos de tons sexuais a Condoleezza.

Apesar de autoridades venezuelanas ressaltarem que as vendas aos EUA nunca vão cessar, os novos acordos de energia da Venezuela com a China preocuparam Washington.

Igualmente preocupante foi o recente encontro de Chávez com o presidente Mohammad Khatami, do Irã, que, segundo declarou, "tem todo o direito" de desenvolver seu programa de energia atômica.

Chávez também está formando uma milícia popular, a qual poderá, segundo ele, ter 2 milhões de membros. O presidente venezuelano pretende comprar 100.000 rifles AK-47 da Rússia e caças brasileiros.

"Todos os governos reconhecem o caráter democrático do governo venezuelano e sua vocação pacífica e querem estabelecer relações com a Venezuela. Há apenas uma exceção, os EUA. Eles fizeram grandes esforços para isolar a Venezuela, ninguém se convenceu. Fracassaram porque não há razão de isolar a Venezuela", disse em entrevista Ali Rodriguez, ministro de Relações Exteriores venezuelano.

De fato, muitos dos maiores países da América Latina vêem pouco benefício em colidir com Chávez, nem apóiam o isolamento de Cuba. A Venezuela fornece petróleo a preços abaixo do mercado e tem vários acordos econômicos lucrativos com dezenas de nações. Muitas delas talvez não queiram irritar seus próprios eleitorados esquerdistas, parciais a Chávez.

"Os outros países não querem se envolver em uma polêmica entre a Venezuela e os EUA. É uma estratégia contraproducente. Se forem forçados a tomar lados, isso vai resultar em uma reação negativa da América Latina," disse Jennifer L. McCoy, especialista em Venezuela da Universidade do Estado da Geórgia que chefiou a missão observadora das eleições do Centro Carter em Caracas, no ano passado.

Muitos democratas influentes do Congresso também se opõem a uma abordagem mais agressiva.

"Acho que cria mais estranhamento. Não se pode negar o fato que Hugo Chávez é um presidente democraticamente eleito", disse o deputado Bill Delahunt, Democrata de Massachusetts, membro do Comitê de Relações Internacionais da Câmara, que se reuniu diversas vezes com o líder venezuelano.

Os planejadores do governo Bush, porém, dizem que os esforços para remendar as relações com a Venezuela em geral fracassaram. O embaixador americano William Brownfield, que assumiu o cargo em Caracas em setembro, demorou vários meses até conseguir uma reunião com Rodriguez, ex-ministro das Relações Exteriores.

Pedidos de reuniões com outros ministros e até autoridades de segundo escalão são em geral ignorados. A Venezuela também cancelou dezenas de programas de intercâmbio com os EUA.

A opção cada vez mais privilegiada pelos membros do governo é a de responder muito mais assertiva e publicamente às políticas venezuelanas que vão contra os interesses americanos, idealmente com a ajuda de outros países e instituições respeitadas, como a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos.

"Não temeríamos apontar as ocasiões em que estivesse tirando as liberdades, de forma alguma", disse ao Comitê de Relações Exteriores do senado Robert B. Zoellick, atualmente vice-secretário de Estado, durante sua audiência de confirmação em fevereiro.

Autoridades do Ministério de Relações Exteriores venezuelano dizem que ainda têm esperanças que as relações vão melhorar. "Há uma única condição para nós termos relações saudáveis com os EUA, chama-se respeito", disse o vice-ministro Mari Pili Hernandez, responsável pelas relações com Washington. Hugo Chávez expulsa quatro instrutores militares norte-americanos Deborah Weinberg

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