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27/04/2005

Descarrilamento no Japão é o preço pago por sociedade obcecada pela pontualidade

The New York Times
Norimitsu Onishi

Em Amagasaki, Japão
Em qualquer outro lugar no mundo, um trem 90 segundos atrasado talvez seria considerado no horário. Mas no Japão, 90 segundos atrapalhariam os passageiros que dependem da conexão com outros trens com precisão de balé, freqüentemente com uma margem de erro de dois minutos.

Ko Sasaki/The New York Times

Sobrevieventes são procurados no local do descarrilamento no Japão
E assim, para compensar os 90 segundos perdidos, um condutor de 23 anos, como ficou cada vez mais claro nesta terça-feira (26/04), estava acelerando quando seu trem se soltou dos trilhos em uma curva daqui, no oeste do Japão, se lançando contra um prédio de apartamentos de nove andares na manhã da segunda-feira.

O número de mortos no acidente de trem mais grave no Japão em quatro décadas subiu para 91 na terça-feira. Nesta antiga cidade industrial nos arredores de Osaka, as equipes de resgate continuavam tentado libertar outros passageiros presos nas ferragens dos vagões.

Por todo o país, o acidente já causou muita auto-análise da atenção --alguns diriam obsessão-- do Japão com a pontualidade e a eficiência. Para muitos, o esforço do condutor para compensar os 90 segundos pareceu revelar os pontos fracos de uma sociedade onde os trens realmente são pontuais, mas onde as pessoas perderam de vista o cenário maior.

"Os japoneses acreditam que, se embarcarem em um trem, eles chegarão no horário", disse Yasuyuki Sawada, um trabalhador ferroviário de 49 anos, que veio olhar o local do acidente. "Não há flexibilidade em nossa sociedade; as pessoas também não são flexíveis."

Sawada era um dos muitos que vieram aqui assistir por trás do isolamento policial, e que viam problemas mais profundos escondidos no acidente.

"Se você viaja ao exterior, você vê que os trens não necessariamente chegam no horário", disse Sawada. "Este desastre foi produzido pela civilização japonesa e pelo povo japonês."

A busca dos japoneses pela perfeição ferroviária é implacável, do humilde trem suburbano aos trens mais famosos do país. Em 2004, no 40º aniversário do trem bala, houve muita reprimenda em torno do fato de que no ano anterior os trens daquela linha registraram, em média, um atraso de seis segundos.

Em Tóquio, a linha Yamanote que circula pelo centro da cidade tem realizado a viagem cada vez mais rapidamente graças a trens melhores, de 70 minutos em 1946 para 62 minutos em 1988, e em menos de 60 minutos até o final do próximo ano.

As companhias ferroviárias não falam sobre atrasos. Mas qualquer viajante regular nota que eles tendem a não ser causados por acidentes de engenharia, mas por causas além do controle humano, como tufões ou pessoas saltando na frente de trens em andamento.

O Japão é tão confiante na segurança dos trens que não há restrições para a proximidade de prédios residenciais dos trilhos: não é raro vê-los a apenas 1 metro de distância.

Cumprir horários cada vez mais lotados e apertados se tornou muito importante, não apenas para os trens, mas também para as companhias aéreas. A Japan Airlines disse neste mês que uma série recente de acidentes foi causada, em parte, pela atenção excessiva em cumprir o horário.

A pressão para se manter no horário é tão grande que os condutores de trens pedem profusamente desculpas mesmo por atrasos de um minuto.

"Não há dúvida --não há outro sistema ferroviário mais pontual do que o do Japão", disse Shigeru Haga, professor de psicologia industrial e transportes da Universidade Rikkyo, em Tóquio. "Ele é o Nº 1 do mundo por sua pontualidade e segurança."

"Eu pessoalmente acho que os japoneses deveriam relaxar mais e pensar que atrasos de dois, três minutos, não são um problema", disse Haga.

"Mas você vê pessoas subindo e descendo correndo as escadas das estações para pegar um trem, mesmo sabendo que haverá outro em dois minutos."

Neste mês, a West Japan Railway Co., a operadora do trem envolvido no acidente, emitiu pela primeira vez uma declaração por escrito para seus funcionários, declarando que atrasos traem a confiança dos usuários.

Foi talvez com tal declaração em mente que o condutor de 23 anos, Ryujiro Takami, dirigiu o trem que seguia para Osaka na manhã de segunda-feira. Takami, cujo corpo ainda não foi recuperado, tinha apenas 11 meses de experiência, e já tinha sido repreendido uma vez por ultrapassar o limite da plataforma em 100 metros.

Na manhã de segunda-feira, na estação Itami nos arredores de Osaka, Takami passou da plataforma novamente, o que o forçou a voltar e perder 90 segundos. Aparentemente ciente de que seria repreendido de novo, ele persuadiu o condutor dos fundos do trem a relatar que ele ultrapassou a plataforma em 8 metros. Hoje, as autoridades disseram que a distância ultrapassada foi de 40 metros, o equivalente a dois vagões.

O trem, que transportava cerca de 580 passageiros, começou a correr anormalmente depressa após deixar a estação Itami, disseram os passageiros, tanto que o cenário externo passava zunindo. A chegada do trem na estação Amagasaki estava prevista para 9h20 da manhã, a tempo de muitos passageiros pegarem o trem que partia às 9h23.

O condutor conseguiu compensar 30 segundos, de forma que o trem estava atrasado apenas 60 segundos quando descarrilou em uma curva daqui e se chocou contra um prédio a cerca de 4 metros de distância.

"O povo japonês também é responsável por este acidente", disse Toshinami Habe, 67 anos, um chefe de vendas de uma empresa daqui. "Esta é uma sociedade de livre concorrência; não há flexibilidade. Este é o motivo da necessidade de compensar até mesmo um atraso de um minuto e meio."

Em pé atrás da linha de isolamento da polícia, não muito longe dos antigos depósitos industriais e casas e prédios de apartamentos recém-construídos perto da estação, Habe disse que pensou no acidente a noite toda e teve dificuldade para dormir. Ele criticou a falta de regulamentação que permite que prédios residenciais fiquem tão próximos dos trilhos.

"Eu sabia que isto aconteceria algum dia", disse Habe. "Apesar de dizerem que o Japão é o Nº1 em pontualidade, o mais importante é a segurança."

"Na raiz deste acidente estão muitos fatores", ele acrescentou. "Esta é apenas a ponta do iceberg." Acidente na segunda provocou a morte de pelo menos 91 pessoas George El Khouri Andolfato

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