UOL Notícias Internacional
 

26/04/2005

Vírus misteriosos mostram-se os mais mortíferos

The New York Times
Denise Grady

Em Uige, Angola
Curandeiros tradicionais daqui dizem que suas avós tinham conhecimento de uma doença hemorrágica semelhante à atual epidemia de febre hemorrágica que matou 244 das 266 pessoas que a contraíram.

Evelyn Hockstein/The New York Times

Soldados com uniforme anticontaminação enterram vítimas de supervírus na África
As avós até mesmo tinham um tratamento para a doença, os curandeiros disseram ao dr. Boris I. Pavlin, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Mas o remédio se perdeu. A antiga doença se chamava "kifumbe", a palavra em língua kikongo para assassinato.

Mas a kifumbe não parecia ser contagiosa. E assim, disse Pavlin, apesar de não duvidar de que foi real, ela provavelmente não é a mesma doença que atinge Uige atualmente. A atual doença, causada pelo vírus Marburg, é contagiosa. Como o vírus Ebola, com o qual tem parentesco estreito, ele se espalha por fluidos corporais como sangue, vômito e saliva.

Ninguém sabe dizer ao certo o que era o kifumbe, e alguns dizem que o vírus Marburg é quase tão misterioso. Mais de um mês se passou desde que foi identificado como a causa do epidemia mortal que está ocorrendo aqui --a maior epidemia de Marburg já registrada-- mas algumas das perguntas mais básicas sobre a epidemia ainda não foram respondidas.

Como e quando este vírus raro chegou aqui? Por que tantas vítimas têm sido crianças? E como tantas foram infectadas antes da doença ter sido reconhecida?

A alta taxa de mortalidade, acima de 90%, também é enigmático, mas ainda é cedo demais para saber se o índice é realmente tão alto. Em surtos passados, a mortalidade foi menor. Em Uige, casos brandos podem passar despercebidos.

"É mais fácil contar pessoas mortas", disse o dr. Pierre Rollin, um médico da divisão de Patógenos Especiais dos CDC. "Os números do começo não significam nada."

Febres hemorrágicas virais, um punhado de doenças encontradas apenas na África e na América do Sul, estão entre as mais assustadoras de todas as doenças.

Ebola e Marburg, limitados à África, são os únicos membros de uma família conhecida como filovírus, e são os piores possíveis. Os vírus sabotam as defesas do corpo ao invadir e eventualmente matar as células brancas do sangue, que são essenciais no combate às infecções.

Entre cinco a dez dias após a exposição, a doença desponta repentinamente, com uma febre e uma dor de cabeça latejante, e rapidamente progride para vômitos e diarréia. O vírus também ataca órgãos vitais como o fígado, baço e pâncreas, e eventualmente se espalha para todas as partes do corpo.

Não há vacina ou tratamento, e as vítimas podem morrer em uma semana, geralmente por choque e queda da pressão sangüínea devido ao vazamento de fluidos pelos vasos sangüíneos. A taxa de mortalidade é de 80% a 90% para o Ebola, e 30% a 90% para o Marburg.

As pessoas podem pegar o vírus de animais --primatas e possivelmente morcegos-- e a doença pode se espalhar facilmente de uma pessoa para outra por contato com fluidos corporais dos pacientes. Mas pouco se sabe sobre a causa das epidemias humanos ou sobre os reservatórios animais onde os vírus vivem entre elas.

Os especialistas internacionais que correram para Angola têm estado tão ocupados tentando conter a epidemia que não tiveram tempo para rastrear suas origens. Mas encontrar a fonte da doença pode ajudar as autoridades de saúde a impedir futuros surtos.

"Nós poderemos fazer isto assim que a situação estiver sob melhor controle", disse o dr. Thomas Grein, da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Uma possibilidade é a de que a doença venha de macacos, que são caçados e comidos na África. Os animais podem ser portadores do vírus Marburg, apesar de adoecerem e morrerem dele assim como as pessoas. As pessoas que comem carne de macaco cozida não estão necessariamente em risco, porque o calor destrói o vírus. Mas aqueles que caçam e cortam os animais e manuseiam a carne crua correm alto risco de infecção caso o animal esteja doente.

