UOL Notícias Internacional
 

27/04/2005

França vê índios brasileiros de maneira diferente

The New York Times
Alan Riding

Em Paris
Bem antes de Jean-Jacques Rousseau ter idealizado o "bom selvagem" no final do século 18, o índio brasileiro já ocupava um lugar na imaginação francesa.

Já em 1505, apenas cinco anos após os portugueses descobrirem o Brasil, o primeiro índio foi trazido para a França. A seguir, em 1550, 50 índios vieram para terras francesas a fim de habitarem uma aldeia indígena reconstruída na Normandia como uma curiosidade para entreter a corte real.

Mas para os pensadores franceses, os índios também exibiam qualidades únicas, especialmente a inocência de sua nudez, a generosidade, a indiferença por bens materiais e, sim, o asseio. E isso fez com que primeiro Montaigne e mais tarde Montesquieu, Diderot e Rousseau pensassem de uma nova maneira a condição humana.

Depois, em meados do século 20, um outro francês, Claude Levi-Strauss, ajudou a criar a moderna antropologia por meio de pesquisas realizadas entre os índios brasileiros.

Agora, de certa forma, os índios retornaram à França, em uma nova exposição chamada "Brasil Indígena: A Arte dos Ameríndios do Brasil".

A exibição, que tem atraído multidões ao Grand Palais em Paris, irá até 27 de junho e inclui também objetos coletados por Levi-Strauss nos anos 30. Ela é a peça central de um vigoroso programa de arte, música, dança e filmes brasileiros denominado "O Ano do Brasil na França".

Mesmo assim, quando comparada à mostra de, digamos, tesouros maias, essa não é uma exposição fácil de se apresentar. Em 1500, os índios brasileiros eram caçadores e pescadores da Idade da Pedra que viviam em pequenas aldeias e que nunca constituíram aquilo que poderia ser chamado de civilização.

Eles certamente eram exóticos, mas não exibiam nenhuma riqueza óbvia. Na ausência de especiarias e ouro, as madeiras tropicais eram a única coisa que os primeiros portugueses acharam que valia a pena levar para casa.

Em décadas recentes, arqueólogos encontraram indícios da existência de comunidades mais permanentes nas proximidades da foz do Rio Amazonas. Algumas delas habitaram o local há 12 mil anos.

Peças de cerâmica, algumas com mil anos de idade, foram encontradas por meio de escavações. Assim, a "Brasil Indígena" começa com uma surpreendente coleção de urnas pré-colombianas: alguns vasos grandes decorados com desenhos abstratos, vários deles lembrando figuras humanas, e outros evocando animais reais ou imaginários.

O restante da exibição reflete uma cultura ainda viva, com objetos distantes de nós em espírito, mas não no tempo. Mas assim como os objetos feitos de madeira, cascas de árvores, juncos, penas e peles de animais, essa cultura também é frágil, e até efêmera. As antigas esculturas de pedra da América Central estarão preservadas daqui a séculos. Já a arte dos índios brasileiros pode não mais existir até lá.

Com uma população estimada entre três e seis milhões de habitantes em 1500, os índios brasileiros estavam muito dispersos para serem conquistados como os astecas e os incas.

Em vez disso, eles foram derrotados lentamente, primeiro pelas doenças, depois pela matança ou assimilação nas regiões costeiras rapidamente ocupadas pelos portugueses e seus escravos africanos e, mais recentemente, pelos fazendeiros de gado e garimpeiros que invadiram os seus refúgios amazônicos. Atualmente, cerca de 500 mil índios pertencentes a 220 tribos sobrevivem no Brasil.

Desde os anos 90, os esforços para protegê-los se aceleraram, principalmente por meio da criação de reservas florestais, que atualmente respondem por cerca de 12% do território nacional.

O seu modo de vida seminômade exige que vaguem por vastas áreas, mas poucas são as tribos que atualmente não mantêm contato regular com a sociedade ocidental e há um grande número delas que faz trabalhos artísticos para vendê-los aos visitantes, assim como para utilizá-los em rituais tradicionais.

A exposição inclui algumas impressionantes máscaras de cascas de árvores, modeladas e pintadas de forma a lembrarem animais como garças, peixes e macacos. Elas foram obtidas por expedições realizadas nos séculos 18 e 19. Há também uma cabeça mumificada, decorada com penas, que presumivelmente possui alguma função ritualística. Mas a maioria dos objetos, tais como os cestos delicadamente trançados e instrumentos musicais como flautas, tambores e maracás, é recente ou contemporânea.

A idéia de uma cultura viva é reforçada por fotografias e, acima de tudo, por vídeos que mostram índios quase nus em suas aldeias, caçando e pescando, vestindo cocares elaborados para danças comunitárias e, principalmente, pintando os corpos.

De fato, a pintura corporal, que envolve a utilização de pigmentos minerais e vegetais para a criação de uma variedade de formas, faces, torsos e pernas abstratos, talvez seja a forma mais comum de expressão artística.

Porém, a arte indígena mais dramática envolve o uso de penas: desenhos do século 16 mostram índios usando cocares de penas quando se encontraram pela primeira vez com os navegadores portugueses; eles continuam a usá-los hoje em dia para cerimônias e como símbolos de status.

Como não possuem metais preciosos, alguns artefatos feitos de penas servem como jóias, e às vezes como ornamentos para as orelhas e o nariz, ou são combinados com dentes de onça para a criação de colares. Talvez as peças mais delicadas sejam os brincos de penas, que muitas vezes são feitos de forma a lembrarem flores tropicais.

A última sala dessa exposição é uma homenagem a Levi-Strauss e serve para lembrar a muitos franceses que há muito leram o seu clássico de 1955, "Tristes Trópicos", que, com 97 anos, ele ainda está vivo e ativo.

Pela primeira vez, os 760 objetos que Levi-Strauss doou ao Brasil, obtidos em duas expedições indígenas, foram agregados às 745 peças que ele teve permissão de trazer para o Musee de l'Homme, em Paris. E essas, também, incluem armas rudimentares, instrumentos, e artesanatos feitos com penas e cascas de árvores.

Igualmente interessantes são as fotos em preto-e-branco que Levi-Strauss e sua mulher, Dina, tiraram durante a sua viagem de 1935 e 1936 ao Mato Grosso e a de 1938 a Rondônia. Elas mostram algumas tribos indígenas, como os kadiweu, de Mato Grosso, que atualmente estão praticamente extintos.

As fotos também evocam a tranqüilidade da vida diária nas aldeias indígenas: uma das imagens mostra um jovem caçador com um arco e flechas utilizados para matar quatro tucanos que traz amarrados às costas.

É claro que sempre se discute se os objetos feitos pelos chamados povos primitivos por motivos religiosos ou ritualísticos se constituem em arte. E é verdade que, até recentemente, os índios brasileiros despertavam mais interesse entre os antropólogos do que entre os colecionadores de arte.

Mas essa exposição procura mostrar que esses índios são verdadeiros artistas: os seus cocares de penas e corpos pintados podem conter significados simbólicos, mas devem também ser admirados pelo seu valor artístico inerente. Uma exposição de trabalhos de Levi-Strauss integra "Ano do Brasil" Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host