A doença pode ter começado com um caçador e sua família, ou com muitas pessoas caso a carne tenha sido dividida ou vendida. Os mercados ao redor de Uige supostamente vendem carne de macaco, e os epidemiologistas esperam visitá-los e recolher amostras, disse Dave Daigle, um porta-voz da OMS.

Mas o que permanece enigmático é o motivo de tantas crianças terem sido infectadas. No início da epidemia, muitos bebês e crianças com menos de 5 anos morreram, e representavam a maioria dos casos. Agora, as crianças correspondem a 30% a 40% dos casos, um percentual ainda incomumente alto.

O vírus Marburg não se espalha pelo ar, e as pessoas só começam a transmiti-lo após estarem doentes e, mesmo assim, é necessário o contato com os fluidos corporais.

Alguns pesquisadores suspeitam que o que disseminou a doença tão rapidamente foi equipamento médico contaminado, como agulhas, seringas e material intravenoso. Se isto ocorreu, e onde ocorreu, ninguém sabe.

De alguma forma, em algum lugar, "eu acho que pegaram o Marburg", disse o dr. Pierre Formenty, um virologista da OMS.

Condições precárias

Algumas autoridades de saúde culparam o hospital provincial. Mas o dr. Enzo Pisani, que trabalhou em Angola por sete anos para uma caridade italiana, Médicos Com a África, insistiu que apenas agulhas descartáveis eram usadas lá e eram descartadas, nunca sendo reutilizadas.

Pisani disse que muitas pequenas clínicas com fins lucrativos existentes em Uige, dirigidas por pessoas com pouco ou nenhum conhecimento médico, provavelmente foram as responsáveis.

Ele disse que as clínicas de bairro, que não são fiscalizadas, freqüentemente são as primeiras paradas para pais com filhos doentes, e recebem injeções e vários tratamentos intravenosos para malária e outras febres. Para economizar dinheiro, ele disse, elas podem ter reutilizado agulhas.

Nos últimos dias, especialistas de saúde que visitaram as casas de pessoas infectadas descobriram que estavam sendo tratadas em casa com injeções e medicamentos intravenosos. Isto pode ter ajudado a disseminar a doença dentro dos lares, disse Daigle.

Em surtos anteriores de Ebola em outros países africanos, hospitais e clínicas às vezes agiram como centros de distribuição para o vírus: em alguns casos, os pacientes foram internados por causa de malária e contraíram Ebola e morreram.

"Toda vez em que há um hospital, você tem uma amplificação", disse Rollin.

Os hospitais na África estão lotados, outra condição ideal para disseminar infecções. A maioria não fornece refeições ou muita atenção por parte dos enfermeiros, de forma que os parentes devem alimentar e cuidar dos pacientes. Freqüentemente, toda a família permanece no hospital.

"Você pode ter 25 pessoas em um pequeno quarto, com pessoas dividindo tudo", disse Rollin. "Você pode ter muito contato, e transmissão."

A província estava mal equipada para lidar com a disseminação da doença, assim como para enfrentar doenças mais comuns, como malária, disenteria e febre amarela, que são endêmicas aqui.

Doença e morte são tão comuns em crianças aqui que os médicos dizem que os sintomas causados pelo vírus Marburg, que começa com febre e dor de cabeça como muitas outras doenças tropicais, poderiam inicialmente ser facilmente confundidos com outra coisa.

"Aqui, diariamente, se morrem três crianças e não quatro, você fica muito, muito feliz", disse Pisani.

Nem é fácil para Uige receber ajuda internacional. A província fica a mais de 300 quilômetros a nordeste da capital, Luanda, uma viagem de 12 horas por uma estrada não pavimentada que atravessa uma região tão repleta de minas terrestres, após 27 anos de guerra civil, que os viajantes são avisados a nunca deixarem a estrada, nem mesmo ir ao acostamento para permitir a passagem de outro veículo.

Apenas prédios com geradores próprios têm eletricidade --e mesmo nestes casos, apenas quando há combustível e as máquinas estão funcionando. Há muitos telefones celulares, mas não há água corrente ou saneamento básico. As janelas não têm tela.

Minas

Se este surto for contido, os cientistas ainda ficarão com a grande pergunta sobre o que acontecerá a seguir: onde o vírus habita entre os surtos?

Algum animal deve ser seu hospedeiro natural, mas algum que não seja conhecido pelo Marburg ou Ebola. O hospedeiro teria que ser uma espécie que não é eliminada pelo vírus. Tal exigência descartaria os macacos, porque quando eles contraem o Marburg ou o Ebola, eles apresentam taxas de mortalidade ainda maiores do que as pessoas. As autoridades de saúde da África alertam as pessoas para se manterem distantes dos cadáveres de primatas, porque podem ter morrido de Ebola.

Várias vítimas de Marburg na África do Sul e no Quênia visitaram cavernas antes de adoecerem. E em uma epidemia que matou 128 pessoas no Congo de 1998 a 2000, a maioria das vítimas trabalhava em minas. A ligação com cavernas e minas levou os cientistas a suspeitarem que os morcegos eram os portadores do vírus. Duas vítimas nos anos 80 visitaram a Caverna de Kitum no Parque Nacional do Monte Elgon, no Quênia. A caverna é cheia de morcegos e guano.

O dr. Daniel Bausch, um especialista em febres hemorrágicas da Universidade de Tulane, que estudou a epidemia no Congo, disse que a mina naquele país, em uma região chamada Durba, era cheia de morcegos de muitas espécies.

Estudos de laboratório de outro pesquisador, na África do Sul, revelou que os morcegos podiam portar o vírus por longos períodos sem adoecer.

Os trabalhadores em uma mina poderiam entrar facilmente em contato com excrementos infectados ao tocar o chão ou as paredes da mina, e então tocando seus olhos e bocas, infectando a si mesmos, disse Bausch. Os primatas também poderiam se infectar ao dormirem em cavernas e minas.

Os pesquisadores capturaram e testaram cerca de 500 morcegos de uma mina, mas nunca encontraram o vírus Marburg, disse Rollin. Mas, ele acrescentou, há literalmente milhões de morcegos em uma mina, e espécies inteiras provavelmente escaparam de teste. Às vezes, apenas uma espécie é a principal portadora de um vírus em particular. Os cientistas podem simplesmente ter testado a espécie errada.

Apesar de o reservatório do vírus Marburg não ter sido encontrado, outro aspecto da epidemia do Congo aponta para os morcegos, ou para alguma outra criatura que habita as minas e cavernas: a epidemia acabou quando a mina foi inundada e as pessoas não podiam mais entrar nela. Mas nenhuma caverna ou mina foi implicada em Uige; a fonte do Marburg aqui continua um mistério.

Não foi gasto muito dinheiro de pesquisa no Marburg ou no Ebola até recentemente, quando cresceu o temor de bioterrorismo e se tornou aparente que os vírus poderiam ser usados para guerra bacteriológica.

Agora, drogas e vacinas estão sendo desenvolvidas contra ambos os vírus.

O dr. Heinz Feldmann, um pesquisador canadense que montou um laboratório para teste do vírus em Uige, disse que sua equipe de pesquisa criou uma vacina que protegeu os primatas contra o vírus Marburg, mas que ainda não publicou seus resultados. A vacina provavelmente não seria ministrada regularmente, mas sim para pessoas em risco durante um surto.

"Nós muito provavelmente teremos algumas opções em dois anos", disse Feldmann. Mas se "serão usadas nestas pessoas pobres aqui na África Central é outra questão". O letal e pouco conhecido Marburg causa muitas mortes na África George El Khouri Andolfato

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